Embargo imposto pelos EUA cortou fornecimento de petróleo à ilha, que já sofre com apagões constantes. Sem combustível, cubanos podem enfrentar crise generalizada de abastecimento.O sol voltou a brilhar sobre Havana. Durante vários dias, uma frente fria trouxe ar polar para o Caribe. Isso fez com que, pela primeira vez na história do país, algumas regiões registrassem temperaturas próximas de zero. O clima sombrio que paira sobre Cuba nestes últimos tempos, no entanto, tem outros motivos além do ar frio que vem dos EUA.

A ilha caribenha deixou de receber petróleo da Venezuela, seu maior aliado, após os americanos capturarem o presidente Nicolás Maduro. No final de janeiro, Donald Trump chamou Cuba de “ameaça excepcional à segurança nacional dos Estados Unidos” e prometeupunir com tarifas adicionais todos os países que continuarem a fornecer petróleo ou derivados ao governo cubano.

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, havia chamado essas medidas de “fascistas, criminosas e genocidas”. Agora, ele declarou que Cuba está disposta a dialogar com os EUA, “sem exigências prévias”. Paralelamente, Díaz-Canel insiste que o regime do país não está “à beira do colapso”, e anunciou medidas para fortalecer o setor energético.

“Trump é louco, ele quer nos sufocar. E o outro é ainda mais fanático quando se trata de Cuba”, diz Aleida, que administra uma pousada particular em Havana, referindo-se ao secretário de Relações Exteriores dos EUA, Marco Rubio, de origem cubana. Ele é considerado o principal responsável por impulsionar a política de “pressão máxima” contra Venezuela e Cuba. “Só podemos esperar para ver o que vai acontecer”, diz Aleida, demonstrando preocupação.

“Às vezes penso que ele [Trump] vai atacar e, outras vezes, que ele não vai nos deixar afundar para depois se apresentar como o mocinho”, diz Rachel, funcionária pública de 21 anos, acrescentando que espera que as coisas fiquem ainda mais difíceis na ilha.

“Trump prejudica as pessoas comuns, não o governo”, diz Ramón. O sexagenário ganha a vida como motorista de táxi no setor de turismo, que sofreu uma queda ainda maior no ano passado. A gasolina só pode ser comprada com moeda estrangeira, após esperar horas em fila nos “postos do dólar”. Os cortes de energia de dez a 15 horas também são comuns em Havana, já que o país produz apenas cerca de 40% da eletricidade de que necessita.

Fora isso, a vida em Havana continua como o de costume, mesmo após a ameaça de Trump de aumentar as tarifas alfandegárias. É o que aponta Bert Hoffmann, pesquisador-chefe do Instituto GIGA de Estudos Latino-Americanos. “Percebo uma grande espera. Há muita normalidade em meio à crise, um ‘vamos continuar assim’. Os cortes de energia aumentaram, a gasolina ficou mais escassa, mas tudo de forma relativamente gradual. Os carros seguem nas ruas”, diz Hoffmann, que está atualmente na capital cubana. Para ele, no entanto, trata-se de uma normalidade enganosa, porque o país “não tem perspectivas de conseguir petróleo”.

Uma nova realidade

Hoffmann diz que tudo mudou para Cuba desde 3 de janeiro: a Venezuela deixou de ser seu principal fornecedor de petróleo e o segundo fornecedor mais importante, o México, suspendeu as remessas previstas para janeiro. Desde 9 de dezembro, nenhum petroleiro atracou em Cuba.

Em janeiro, Cuba comprou um carregamento de petróleo no chamado “spot market”. O navio do Togo, que deveria chegar à ilha em 4 de fevereiro, mudou a rota em alto mar para a República Dominicana. Uma das suspeitas é que isso tenha ocorrido por pressão dos EUA, segundo Hoffmann. “Ou seja, mesmo que Cuba possa comprar petróleo, ele não chega ao destino”, explica o pesquisador.

O mesmo se aplica a possíveis fornecimentos da Argélia, Angola, China ou Vietnã. “No momento, eu diria que os EUA estão se empenhando muito para barrar isso”, afirma Hoffmann. “Parece que o mais provável é que Cuba não receba petróleo num futuro próximo. E isso é brutal.”

Especialistas estimam que a demanda atual de petróleo de Cuba seja de cerca de 100 mil barris de petróleo bruto por dia (bpd). Até então, entre um quarto e um terço desse volume dependia da Venezuela. O México forneceu, em 2025, cerca de 6 mil a 12 mil bdp, enquanto a Rússia e a Argélia enviaram quantidades menores ao país caribenho.

“Há gente dizendo que o petróleo vai acabar em fevereiro”, diz a funcionária pública Rachel. “Estamos em fevereiro”, observa ela, torcendo para que uma eventual redução no consumo faça as reservas durarem um pouco mais.

Embora Cuba tenha investido, nos últimos dois anos, em uma expansão massiva de parques solares com o apoio da China, essas estruturas estão longe de cobrir a demanda do país por energia elétrica. O abastecimento continua dependente das usinas térmicas de construção soviética, suscetíveis a estragos. Isso significa que Cuba depende urgentemente da importação de energia. O petróleo pesado produzido no país, que cobre cerca de 40% da demanda, não pode ser transformado em gasolina e é utilizado apenas para as usinas elétricas.

Segundo Hoffmann, ninguém sabe por quanto tempo o combustível disponível em território cubano vai durar. No final de janeiro, o Financial Times estimava de 15 a 20 dias. Mas as consequências serão fatais em qualquer caso. “Basicamente, é uma questão de semanas até que não haja mais gasolina. E quando não houver mais gasolina, não só os turistas não poderão ir da praia ao aeroporto, como também os alimentos do campo não chegarão à cidade”, enfatiza o especialista do GIGA.

O pesquisador cita uma empresa alemã que produz oxigênio medicinal para hospitais em Cuba. “Se o caminhão não tiver combustível, o oxigênio não chega ao hospital e as pessoas morrem”, alerta ele. E se não for mais possível transportar alimentos, a população passará fome.

Na semana passada, o México anunciou o envio de ajuda humanitária e também está avaliando medidas diplomáticas para salvar o fornecimento de petróleo na ilha caribenha. O México é muito dependente dos EUA economicamente, de modo que sua margem de manobra é limitada. E com as renegociações do acordo de livre comércio americano, que começarão em breve, Trump tem mais uma vantagem sobre o país vizinho.

“Contatos não são negócios”

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, também se ofereceu como mediadora para possíveis negociações entre Washington e Havana, embora não esteja claro o que estaria em pauta nessas conversas. Em uma audiência no Senado em janeiro, o secretário de Relações Exteriores dos EUA, Marco Rubio, não escondeu que quer uma mudança no regime cubano.

Em comparação com a Venezuela, Cuba tem menos peso econômico – mas o valor simbólico é maior. A ilha caribenha representa a resistência contra a Doutrina Monroe e a pretensão de hegemonia dos EUA no Hemisfério Ocidental.

“É uma conta em aberto”, diz Hoffmann. “Em Washington, eles têm a sensação de que realmente têm tudo sob controle e que agora é o momento em que Cuba precisa se render, seja lá o que isso signifique especificamente”. Segundo ele, por isso é difícil imaginar “em quais pontos a liderança cubana poderia chegar a um acordo com Trump e Rubio”.

Trump garantiu, nos últimos dias, que os dois países estão negociando. Havana negou: há contatos, mas não diálogo. O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossio, declarou, na última terça-feira (03/02), em entrevista à agência de notícias EFE, que “mensagens foram trocadas”, mas enfatizou que “seria errado dizer que estão sendo preparadas negociações bilaterais”. Havana já declarou algumas vezes que está disposta a manter conversações com os EUA, mas “em pé de igualdade”.

Diante do embargo ao petróleo, Cossio admitiu que seu país tem “opções limitadas”. Ele anunciou um plano de emergência que será comunicado à população “nos próximos dias”. Segundo ele, será “difícil para o governo e muito difícil para a população em geral”.

Já a Rússia tem se mantido firme em seu apoio a Cuba, ao menos na retórica. A jornalistas, o embaixador russo Viktor Koronelli disse que Moscou planeja continuar fornecendo petróleo ao aliado. “O petróleo russo foi fornecido várias vezes a Cuba nos últimos anos. Acreditamos que essa prática continuará”, afirmou Koronelli à agência russa RIA Novosti.