06/01/2026 - 10:33
O ataque americano marca uma virada na política de Washington em relação ao continente. Quais países latinos podem agora ficar sob pressão e quais líderes enfrentam os maiores riscos?O ataque dos EUA à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro não apenas desestabilizaram o equilíbrio político interno do país, como também enviaram um sinal claro ao restante da América Latina . Para Washington, a operação representa a demonstração mais contundente até agora da disposição do governo americano em usar a força para impor o que considera seus interesses estratégicos no Hemisfério Ocidental.
Para Elizabeth Dickinson, analista sênior para a Colômbia do think tank International Crisis Group (ICG), a mensagem central é inequívoca. “Os Estados Unidos estão afirmando seu direito de pressionar e intervir na região para alinhá-la aos seus interesses de segurança”, sublinha. Ela avalia que a operação na Venezuela serve como um aviso direto a outros governos: “Ou se alinham às políticas de Trump ou enfrentarão esse tipo de consequência”.
Estratégia implementada passo a passo
Para muitos governos latino-americanas, o ataque confirmou que a nova estratégia de segurança nacional dos EUA não é mais apenas um documento político. “Não se trata apenas de burocracia. Washington está agindo de forma ativa e surpreendente”, ressalta Maureen Meyer, vice-presidente de programas da ONG Escritório de Washington para a América Latina (Wola).
Meyer alerta que a região percebe um retorno a práticas do passado. “Há uma crescente preocupação de que isso seja uma retomada à diplomacia das canhoneiras, com um governo dos EUA disposto a usar a força militar.” Segundo a especialista, a estratégia de Trump prioriza o Hemisfério Ocidental e combina coerção econômica, pressão política e uma maior presença militar.
Colômbia: eleições sob pressão
A Colômbia está se tornando um dos países mais vulneráveis. Trump disse que o país vizinho da Venezuela é governado por um “homem doente” que adora “produzir cocaína e vendê-la nos Estados Unidos”. O republicano acrescentou que “ele não fará isso por muito tempo”, sem explicar detalhes. O presidente americano já havia criticado duramente o presidente colombiano, Gustavo Petro , em diversas ocasiões. Quando um jornalista perguntou se haveria uma intervenção militar contra a Colômbia, Trump respondeu: “Isso me soa bem”.
Elizabeth Dickinson, especialista do ICG, enfatiza que a relação entre Trump e Petro se deteriorou rapidamente. No entanto, considerando os indícios de que a operação contra Maduro exigiu meses de preparação, ela não acredita que haja um perigo imediato de intervenção militar.
O contexto eleitoral na Colômbia oferece outra oportunidade. Com as eleições presidenciais marcadas para maio , Dickinson acredita que “a mensagem para a Colômbia é um sinal da disposição dos Estados Unidos em influenciar o resultado do pleito”. Do ponto de vista de Washington, seria preferível um governo mais alinhado com suas prioridades – o combate ao narcotráfico, o controle da imigração e a cooperação em segurança.
Cuba em posição vulnerável
Cuba aparece repetidamente nos alertas de Washington. Dickinson lembra que “Cuba tem sido uma prioridade política há décadas para figuras-chave no círculo de Trump”.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, filho de exilados cubanos, passou anos se posicionando como um opositor ferrenho do regime socialista autoritário de Havana.
Meyer aponta que já existem efeitos colaterais. “Os Estados Unidos esperam enfraquecer ainda mais a economia cubana, reduzindo seu acesso ao petróleo e rompendo suas relações com a Venezuela”. Embora não esteja claro se haverá uma ação militar direta, a especialista acredita que Havana está em uma posição particularmente vulnerável.
México: entre cooperação e soberania
O México ocupa uma posição diferente, mas não menos delicada. Segundo Meyer, o país aprendeu a gerir uma relação marcada pela coerção. “A ameaça real de tarifas e força militar levou o México a adaptar políticas para conter a migração e o narcotráfico”, frisa a analista.
No entanto, poucas horas após a intervenção dos EUA na Venezuela, Trump questionou a autoridade da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, que se opôs às operações americanas contra os cartéis de drogas em seu país. “Ela não governa o México, os cartéis governam. Temos que fazer algo em relação ao México”, afirmou Trump.
Dessa forma, o ataque à Venezuela aumenta o nível de alarme regional.
“Esse precedente obriga os governos a recalibrar a forma como reagem e como cooperam com uma administração imprevisível”, adverte Meyer.
Quem tem mais a temer?
Embora a operação na Venezuela não indique necessariamente que ocorrerão ações imediatas em outros países, Dickinson enfatiza que a ameaça faz parte da estratégia. “A possibilidade de intervenção exerce uma pressão constante para que os governos se adaptem às prioridades dos EUA”.
Para Meyer, o maior impacto do ataque não é imediato, mas estrutural. “Um precedente perigoso foi estabelecido”, alerta.
A região agora observa Washington conduzir a transição na Venezuela, ciente de que o sucesso ou o fracasso desta operação condicionará os próximos passos dos Estados Unidos na América Latina.
