05/02/2026 - 17:07
Obsessão do presidente americano pela Groenlândia pressiona as Forças Armadas dinamarquesas. Expansão militar ocorre em meio à insatisfação crescente com a postura dos EUA.Haderslev, uma cidade próxima à costa leste da Dinamarca, foi palco da última guerra travada pelas forças dinamarquesas em seu próprio território. Isso ocorreu em 1940, quando a Alemanha invadiu o país. Agora, em um cenário antes inimaginável na Europa do pós-guerra, a soberania dinamarquesa está novamente ameaçada – desta vez pelos Estados Unidos, maior aliado de Copenhague. E, mais uma vez, é em Haderslev que novos soldados dinamarqueses se preparam para um futuro imprevisível.
Ano passado, o governo dinamarquês decidiu estender o serviço militar obrigatório de quatro para 11 meses e torná-lo neutro em termos de gênero, eliminando o direito que as mulheres tinham até então de recusar o serviço. A ameaça da Rússia, com a qual todos os países nórdicos estão acostumados a lidar, só aumentou nos últimos anos com a invasão em grande escala da Ucrânia em 2022 e a intensificação dos ataques híbridos.
Mas a recusa reiterada do presidente americano, Donald Trump, em descartar o uso da força para adquirir a ilha dinamarquesa semiautônoma da Groenlândia, e a apatia da administração Trump em relação à Otan em geral, provavelmente levaram Copenhague ao limite, pondo fim a décadas de complacência.
“Mundo completamente novo”
“Se não podemos confiar nos americanos, e os russos estão realmente vencendo, então estamos em um mundo completamente novo”, diz Peter Viggo Jacobsen, da Academia de Defesa da Dinamarca (FAK, na sigla em dinamarquês), principal instituição de ensino, investigação e formação das Forças Armadas dinamarquesas. “Essa tem sido a mensagem oficial do governo desde fevereiro do ano passado, e é nesse ambiente que esses jovens estão entrando.”
A primeira turma de recrutas a iniciar o treinamento sob o novo sistema se apresentou na manhã desta segunda-feira (02/02) no quartel de Haderslev.
“Este é definitivamente um dia muito importante para a defesa dinamarquesa”, afirma o chefe do programa de recrutamento do Comando de Defesa da Dinamarca, Coronel Kenneth Strom. “Isso possibilita ter maior poder de combate e ter esse poder de combate mais rapidamente.”
Meta é ter 2 mil novos soldados a mais por ano
Embora o serviço militar seja obrigatório, todos os 120 integrantes desta primeira turma são voluntários – a Dinamarca ainda tem a vantagem de poder recusar candidatos que se oferecem para servir.
Uma das selecionadas é Leorah Olsen. “Estou feliz por estar aqui”, diz a recruta de 19 anos. Sorridente, ela comemora a extensão do tempo de prestação de serviço. “Acho que isso me dá mais oportunidades de aprender e adquirir mais experiência.”
Ela diz que tem interesse em ingressar na polícia militar, mas não havia pensado muito sobre o ambiente de ameaças intensificadas que a Dinamarca enfrenta atualmente.
Já Sebastian Hedegaard, de 23 anos, diz ter de fato considerado os riscos do serviço militar, pois sempre quis se alistar. “Definitivamente penso nisso”, reconheceu enquanto desfazia as malas ao lado dos beliches no quartel. “Obviamente, ir para a guerra é uma grande preocupação […]. Talvez não aconteça. Talvez aconteça.”
Hedegaard acredita que essa possibilidade esteja mais próxima hoje do que há um ano, mas não identifica a Rússia ou os EUA necessariamente como os principais desafios, e sim “o mundo inteiro, a situação em que nos encontramos”.
Tobias Roed Jensen, do Comando de Defesa Dinamarquês, explica que, até 2033, o novo sistema deverá formar quase 2 mil pessoas a mais por ano. Em 2024, antes da mudança no recrutamento, cerca de 4,6 mil por ano completavam o serviço de quatro meses. Esse número aumentará para 6,5 mil por ano a longo prazo, reforçando significativamente o efetivo atual de mais de 20 mil militares das forças de defesa, segundo estimativas disponíveis publicamente.
Força baseada na Groenlândia deve crescer
Essas forças têm maior probabilidade do que antes de serem enviadas para a Groenlândia, em decorrência das ameaças de Trump. Antes de o presidente dos EUA recuar após as negociações em Davos, a Dinamarca aumentara sua presença militar na ilha – e até reforçou suas ordens, um cenário que o analista militar Jacobsen considerou difícil de imaginar, mas compreensível.
“É inacreditável que um primeiro-ministro dinamarquês tenha que ir à televisão e dizer que a Dinamarca não descartará o uso da força porque os EUA não o estão fazendo”, afirma. “Então, de certa forma, a Dinamarca foi forçada a colocar forças em solo groenlandês com ordens para atirar em caso de um ataque dos EUA.”
Em Haderslev, o comandante do regimento, Kore Jacobsen, reconhece que essa situação terá que fazer parte do treinamento dos novos recrutas. “Os jovens que estamos recebendo estão nas redes sociais o tempo todo, então sabem o que está acontecendo no mundo”, diz. “Por isso, precisamos abordar essa questão e explicar a eles o que realmente está acontecendo e para que vamos utilizá-los nesse contexto. Sei que alguns deles estão bastante ansiosos para saber o que a defesa dinamarquesa fará e o que o governo pretende fazer a respeito.”
Nova afronta de Trump
Tão logo a crise na Groenlândia arrefeceu, Trump voltou a escandalizar os aliados da Otan, especialmente a Dinamarca, ao declarar que os países que serviram ao lado dos EUA no Afeganistão permaneceram “um pouco afastados da linha de frente”.
À exceção dos EUA, a Dinamarca perdeu mais soldados per capita nessa guerra do que qualquer outro país: 44 de seus homens morreram no Afeganistão enquanto serviam em missões lideradas pela Otan, segundo as Forças Armadas da Dinamarca.
Em resposta às declarações de Trump, cidadãos colocaram 44 bandeiras dinamarquesas com os nomes dos militares mortos em frente à embaixada dos EUA em Copenhague na terça-feira da semana passada. A equipe de segurança da embaixada removeu as bandeiras naquela mesma noite, no que o embaixador chamou de “mal-entendido”.
Pequenas réplicas de plástico foram reinstaladas posteriormente, mas foram ofuscadas por novas grandes réplicas, também bordadas com os nomes dos soldados mortos, levadas ao local em uma passeata silenciosa que contou com a participação de milhares de veteranos no sábado.
Um dos participantes da marcha era o general reformado da Força Aérea Christian Hvidt, de 83 anos. Ele, que afirma nunca ter participado de uma manifestação antes, diz ter sentido profundamente a afronta de Trump, pois ele próprio havia despachado tropas dinamarquesas ao Afeganistão – muitos dos quais não retornaram com vida.
“Isso é uma facada nas costas”, diz, referindo-se ao comentário de Trump. “Estivemos lá desde o primeiro dia.”
Hvidt espera que os jovens que ingressam no serviço militar hoje não precisem lutar contra ninguém – especialmente não contra o aliado mais próximo da Dinamarca. “Eu sei que [os americanos] estão ao nosso lado”, afirma. “Minha esperança, claro, é que um homem, ou dois ou três, não consigam interromper isso para sempre. Seremos muito próximos de novo um dia. É o que eu espero, e tenho certeza de que isso acontecerá.”
Mas certamente não é assim que muitos dos dinamarqueses como Hvidt se sentem atualmente. Uma nova pesquisa da emissora pública dinamarquesa DR indica que menos de um quinto dos dinamarqueses ainda considera os EUA um aliado.
