25/02/2026 - 20:13
Principal festival de cinema da Alemanha se vê cercado de controvérsias após discurso de cineasta palestino que acusou Berlim de respaldar “genocídio” em Gaza.O comissário do governo federal da Alemanha para a Cultura, Wolfram Weimer, cogita demitir a diretora do Festival Internacional de Cinema de Berlim, Tricia Tuttle, em razão de uma polêmica envolvendo seu suposto apoio à equipe de um diretor de origem palestina que gerou enorme controvérsiano país, informou o jornal alemão Bild nesta quarta-feira (25/02), citando fontes da organização responsável pela gestão da Berlinale.
O Bild relatou ter obtido a confirmação do Ministério da Cultura de que Weimer convocará uma reunião extraordinária nesta quinta-feira para tratar da questão, embora embora ainda não haja anúncio oficial sobre a demissão de Tuttle.
Segundo o jornal, Weimer e Tuttle teriam concordado que ela não teria condições de permanecer à frente do festival, após a reação política gerada pelos discursos na cerimônia de premiação em 22 de fevereiro.
O Bild também menciona uma fotografia que supostamente compromete a credibilidade de Tuttle aos olhos do governo alemão. O jornal descreve a foto, de 15 de fevereiro, da diretora do festival posando com a equipe do filme Chronicles From a Siege (“Crônicas de um Cerco”) dirigido pelo cineasta palestino-sírio Abdallah Alkhatib, como um “escândalo” e uma “foto de propaganda demonstrativa”.
Na imagem, membros da equipe do filme usam um kufiya – o lenço tradicional palestino – e uma pessoa segura uma bandeira palestina, mas a própria diretora não ostenta nenhum símbolo.
Este foi o segundo ano de Tuttle à frente do Festival de Cinema de Berlim. A Berlinale lida com críticas e acusações de antissemitismo desde sua edição de 2024.
Os vencedores dos prêmios da Berlinale deste ano e seus discursos de agradecimento revelaram o difícil equilíbrio que o festival tenta manter.
Ao encerrar um festival de dez dias que teve início com uma enxurrada de críticas nas redes sociais em torno do comentário do , os filmes selecionados para ganhar os principais prêmios, Yellow Letters (“Cartas Amarelas”), de Ilker Çatak, e Salvation (“Salvação”), de Emin Alper, reforçaram a percepção de que a Berlinale continua sendo o mais político dos três grandes festivais de cinema da Europa, depois de Cannes e Veneza.
Após uma carta aberta que acusava a Berlinale de censurar artistas que se manifestavam sobre a crise humanitária na Faixa de Gaza, vários vencedores de prêmios no festival usaram seus discursos de agradecimento para fazer declarações políticas sobre o assunto.
Comentário provoca forte reação política
Um dos agraciados, em particular, criticou diretamente o governo alemão por permanecer um aliado fiel de Israel.
O diretor sírio-palestino Abdallah Alkhatib, que recebeu o prêmio de Melhor Primeiro Longa com Chronicles From a Siege afirmou, ao aceitar a premiação, que, como refugiado na Alemanha, havia sido alertado para não ultrapassar “linhas vermelhas” em seu discurso. Mesmo assim, ele questionou por que o país aceitou ser “parceiro do genocídio em Gaza por Israel”. “Acredito que vocês sejam inteligentes o suficiente para reconhecer isso, mas optam por não se importar”, afirmou.
O Ministro do Meio Ambiente, Carsten Schneider – o único membro do governo alemão presente na cerimônia – abandonou a sessão de premiação durante o discurso de Alkhatib, declarando posteriormente que as observações eram “inaceitáveis”.
Wolfram Weimer rejeitou a alegação de Alkhatib sobre a posição da Alemanha: “Essas falsas alegações são maliciosas e envenenam o debate político. Elas destroem a apreciação da arte cinematográfica na Berlinale”, disse Weimer ao jornal Tagesspiegel.
A Alemanha é frequentemente descrita como um dos principais apoiadores de Israel e um de seus maiores fornecedores de armas. Líderes políticos afirmam que essa posição se baseia principalmente na culpa histórica dos alemães pelo Holocausto nazista – uma política conhecida como Staatsraison, ou “razão de Estado”.
Especialistas em direitos humanos, acadêmicos e uma investigação da ONU afirmam que os ataques de Israel à Faixa de Gaza se equivalem a genocídio, o que Israel nega veementemente, alegando que suas ações no enclave palestino são justificadas como autodefesa após os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023.
Tuttle: “Não recebemos nenhuma diretriz”
O governo alemão financia 40% da Berlinale. Em meio a cortes significativos no financiamento das artes e da cultura, o festival está sob pressão para manter o apoio do Estado.
Durante a Berlinale, Tricia Tuttle insistiu que isso não limita o que a Berlinale pode dizer ou fazer. “Eles têm supervisão estratégica, pois eu reporto a eles sobre assuntos financeiros”, disse a diretora à DW, “mas o que fazemos, o que dizemos, depende inteiramente de nós. Não recebemos comunicados. Não recebemos nenhuma diretriz.”
Em 2024, a comissão de cultura de Berlim considerou condicionar o financiamento para as artes apenas para aqueles que se comprometessem com a controversa definição de antissemitismoda Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA). Embora a proposta de “cláusula antidiscriminação” para financiamento das artes tenha sido finalmente descartada, ela também contribuiu para que as instituições culturais se sentissem pressionadas.
Um dos argumentos da carta aberta de 2026 contra a Berlinale é que o festival já fez “declarações claras” sobre as “atrocidades” cometidas contra civis na Ucrânia e no Irã.
“Conclamamos a Berlinale a cumprir seu dever moral e declarar claramente sua oposição ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra contra os palestinos cometidos por Israel, e a encerrar completamente seu envolvimento em proteger Israel de críticas e pedidos de responsabilização”, diz a carta.
Tuttle justificou a tentativa do festival de permanecer neutro pelo fato de que essa questão específica “é realmente polarizadora. Em todas as conversas, é preciso levar em conta a complexidade da situação.”
Pressões de ambos os lados
A Berlinale também é observada de perto pelas autoridades israelenses e por críticos culturais.
O embaixador israelense na Alemanha, Ron Prosor, elogiou a saída de Carsten Schneider da cerimônia de premiação: “Respeito ao Ministro Schneider e à sua clareza moral”, disse Prosor ao Bild neste domingo, acrescentando que a Berlinale corria o risco de comprometer sua boa reputação se “servisse de plataforma para quem odeia Israel”.
Também reagindo à cerimônia de premiação, um blogueiro do jornal israelense Times of Israel afirmou que “a elite cultural alemã está brincando com fogo”, enquanto um comentarista do jornal judaico alemão Jüdische Allgemeine Zeitung descreveu o discurso de Alkhatib como “intolerância”.
Do outro lado do debate, a campanha que pressionava a Berlinale a tomar uma posição oficial sobre Gaza também colocou cineastas e atores sob pressão, fazendo com que fossem questionados sobre suas posições políticas em coletivas de imprensa ao longo da semana.
Isso não apenas levou à declaração controversa de Wenders sobre “ficar fora da política”; muitos outros foram questionados sobre assuntos não relacionados aos seus filmes. “Esses momentos virais podem ser realmente prejudiciais para os filmes, se isso significar que tudo o que estamos escrevendo é sobre a controvérsia, e não sobre os filmes”, disse Tuttle.
A diretora afirmou que as perguntas tendenciosas não são prejudiciais apenas para o festival, mas também para as personalidades culturais que aceitaram participar do evento. “As pessoas são forçadas a falar, e se não falam, isso é uma afronta. Se falam e não dizem o que quem pergunta quer ouvir, isso é uma afronta. E se dizem algo errado, isso é um problema enorme.”
O vídeo de Wim Wenders que viralizou também levou a escritora indiana Arundhati Roy a boicotar o festival. Ela sentiu que dizer que os cineastas deveriam ficar fora da política “é uma forma de silenciar uma conversa sobre um crime contra a humanidade enquanto ele se desenrola diante de nós em tempo real, quando artistas, escritores e cineastas deveriam estar fazendo tudo ao seu alcance para impedi-lo.”
“Os artistas são livres para exercer seu direito à liberdade de expressão da maneira que escolherem”, disse Tuttle em reação à tempestade nas redes sociais. “Não se deve esperar que eles comentem sobre todos os debates mais amplos a respeito das práticas anteriores ou atuais de um festival, sobre as quais não têm controle.”
Reflexões sobre Yellow Letters
Ilker Catak, cuja obra Yellow Letters ganhou o Urso de Ouro de melhor filme, fez um dos discursos mais impactantes da cerimônia de premiação. Ele observou que o foco da conversa não deveria ser as citações nas redes sociais que colocam cineastas uns contra os outros. “Não somos inimigos. Somos aliados”, afirmou. A verdadeira ameaça, acrescentou, “são os autocratas, os partidos de direita, os niilistas de nossa época. Não vamos lutar uns contra os outros. Vamos lutar contra eles.”
Yellow Letters conta a história de dois artistas que perdem seus cargos em um teatro estatal devido às suas opiniões políticas. O filme em turco teve as cidades alemãs de Berlim e Hamburgo representando Ancara e Istambul. O drama político também se mantém propositalmente vago quanto aos nomes dos políticos que reprimem a liberdade artística dos artistas e, da mesma forma, evita detalhar o que quer que os artistas tenham feito para enfrentar uma proibição de trabalho.
Alguns críticos de cinema sentiram que essa imprecisão prejudicou o impacto de Yellow Letters, enquanto outros observaram que o fato de o filme ter sido rodado na Alemanha serviu como um forte lembrete de que a censura artística pode acontecer em qualquer lugar, não apenas na Turquia.
A questão permanece: à medida que a Berlinale navega pelos debates polarizados de nossa época, manterá seu compromisso com vozes artísticas diversas, mesmo que, por vezes, controversas?
Cerca de 1,2 mil pessoas foram mortas durante os ataques terroristas do grupo islamista Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, e 251 pessoas foram capturadas como reféns.
Na guerra que se seguiu em Gaza, mais de 70 mil palestinos foram mortos – segundo o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, administrado pelo grupo islamista Hamas.
