Ação criminosa revelou lacunas de segurança do museu. Greves, vazamentos de água e fraude na venda de ingressos se somavam à lista de problemas da instituição.A diretora do Museu do Louvre, Laurence des Cars, renunciou nesta terça‑feira (24/02), sob pressão desde o roubo cinematográfico de outubro, que acarretou a perda de joias preciosas avaliadas em 88 milhões de euros (R$534 milhões). Com as peças ainda desaparecidas, o assalto escancarou lacunas na segurança do museu mais visitado do mundo, em Paris.

O presidente da França, Emmanuel Macron, informou ter aceitado o seu pedido de saída, a que chamou de “ato de responsabilidade” em que o Louvre “precisa de calma e de um novo ímpeto forte para levar adiante com sucesso grandes projetos envolvendo segurança e modernização.”

Os problemas sob a gestão da diretora vinham se acumulando. O museu sofreu com fechamentos regulares em razão de greves por melhores salários e condições de trabalho. Também houve dois vazamentos de água que danificaram livros valiosos, e uma grande investigação sobre fraude na venda de ingressos está em andamento.

Críticos, incluindo auditores estatais, questionaram os baixos gastos do museu com segurança e manutenção de infraestrutura, a despeito de compras robustas de obras de arte e investimentos significativos em projetos de relançamento pós-pandemia.

“Falhas sistêmicas”

A pressão sobre des Cars se tornou insustentável na quinta-feira, quando parlamentares liderando uma investigação apontaram para “falhas sistêmicas” como a causa do roubo do ano passado.

“O roubo no Louvre não é um acidente”, disse Alexandre Portier a jornalistas, acrescentando que a instituição estava “em negação” sobre os riscos de segurança. Segundo ele, a gestão do Louvre havia “fracassado” e, “em vários países ou instituições”, a direção já teria sido substituída.

Des Cars apresentou pouco depois da invasão a primeira renúncia, recusada por Macron. O presidente a nomeou para o posto em 2021.

A investigação, que é liderada por parlamentares da oposição, deve ouvir des Cars e a ministra da Cultura, Rachida Dati, na próxima semana. Criada no início de dezembro, a comissão divulgará suas conclusões no começo de maio.

“O que chama a atenção é ver que o Louvre se tornou um Estado dentro do Estado”, acrescentou Portier, conclamando o Ministério da Cultura a intervir mais diretamente na gestão da instituição.

O Ministério da Cultura francês ordenou uma auditoria interna própria sobre o roubo, enquanto senadores também conduzem audiências.

Quatro suspeitos estão sob custódia policial, incluindo os dois supostos ladrões que assaltaram o Louvre em plena luz do dia. As joias roubadas têm “importância cultural e histórica inestimável”, além de seu valor de mercado, afirmaram na época os ministérios franceses da Cultura e do Interior.

Fraude de ingressos

Num caso separado, promotores de Paris disseram anteriormente neste mês que nove pessoas estavam detidas em conexão com um esquema de fraude na venda de ingressos. Todas elas foram formalmente acusadas e apresentadas a juízes de instrução.

Entre os suspeitos estão dois guias turísticos chineses. Eles são acusados de reutilizar os mesmos ingressos várias vezes para levar ao museu visitantes diferentes, supostamente com a ajuda de funcionários do Louvre.

O Louvre apresentou uma denúncia em dezembro de 2024. Investigadores estimam prejuízos superiores a 10 milhões de euros (R$61 milhões) ao longo de uma década, com a suposta rede criminosa levando até 20 grupos guiados por dia.

Kim Pham, administrador-geral e número dois do Louvre, disse que a escala única do museu torna fraudes “estatisticamente inevitáveis”. “Qual museu no mundo, com este nível de visitantes, não teria em certos momentos alguns problemas de fraude?”, questionou Pham, que supervisiona as operações do dia a dia no museu.

A tarefa não é fácil: são 86 mil metros quadrados de espaço apresentando 35 mil obras de arte a 9 milhões de visitantes por ano. Pressionado a citar outras instituições com problemas semelhantes, ele preferiu não apontar pares específicos.

ht (AP, AFP, dpa, Reuters)