29/01/2026 - 18:25
Moradores e prefeitos da região de Trás-os-Montes se opõem a mina gigante a céu aberto por razões ambientais, enquanto governo do país, UE e empresas estão de olho em lucros da transição energética.No norte de Portugal , a descoberta da maior reserva de lítio da Europa, na região de Trás-os-Montes, tem despertado o interesse da indústria automobilística europeia, que patina para fazer frente à concorrência chinesa. Segundo estimativas, há lítio suficiente para produzir 500 mil ou até um milhão de baterias de carros elétricos por ano.
O achado também preocupou moradores, que reclamam dos riscos , até então distantes da realidade europeia , de não se beneficiarem da atividade e terem seus meios de vida ameaçados: rios e solo poluídos e escassez de água – já que a extração do mineral exige enormes quantidades de água, com o desvio de rios e nascentes prejudicadas.
A transição energética e a emergência climática têm impulsionado a corrida pelo lítio e outros minerais críticos, considerados o “novo petróleo”. A demanda por esses recursos vem crescendo porque eles são essenciais à fabricação de baterias de veículos elétricos, uma alternativa para os motores à combustão.
Atualmente, os maiores produtores do minério são Austrália, Chile, China e Argentina. O Brasil desponta nesse cenário com grandes reservas, como no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais – onde o Ministério do Trabalho e Emprego determinou a interdição de três das cinco pilhas de rejeito da Sigma Lithium, a maior mineradora de lítio do país, por descumprimento de regras ambientais.
“Não vamos permitir que destruam nossas terras”
Em Trás‑os‑Montes, a população se opõe à construção de uma mina gigantesca a céu aberto, planejada para extrair rochas ricas em lítio em uma área de quase 600 hectares.
“O projeto não conta com o apoio do município, da população, das organizações locais nem da comunidade”, afirma Nelson Gomes, integrante de uma iniciativa criada há sete anos para combater o empreendimento. “Não há qualquer apoio da sociedade para essa mina, como é exigido para projetos desse porte.”
Enquanto isso, a pequena vila de Covas do Barroso, onde a mina seria instalada, vive um clima constante de tensão. Os moradores chegaram a impedir que trabalhadores da Savannah Resources –empresa britânica de capital aberto — entrassem em suas propriedades para realizar perfurações de teste. O acesso só foi viabilizado por meio de um decreto governamental.
Atualmente, todas as atividades estão novamente paralisadas, já que o decreto perdeu validade. Como a maioria dos moradores rejeita as ofertas de compra apresentadas pela Savannah Resources, passou‑se a falar em possíveis desapropriações. “Não vamos permitir que destruam nossas terras”, diz o agricultor Nelson Gomes. “Continuaremos lutando contra a mina de lítio. Não vamos desistir.”
Acusações de corrupção e falta de transparência
A Comissão Europeia , porém, estabeleceu metas para ampliar a extração de matérias‑primas críticas dentro do bloco e classificou a mina portuguesa como um “projeto estratégico”.
Antes disso, o próprio governo português já havia declarado o empreendimento como “de interesse nacional”, o que simplifica os processos de licenciamento e praticamente elimina a necessidade de consulta aos moradores e municípios afetados.
Mas o governo responsável por essa decisão acabou caindo em 2023, em meio a acusações de corrupção — envolvendo, entre outros pontos, o licenciamento da mina de lítio. Além disso, autoridades violaram a Convenção de Aarhus da ONU, que garante direitos ambientais fundamentais, como acesso à informação e participação pública.
Há dois anos, o Ministério Público concluiu que os estudos de impacto ambiental obrigatórios foram elaborados de forma ilegal, já que as autoridades ocultaram informações relevantes das partes interessadas.
Com isso, a previsão inicial de início das operações em 2025 acabou sendo descartada. A empresa precisou revisar repetidamente seus planos e fortalecer as medidas de proteção ambiental. Ainda assim, persistem dúvidas sobre a viabilidade ecológica do projeto: “Temos estudos de especialistas internacionalmente reconhecidos indicando que, em caso de acidente, resíduos e águas contaminadas poderiam poluir cursos d’água em larga escala”, afirma Nelson Gomes.
População à margem
O que mais revolta os moradores, no entanto, é a postura do governo e da empresa responsável. “Até agora, ninguém entrou em contato comigo para discutir as vantagens e desvantagens do projeto”, reclama o prefeito Guilherme Pires, da cidade de Boticas. “As preocupações da população não são levadas a sério.”
Segundo ele, o governo impôs o projeto à região, ignorando produtores tradicionais e áreas de plantação que seriam devastadas pela mina. “A ONU classificou essa região como patrimônio agrícola mundial justamente por suas características únicas”, destaca Pires.
Em vez de apoiar produtos locais — como carne bovina certificada, embutidos ou mel orgânico —, o governo estaria favorecendo exclusivamente a empresa exploradora. “Soube pela imprensa que o governo vai dar 110 milhões de euros [R$ 688,8 milhões pela cotação atual] a eles. Simples assim, como subsídio”, critica o prefeito.
A organização ambientalista Zero também condena o projeto. “Todo o processo da mina tem sido obscuro e questionável desde o início”, resume Nuno Forner. A região, já historicamente negligenciada, corre o risco de perder suas particularidades. E a população continua em peso contrária ao projeto, reforça Pires. “Mesmo que alguns agora tentem passar uma impressão diferente.”
Parte dos moradores apoia a mina
Os poucos que são favoráveis, mencionados por Pires, incluem a própria Savannah Resources, que tenta conquistar a população com folhetos sofisticados e eventos promocionais.
A empresa também atua em parceria com uma nova iniciativa, chamada “Futuro para Barroso”. Segundo seu presidente, José Moura, o objetivo é obter o máximo possível de benefícios para a região.
“A mina representa progresso e vantagens econômicas”, afirma Moura. Para ele, o prefeito deveria colaborar com a empresa, em vez de criticá‑la.
Greenwashing no setor de mineração
“Estamos vendo uma tentativa de apresentar a mineração como verde, sustentável e ecológica”, alerta Nik Völker, da ONG MiningWatch Portugal. “Querem criar a impressão de que minas podem operar sem causar danos ambientais — ou com danos mínimos. Especialmente quando se trata de projetos considerados estratégicos, como o de Barroso.”
Em comunicado, a Savannah Resources afirma considerar essencial a cooperação da população local. Mesmo assim, recusou‑se a conceder entrevista, apesar das reiteradas solicitações.
A Comissão Europeia também declarou que a participação e a aceitação da população são fatores importantes para projetos estratégicos de mineração.
Mas, segundo o prefeito Guilherme Pires, nenhum desses critérios está sendo atendido. Ainda assim, o empreendimento deve avançar. Após sucessivos adiamentos, o início da exploração agora está previsto para 2028.
