Países sofrem violações de espaço aéreo. Moldávia não tem condições de se defender, e presidente da Romênia minimiza os episódios, chamando-os de “acidentes”.A queda de um drone russo na terça-feira passada (25/11) em uma fazenda no vilarejo romeno de Puiesti, a 50 quilômetros da fronteira com a Moldávia, chocou moradores.

O proprietário, horrorizado, relatou à mídia local que estava em casa com a família quando ouviu um estrondo muito alto. Ao sair para verificar o que havia ocorrido, viu um drone sobre uma árvore.

Também consternados, outros moradores disseram à imprensa romena temer uma guerra, e que por isso iriam “arrumar as malas e partir”.

Quase ao mesmo tempo, na vizinha Moldávia, um drone russo caiu sobre o telhado de um prédio comercial na aldeia de Cuhurestii de Jos, a 15 quilômetros da fronteira com a Ucrânia, também assustando a população local. “A gente acorda de manhã sem saber o que esperar”, disse uma idosa ao canal moldavo JurnalTV.

Nos dois países, o clima é de medo e perplexidade. Ambos sofreram as mais graves violações de espaço aéreo por parte da Rússia desde o início da guerra em larga escala contra a Ucrânia.

Durante um ataque russo supostamente mirando o território ucraniano, seis drones russos invadiram o espaço aéreo moldavo – incluindo o que caiu em Cuhurestii de Jos.

Na Romênia, o drone que caiu em Puiesti aparentemente permaneceu por várias horas no espaço aéreo nacional e fez uma grande volta sobre o leste do país. Moradores de várias regiões receberam alertas de drones pelo celular nesse período.

Rússia faz de propósito?

A Moldávia, que é praticamente indefesa do ponto de vista militar e não tem um sistema funcional de defesa aérea contra drones, não tinha como derrubá-los.

É diferente o caso da Romênia, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan): lá, quatro caças da aliança militar do Ocidente foram acionados. No entanto, eles aparentemente perderam o drone de vista várias vezes e hesitaram em abatê-lo.

Os dois drones que caíram aparentemente não estavam carregados com explosivos. Em ataques russos à Ucrânia, esses objetos geralmente servem para enganar a defesa aérea, mas também podem ser usados em missões de reconhecimento.

As trajetórias percorridas pelos equipamentos desta vez, porém, sugerem que a Rússia os direcionou deliberadamente para esses países. Eles teriam voado da Crimeia sobre o Mar Negro até o delta do rio Danúbio, e depois para o sul e centro da Moldávia e leste da Romênia.

No entanto, diferentemente do que fez a Polônia em setembro de 2025 após um episódio semelhante, as autoridades da Moldávia e da Romênia até agora não acusaram a Rússia de ter direcionado intencionalmente os drones para seus territórios.

Violações repetidas

Na Moldávia, desta vez, o embaixador russo foi convocado a dar explicações sobre o episódio ainda na terça-feira.

A Romênia até agora não reagiu, embora o embaixador russo em Bucareste já tenha sido chamado várias vezes ao Ministério das Relações Exteriores por violações semelhantes do espaço aéreo, a última delas em meados de novembro. Na ocasião, também lhe foram mostrados fragmentos de um drone russo que caiu em território romeno.

Nos últimos anos, a Rússia violou dezenas de vezes o espaço aéreo da Moldávia e da Romênia com drones e mísseis. Também houve explosões na Romênia em diversas ocasiões – a última em 4 de novembro, perto da tríplice fronteira com a Moldávia e a Ucrânia, a cerca de dez quilômetros da cidade de Galați, às margens do Danúbio.

Na semana passada, um drone russo incendiou um navio-tanque de gás liquefeito no porto ucraniano de Izmail, do outro lado do rio Danúbio, ameaçando provocar uma explosão de grandes proporções. A apenas 250 metros, os moradores do vilarejo de Plauru, na Romênia, tiveram de ser transferidos para um local seguro.

Guerra no cotidiano

Na Moldávia e na Romênia, a guerra russa contra a Ucrânia está se tornando cada vez mais presente no dia a dia.

Principalmente na Romênia, que é parte da Otan, observadores se perguntam o que mais precisa acontecer para que haja uma resposta firme do governo atual e das forças da aliança estacionadas em solo romeno. A maior base aérea da Otan no sudeste da Europa fica próxima à cidade portuária de Constança, no Mar Negro.

“É incompreensível”, disse um apresentador do canal Digi24 ao comentar o episódio da terça-feira. “As leis para abater drones foram criadas, e as ordens, dadas. Os soldados tinham carta branca. E mesmo assim esse drone não foi abatido.”

O ministro romeno da Defesa, Ionut Mosteanu, aliado da Ucrânia, justificou a postura em conversa com jornalistas, alegando que “não estamos em guerra”. “Não podemos simplesmente atirar sem pensar nas consequências.”

“Passeio para drones”

Em fevereiro, o Parlamento romeno aprovou uma lei que passou a autorizar o abate de drones no seu espaço aéreo. A lei entrou em vigor em maio, mas até agora nenhum drone russo foi derrubado.

Para o presidente Nicusor Dan, não parece ser um problema. “Todos esses drones que entram em nosso território de vez em quando são acidentes”, desconversou, no dia seguinte à queda do drone, afirmando que incidentes assim acontecem em muitos lugares da Europa. “Portanto, trata-se de problemas técnicos”, declarou a jornalistas em tom conciliador, sem detalhar quais problemas seriam esses.

Já o ex-presidente Traian Basescu, que durante seu mandato de 2004 a 2014 se destacou por declarações firmes contra a Rússia, vê a situação de forma diferente: “Um país que se respeita não permite que seu espaço aéreo se transforme em um passeio para drones russos”, disse em entrevista ao canal Digi24.