À sombra das políticas disruptivas do presidente dos EUA, a Europa procura novas estratégias de defesa, alianças e influência na mais importante conferência internacional sobre segurança, realizada no sul da Alemanha.Mais para desanimador do que para esperançoso. Assim poderia ser descrito o clima predominante entre os líderes europeus às vésperas da Conferência de Segurança de Munique deste ano, que acontece desta sexta-feira (13/02) até o próximo domingo. Pouco mais de um ano após Donald Trump iniciar seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, a relação transatlântica é considerada despedaçada. A política externa disruptiva de Trump lança uma sombra sobre o evento de alto nível na capital bávara, conhecido internacionalmente pela sigla MSC.

Destruição como marca central

Há décadas que a conferência se define como transatlântica. Hoje, porém, reina o que seu presidente, Wolfgang Ischinger, descreve como uma “crise de credibilidade e confiança sem precedentes”. O Relatório de Segurança de Munique, publicado anualmente às vésperas do encontro, traz nesta edição um título revelador: Under Destruction (“Em destruição”).

No documento, Donald Trump é classificado como integrante da categoria dos “demolition men”, chefes de Estado que, com uma “política de bola de demolição”, destroem regras vigentes e instituições respeitadas. A observação de Trump de que ele “não precisa de direito internacional” é apenas mais uma prova disso.

Apesar do cenário mais tenso do que nunca, a conferência – fundada há mais de 60 anos – segue se apresentando como fórum de troca e diálogo. Entre os cerca de mil participantes, estarão presentes nada menos que 200 representantes de governos de 120 países.

No histórico hotel Bayerischer Hof, são esperados, entre outros, o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski; o presidente francês, Emmanuel Macron; o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi; e a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen. Esta última confrontou Trump com firmeza recentemente, quando ele reivindicou a posse da Groenlândia, que é um território autônomo pertencente à Dinamarca.

EUA enviam o Marco Rubio

Apesar das tensões, uma grande delegação americana estará presente novamente, agora sob liderança do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Ischinger disse esperar que Rubio “fale sobre a política externa americana, e não sobre temas que não dizem respeito diretamente ao seu ministério” – uma referência clara ao discurso incendiário do vice-presidente JD Vance no ano passado, criticando uma suposta falta de liberdade de expressão na Europa. Vance, que gerou forte desconforto na ocasião, não foi convidado desta vez.

A delegação dos EUA, porém, não se limita a aliados de Trump. Entre os participantes estará Gavin Newsom, governador da Califórnia e firme opositor do presidente americano. Em Davos, Newsom já havia cobrado os europeus por mais firmeza diante de Trump, acusando-os de cederem depressa demais.

Europa frente a uma nova era de afirmação?

A fala de Newsom toca no centro nevrálgico de uma questão que deve dominar a conferência deste ano: como a Europa deve se reposicionar diante da nova ordem global – e qual papel cabe à Alemanha nesse contexto? Este será o tema do discurso do chanceler federal Friedrich Merz, que nesta sexta-feira se encarregará da abertura da conferência – pela primeira vez como chefe de governo.

Em uma recente declaração no Bundestag (Parlamento alemão), Merz convocou os europeus a “aprenderem a linguagem da política de poder”. Isso inclui fortes investimentos na defesa europeia e o estabelecimento de novas parcerias estratégicas.

Ele afirmou ainda que há “democracias emergentes, com mercados abertos e em crescimento, que buscam exatamente o que temos a oferecer”. E acrescentou, dirigindo-se aos EUA: “Como democracias, somos parceiros e aliados, não subordinados.” Em Munique, Merz deve discorrer mais sobre essas ideias – e certamente marcar o tom de um debate que vê a crise atual como catalisadora de mudanças estratégicas.

Membros do regime iraniano não são bem-vindos

Convites para a Conferência de Segurança de Munique são cobiçados, mas distribuídos com critério. Diferentemente de anos anteriores, representantes do governo iraniano não foram convidados desta vez, por causa da repressão violenta às recentes manifestações no país. Em compensação, membros da oposição e da sociedade civil iraniana terão espaço no evento.

A guerra da Rússia contra a Ucrânia será novamente tema central, mas nenhum representante do governo russo estará presente. Em 2022, pouco antes do ataque em larga escala contra a Ucrânia, a delegação russa cancelou sua participação. Desde então, segundo Ischinger, não houve “qualquer sinal de Moscou”.

Quanto a negociações de paz, Ischinger afirmou que a Rússia “finge estar disposta a negociar, enquanto continua aterrorizando civis ucranianos”. O Prêmio Ewald‑von‑Kleist da MSC será concedido não a uma personalidade, mas sim “ao corajoso povo ucraniano”.

Políticos da AfD voltam a ser convidados

O partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) ficou de fora do evento nos últimos dois anos. Ischinger, no entanto, decidiu mudar a linha adotada por seu antecessor e não excluir mais o maior partido de oposição do Bundestag. Três parlamentares da sigla foram convidados, mas sem espaço nos palcos principais da conferência. Na edição anterior, a AfD havia denunciado sua exclusão como discriminação e chegou a recorrer à Justiça, mas perdeu.