Abuso de jovens, contaminação por metais pesados e vídeo sexual pressionam corrida eleitoral. Sob risco de primeira derrota desde 2010, primeiro-ministro redobra agressividade de campanha.No governo ou na oposição, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, segue há décadas o mesmo roteiro quando se instala o clima eleitoral: começando meses antes da abertura das urnas, ele conduz campanhas que sugerem que a própria sobrevivência da nação húngara está em jogo. Então, tradicionalmente, se apresenta como o único capaz de salvar o país do mal, evitando a destruição do povo nas mãos dos seus inimigos.

Mas neste ano, com os húngaros prestes a eleger um novo Parlamento em 12 de abril, a agressividade da campanha chega a um novo patamar. Observadores acreditam esta seja a resposta do governo à sustentada liderança da oposição nas pesquisas de opinião nos últimos meses.

Diante da possibilidade de perder o poder pela primeira vez desde 2010, Orbán e o seu partido, Fidesz, vêm cobrindo as ruas com milhares de cartazes que destilam sentimento antiucraniano. Uma petição nacional contra a Ucrânia e a União Europeia (UE) é financiada com dinheiro público. E as redes sociais estão inundadas com vídeos falsos, gerados por inteligência artificial (IA) contra a oposição.

Os vídeos afirmam que, se Orbán perder a eleição, o país enfrentará uma guerra, civis serão convocados para lutar na guerra na Ucrânia, e a população sofrerá com escravização e empobrecimento em massa, como resultado do aumento de impostos por Bruxelas.

Violência e abuso sexual

Parte dos húngaros percebe Orbán como líder de um sistema corrupto e autocrático, o que favorece a candidatura do opositor Peter Magyar, do partido Tisza. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro e o seu governo enfrentam escândalos públicos.

Um deles diz respeito a suspeitas de violência e abuso sexual de menores numa instituição juvenil em Budapeste, uma espécie de prisão para infratores. Vídeos vazados nos últimos meses mostraram cenas de violência praticada por funcionários do local, agora fechado.

Representantes do governo aparentemente sabiam das condições na instituição, mas nada fizeram, embora a proteção infantil seja tema central para Orbán, aliada à homofobia. O governo costuma afirmar que protege as crianças húngaras de uma suposta “propaganda LGBTQ+ de Bruxelas”.

Orbán e seus aliados já sugeriram que as próprias vítimas das agressões eram responsáveis, por terem infringido a lei.

Magyar é ex-membro do Fidesz e rompeu com o partido em fevereiro de 2024, após a indignação pública causada pelo perdão presidencial concedido a um homem condenado por acobertar casos de abuso sexual infantil. Ele então assumiu o Tisza, um partido até então pouco conhecido, catapultando-o à posição de principal partido de oposição na Hungria.

Contaminação por metais pesados

Já no início desta semana, a Hungria foi abalada por revelações sobre riscos ambientais e sanitários em uma fábrica de baterias da Samsung em Göd, uma cidade ao norte de Budapeste.

Segundo uma investigação do site húngaro Telex.hu, trabalhadores da fábrica foram expostos durante anos a partículas de metais pesados. A sua poeira tóxica foi lançada no ar, no solo e na água subterrânea, atingindo níveis de exposição até 500 vezes superiores aos limites permitidos.

O governo húngaro aparentemente tinha conhecimento. A agência de inteligência interna da Hungria teria alertado as autoridades e, ainda assim, o ministro das Relações Exteriores, Peter Szijjarto, teria evitado o fechamento da fábrica.

Há também relatos de que, quando o site anticorrupção Atlatszo.hu escreveu pela primeira vez sobre o assunto no início de 2024, o governo buscou maneiras de silenciá-lo.

Orbán há anos impulsiona fortemente o desenvolvimento da produção de baterias na Hungria, vendo-a como pilar de uma política econômica e tecnológica voltada para o futuro.

Investidores chineses e sul-coreanos foram levados ao país. Apesar de numerosos protestos locais, processos judiciais e preocupações expressas por especialistas, o governo avançou repetidamente com seus planos.

Possível vídeo sexual

Há ainda a história de um suposto vídeo sexual envolvendo Magyar, que deixou o público húngaro em suspense.

Uma foto em preto e branco de uma cama desarrumada em um quarto apareceu em um site misterioso, nomeado em referência ao vice-líder do Tisza, Mark Radnai. A imagem parece ter sido capturada por uma câmera de segurança.

Após dias de especulação, Magyar publicou um vídeo nas redes sociais sobre a foto. Disse ter feito “sexo consensual” com uma ex-namorada naquele quarto, em 3 de agosto de 2024. Ele também afirmou que havia drogas sobre uma mesa no apartamento, mas que não as havia consumido.

Inicialmente, Magyar acusou a mulher em questão de tê-lo filmado a mando do governo de Orbán e do Fidesz. Segundo ele, se tratava de uma “campanha ao estilo russo” para desviar a atenção do que chamou de “fábrica da morte” em Göd.

Pouco depois, a ex-namorada disse à mídia húngara que não estava envolvida nos planos contra o opositor. Ela disse que, se tal vídeo fosse publicado, poderia prestar queixa junto a Magyar.

Governo na defensiva

A tática da oposição foi colocar o governo na defensiva, sugerindo que seus membros estariam dispostos a recorrer a métodos escusos para se agarrar ao poder. Até agora, nem Orbán nem seus aliados fizeram declarações concretas sobre o tema.

Em entrevista à DW, o cientista político Daniel Mikecz afirmou que a lista de escândalos aumenta a pressão sobre Orbán.

“Antes que um escândalo tivesse se dissipado, outro já surgia”, disse ele, acrescentando que “o Fidesz costumava dizer que precisava dominar e vencer todos os dias”. “Agora estamos vendo que eles precisam reagir a algo todos os dias. Não se fala mais em domínio,” afirmou.

No sábado, Orbán chamou a UE de uma ameaça maior à Hungria do que a Rússia, acusando Bruxelas de tentar ameaçar o seu governo ao apoiar a oposição.

O Tisza afirma que pretende pôr fim ao que descreve como uma política externa “de gangorra” da Hungria e alinhar o país ao Ocidente.