03/04/2025 - 14:27
Entidades alertam para escalada do preconceito contra crianças e jovens das etnias sinti e roma em instituições de ensino alemãs à medida que a ultradireira ganha terreno no país.Um relatório publicado no fim de março mostra como instituições de ensino alemãs tratam com preconceito e segregam sistematicamente membros de etnias ciganas, sobretudo sinti e roma.
O documento, feito pelo Centro de Denúncia e Informação sobre Anticiganismo (MIA, da sigla em alemão), revela uma incidência “alarmante” de ataques verbais e físicos contra crianças, adolescentes, familiares e profissionais da educação dessas minorias, tanto alemães como migrantes e refugiados.
Os ataques vêm de colegas de classe, professores, diretores de creches e escolas, educadores, assistentes sociais e funcionários de órgãos públicos como conselhos tutelares.
“O preconceito estrutural e institucional contra sinti e roma é uma realidade cotidiana no setor educacional alemão”, manifesta o relatório.
O documento traz alguns casos, como o de um aluno do ensino fundamental sinti que deixou de ir à aula com medo das provocações de colegas. Em resposta à queda da frequência escolar do estudante, os professores ameaçaram denunciar os pais ao conselho tutelar, o que poderia resultar, em última instância, na perda da guarda.
Em outro relato, um centro de educação infantil cancelou a vaga de uma criança sinti de cinco anos, que compreende três idiomas, sob a alegação, não confirmada por pediatras, de que ela tinha um atraso no desenvolvimento e precisava frequentar um jardim de infância especial.
Há vários casos de escolas que se recusaram a matricular crianças sinti e roma ou quiseram transferi-las para escolas especiais por acreditarem que suas famílias causariam problemas.
“Estamos recebendo relatos de agressões e ataques contra sinti e roma em jardins de infância e escolas em todos os estados da Alemanha. Bullying verbal, mas também ataques físicos, nos quais as crianças são sistematicamente agredidas”, disse à DW Guillermo Ruiz, diretor executivo do MIA.
“É alarmante como os professores muitas vezes não intervêm para evitar o bullying e os ataques físicos. Ouvimos sobre tais incidentes todos os dias –– embora as escolas deveriam ser um espaço seguro onde as crianças se sentem confortáveis e protegidas. Mas isso, muitas vezes, não acontece.”
Ruiz lembra de casos ainda mais perturbadores de anticiganismo nas instituições de ensino alemãs. Uma aluna, ao perguntar se sinti e roma foram mortos durante o Holocausto, ouviu da professora que sim, aquilo de fato ocorreu, e que os corpos, incluindo o do avô da estudante, foram usados para fabricar sabão.
Estima-se que cerca de 500 mil sinti e roma foram mortos pelos nazistas, genocídio conhecido como Porajmos. A perseguição a essas minorias estava ligada à ideia de “pureza racial” nazista, que levou também ao extermínio de judeus, pessoas com deficiência, homossexuais, entre outros grupos.
Crianças são o maior alvo
De acordo com o levantamento, dois terços das vítimas de anticiganismo nas escolas e creches alemãs têm menos de 14 anos.
“Quando você é intimidado desde tão jovem, e sente que não é igual, que não é tratado de forma igualitária, isso tem consequências. Pode prejudicar a autoestima de crianças e jovens”, explicou Ruiz.
As queixas de discriminação nos últimos anos não tiveram efeito nas instituições alemãs, acredita Ruiz.
Ele recomenda a presença de mais psicólogos e sociólogos nas escolas, que mais professores assumam o papel de confidentes e ajudem as crianças a sair da espiral de exclusão, e que a conscientização sobre anticiganismo seja incorporada aos programas de formação de professores –– o que o estado alemão da Renânia-Palatinado já implementou.
“Precisamos de uma ‘escola inclusiva’, onde a história dos sinti e roma, o Holocausto e o anticiganismo contemporâneo sejam ensinados, e a equipe docente esteja ciente dessas questões. Também precisamos de mecanismos eficazes para que os pais possam registrar queixas. E se for comprovado que o anticiganismo ocorreu, deve haver consequências”, disse Ruiz.
Ultradireita infla racismo institucional
Os 11 mil residentes sinti e roma da cidade de Eisenberg, no estado da Turíngia, podem contar com a assistência de Renata Conkova. Ela lidera a associação regional RomnoKher, dedicada ao apoio a essas etnias.
Conkova vem de uma família roma da Eslováquia e tem aconselhado 250 famílias de sua etnia nos últimos quatro anos em questões envolvendo escola, consultas médicas, busca de moradia, trabalho, benefícios sociais, traduções e até audiências judiciais. “Sou conselheira para qualquer situação difícil de vida. E luto pela integração e contra o racismo todos os dias.”
Conkova está familiarizada com o anticiganismo nas escolas alemãs, mas celebra as histórias de sucesso no caminho. “Em Greiz, começamos um curso de alfabetização para crianças roma ucranianas. E muitas mães roma agora podem ver que não precisam temer pelos seus filhos quando vão à escola.”
Ao mesmo tempo, Conkova percebe que o racismo institucional aumentou com o avanço da direita na Alemanha –– especialmente na Turíngia, um reduto do controverso partido populista de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD). Lá, ela diz que muitos médicos não têm pudor em afirmar publicamente que não aceitam pacientes roma. O emblema xenófobo “estrangeiros fora” também é ouvido com mais frequência.
“Integração significa que a porta está aberta para ambos os lados. Mas para nós, ela está fechada”, disse.
Resposta do governo ao anticiganismo
Mehmet Daimagüler, o primeiro comissário federal do governo contra o anticiganismo e pela vida dos sinti e roma na Alemanha, ocupa o cargo desde 1º de maio de 2022. Ele tem lutado contra essa forma de racismo nos últimos três anos.
Ele disse à DW que os resultados do estudo sobre anticiganismo nas escolas e jardins de infância não o surpreenderam, pois o racismo contra esses grupos é comum no setor público.
“O anticiganismo está particularmente enraizado na sociedade. Para aqueles que pensam e agem de forma racista, isso faz parte da normalidade. E, claro, todos os preconceitos que as pessoas têm em relação aos pais são projetados nas crianças”, afirmou Daimagüler à DW.
Em dezembro de 2023, Daimagüler encaminhou ao Bundestag (câmara baixa do Parlamento alemão) uma resolução com 27 demandas parlamentares ao governo sobre participação, proteção e fortalecimento das comunidades sinti e roma. A resolução foi apoiada por todos os grupos parlamentares – exceto a AfD. Também foi criada uma comissão federal-estadual para combater o anticiganismo.
“O anticiganismo se tornou muito mais visível”, diz Daimagüler. “Por um lado, por meio dos centros de denúncia. E, por outro, pela tendência geral na sociedade de uma brutalização linguística, que também está acontecendo aqui”, explica.
Com a mudança iminente de governo, o mandato de Daimagüler como comissário federal de anticiganismo chegará ao fim — e ainda não está claro se o cargo continuará a existir.
“O fim desse cargo seria muito lamentável. Porque também recebemos muitas consultas do exterior, especialmente do Leste Europeu. Lá, as pessoas estão muito curiosas e interessadas em observar como a Alemanha está lidando com essa questão. Já estamos criando um precedente nesse sentido. E agora perigamos retroceder — ao invés de avançar”, alerta.