Aliadas na prevenção de ataques cardíacos e derrames, elas têm má reputação – injustamente. Estudo mostra que, dos 66 efeitos colaterais atribuídos às estatinas, apenas quatro foram de fato causados ​​pelo remédio.”Quando a bula te deixa doente” – esse poderia ser o título da nova meta-análise sobre os efeitos colaterais das estatinas publicada nesta semana na revista científica The Lancet. O estudo foi realizado por um coletivo de pesquisa chamado Cholesterol Treatment Trialists (CTT) Collaboration ou Colaboração de Pesquisadores de Tratamento do Colesterol.

As estatinas reduzem os níveis de colesterol no sangue, principalmente a quantidade do chamado colesterol “ruim”, o LDL. Níveis elevados de LDL podem causar o acúmulo de colesterol nas paredes dos vasos sanguíneos, aumentando o risco de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral.

As estatinas têm sido usadas por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo nas últimas três décadas e comprovadamente reduzem ataques cardíacos, derrames e mortes por doenças cardiovasculares.

Embora os cientistas geralmente concordem que os efeitos positivos das estatinas superam os riscos potenciais, os pacientes muitas vezes interrompem o tratamento ou sequer o iniciam por medo de efeitos colaterais, já que as bulas das estatinas listam dezenas de possíveis efeitos colaterais.

Muito mais benefícios que riscos

Esse medo é quase sempre infundado – de acordo com os resultados da mais recente meta-análise. Nela, os autores examinaram um total de 19 estudos para determinar se os efeitos colaterais listados nas bulas eram realmente atribuíveis ao uso de estatinas.

Em todos os 19 estudos, um grupo de pacientes recebeu um medicamento da classe das estatinas e outro grupo recebeu apenas um placebo. Nem os pacientes nem os pesquisadores sabiam a qual grupo pertenciam durante os estudos – isso é chamado de “duplo-cego”. Os estudos examinaram um total de cinco medicamentos da classe das estatinas.

O resultado foi que, além dos efeitos leves já conhecidos das estatinas sobre os músculos e a diabetes, apenas quatro efeitos colaterais puderam ser comprovados – de um total de 66 possíveis efeitos colaterais descritos na bula.

Apenas alterações em edemas, níveis anormais de enzimas hepáticas, composição da urina e anormalidades na função hepática puderam ser documentadas. E mesmo com esses quatro efeitos colaterais, as diferenças entre as pessoas que tomavam os medicamentos para baixar o colesterol e aquelas que recebiam apenas um placebo foram geralmente bastante pequenas.

“Estatinas não aumentam risco de câncer ou demência”

Importante saber: “Esses potenciais efeitos colaterais geralmente aparecem logo no início do tratamento – ou não aparecem nunca”, afirma Oliver Weingärtner, médico sênior do Departamento de Medicina Interna do Hospital Universitário de Jena, na Alemanha, que não participou do estudo. Portanto, verificar a função hepática nas primeiras semanas de tratamento ajudará a esclarecer se alguma alteração ocorre.

Além dos possíveis efeitos sobre os músculos e o risco de diabetes, os resultados mostraram “que as estatinas estão associadas apenas a um leve aumento absoluto nos níveis de enzimas hepáticas, mas não a nenhum dos outros inúmeros sintomas listados na bula”, resume Ulrich Laufs, diretor do departamento de cardiologia do Hospital Universitário de Leipzig, que também não participou da meta-análise.

Estudos de longo prazo também demonstraram que o risco de efeitos colaterais graves, como degradação muscular ou danos ao fígado, é extremamente baixo – e mesmo o uso prolongado de estatinas “não causa aumento no risco de câncer ou demência”.

Por que medo há tanto medo de estatinas?

Mesmo com o conhecido aumento do risco de diabetes devido às estatinas, meta-análises mostraram que o diabetes ocorreu principalmente quando os pacientes já estavam predispostos a desenvolvê-lo antes de tomar os medicamentos para baixar o colesterol, relata o grupo de pesquisa CTT.

O único problema real com as estatinas é a dor muscular, afirma Stefan Blankenberg, presidente da Sociedade Alemã de Pesquisa de Cardiologia, que não participou da meta-análise. “Essa dor é dose-dependente e desaparece após a suspensão das estatinas.” Mas muitos pacientes “esperam” a dor muscular. “Isso está de acordo com a ocorrência de dor muscular no grupo placebo nos estudos.”

Segundo Ulrich Laufs, do Hospital Universitário de Leipzig, cerca de 90% de todos os efeitos colaterais relatados associados às estatinas estão relacionados ao chamado efeito nocebo. Em resumo, isso significa que, se esperarmos certos efeitos negativos, iremos experimentá-los.

Por que bulas mencionam tantos efeitos colaterais?

“Muitos efeitos colaterais aparecem nas bulas principalmente por questões de responsabilidade legal”, explica o médico Oliver Weingärtner.

Os fabricantes de medicamentos são legalmente obrigados a fornecer informações completas sobre possíveis efeitos colaterais, interações medicamentosas e contraindicações na bula. Caso contrário, podem ser responsabilizados por quaisquer danos resultantes. Para evitar isso, é listado um grande número de possíveis efeitos colaterais.

“Embora uma suspeita bem fundamentada seja muitas vezes suficiente para a inclusão de um efeito colateral, sua remoção exige comprovação definitiva (…) em grupos muito grandes de pacientes”, afirma Ulrich Laufs. Este é um processo longo, complexo e caro que, em última instância, requer até mesmo a aprovação da Comissão Europeia.

“O tamanho das bulas que vemos atualmente causa considerável incerteza e faz com que medicamentos altamente eficazes deixem de ser usados”, lamenta Oliver Weingärtner. Ele sugere que os medicamentos também incluam resultados de estudos randomizados e duplo-cegos.

Stefan Blankenberg também defende a mudança das bulas. Ele propõe que seja feita uma espécie de resumo: “Algumas linhas que, além da bula legalmente exigida, reflitam a realidade e apontem os benefícios e riscos reais”, sublinha.