03/02/2026 - 11:22
Pesquisadores das universidades de Harvard, Michigan e Duke concluem que alimentos ultraprocessados são projetados para incentivar vício e consumo e defendem regulamentação similar à do cigarro.Um estudo realizado por três universidades dos Estados Unidos alerta que os alimentos ultraprocessados (AUPs) têm mais em comum com cigarros do que com frutas ou vegetais e precisam de regulamentações mais rigorosas.
Os pesquisadores das universidades de Harvard, Michigan e Duke estabeleceram paralelos entre os danos generalizados à saúde causados pelos alimentos ultraprocessadose pelo cigarro e concluíram que ambos são projetados para incentivar o vício e o consumo.
Esse tipo de alimento industrializado – categoria que inclui produtos alimentícios como biscoitos, batatas chips, salgadinhos e refrigerantes – é fabricado frequentemente com o uso de emulsificantes, corantes e aromatizantes artificiais.
Segundo o estudo, há semelhanças nos processos de produção de alimentos ultraprocessados e dos cigarros, assim como nos esforços dos fabricantes para otimizar a dosagem dos produtos e a rapidez com que atuam nos circuitos de recompensa do corpo.
Os ultraprocessados são projetados para intensificar essa sensação de recompensa e acelerar a entrega de ingredientes reforçadores, impulsionando o consumo compulsivo e desregulando o apetite. A produção desses alimentos emprega estratégias de engenharia adotadas pela indústria do tabaco, como a otimização das doses e a manipulação do efeito de prazer.
Mais parecidos com cigarros que com frutas
A pesquisa, publicada nesta terça-feira (03/02) no jornal de saúde Milbank Quarterly, se baseia em dados das áreas de ciência do vício, nutrição e história da saúde pública.
Os autores sugerem que as alegações de marketing sobre os produtos, como aqueles anunciados como sendo de “baixo teor de gordura” ou “sem açúcar”, seriam o que chamam de “lavagem de imagem de saúde” – ou seja, uma estratégia de fachada – que pode atrasar a regulamentação desses itens, de maneira semelhante à publicidade de filtros de cigarro na década de 1950 como sendo inovações protetoras que, na prática, ofereciam pouco benefício.
O estudo adverte que “muitos alimentos ultraprocessados compartilham mais características com cigarros do que com frutas ou vegetais minimamente processados e, portanto, justificam uma regulamentação proporcional aos riscos significativos à saúde pública que representam”.
Ashley Gearhardt, pesquisadora da Universidade de Michigan e coautora do estudo, contou que seus pacientes faziam as mesmas associações. “Eles diziam ‘me sinto viciado nisso, tenho muita vontade; eu fumava cigarros e agora tenho o mesmo hábito, mas com refrigerante e donuts. Sei que está me matando; quero parar, mas não consigo.'”
“Por um tempo, culpamos o indivíduo e dizemos ‘fume com moderação, beba com moderação’, e eventualmente chegamos a um ponto em que entendemos as alavancas que a indústria pode acionar para criar produtos que realmente viciam as pessoas”, disse a psicóloga especializada em vício.
Embora a comida – ao contrário do tabaco – seja essencial para a sobrevivência, essa distinção torna as futuras ações duplamente necessárias, porque é difícil optar por sair do ambiente alimentar moderno, afirma a especialista.
Necessidade de regulamentação
Gearhardt argumenta que deveria ser possível distinguir entre alimentos ultraprocessados prejudiciais e outros produtos alimentícios, da mesma forma que as bebidas alcoólicas são diferenciadas das sem álcool.
Os autores da pesquisa sugerem que as lições da regulamentação do tabaco, incluindo “restrições de marketing e intervenções estruturais”, poderiam servir como orientação para uma futura redução dos danos relacionados aos alimentos ultraprocessados. Eles pedem que os esforços de saúde pública “mudem da responsabilidade individual para a responsabilidade da indústria alimentícia”.
rc/md (ots)
