17/02/2026 - 16:23
Drogada e abusada por anos pelo próprio marido, francesa relata em livro de memórias o horror que enfrentou, sua jornada de volta à vida e decisão de expôr seus agressores.Ao tomar o último café da manhã em sua casinha em Mazan, no sul da França, em novembro de 2020, Gisèle Pelicot não fazia ideia de que a vida que conhecia estava prestes a desabar.
Ela havia sido intimada para comparecer à delegacia porque seu marido à época, Dominique Pelicot, com quem vivia há mais de 25 anos, fora preso dois meses antes, flagrado filmando por baixo das saias de mulheres em um supermercado. Um incidente isolado, jurou o aposentado, que prometeu fazer terapia. Gisèle o apoiou.
Ao ser conduzida por um policial para uma sala separada, ela não sabia que não veria o marido novamente até o julgamento. Nas fotos que o policial lhe mostrou, ela viu uma mulher de cinta-liga sendo estuprada. Inicialmente, ela não compreendeu que a mulher era ela. Isso porque o sexo, documentado em mais de 20 mil fotos, não foi consensual.
Durante dez anos, Dominique Pelicot sedou regularmente a esposa para vê-la sendo estuprada, inconsciente, por homens na vizinhança que recrutava na darknet. Isso aconteceu pelo menos 200 vezes.
“A vergonha precisa mudar de lado”
O julgamento de Dominique Pelicot e de 50 de seus cúmplices – nem todos os estupradores puderam ser identificados – começou em setembro de 2024 e transformou Gisèle Pelicot em um ícone feminista global. Poucas semanas antes, ela havia decidido que o julgamento deveria ser público, que deveria ter um rosto, o dela. Com isso, também os vídeos dos atos seriam tornados públicos.
“A vergonha precisa mudar de lado”, declarou Gisèle à época, ao justificar sua decisão. Ela queria acabar com a culpa que muitas vítimas de estupro sentem e devolvê-la a quem de direito: os perpetradores e aqueles que sabiam dos crimes.
Todos os dias do julgamento, que durou três meses e meio, Gisèle Pelicot, que desde então se divorciou e voltou a usar seu nome de solteira, era saudada e aplaudida por um número cada vez maior de mulheres. Veículos de comunicação do mundo todo noticiaram sua coragem, as humilhações que sofreu nas mãos dos advogados da acusação e os detalhes horríveis das violências que lhe foram infligidas.
Ao longo do julgamento, o público ficou sabendo também que o principal autor dos crimes, Dominique Pelicot, filmou secretamente suas duas noras no chuveiro e que guardava fotos de sua filha seminua, nas quais ela aparecia dormindo usando roupas íntimas de outra pessoa. Ainda não se sabe se ela também foi estuprada. Ele agora também está sendo investigado por suspeita de homicídio.
Gisèle Pelicot fala por si mesma
Dominique Pelicot foi condenado a 20 anos de prisão – a pena máxima para estupro na França. Todos os 50 cúmplices também passarão muitos anos na prisão.
O que se passa na cabeça da mulher que sofreu todas essas coisas terríveis, cujos detalhes mais íntimos foram expostos ao público, e que agora leva uma nova vida em um lugar diferente?
Gisèle Guillou, como é conhecida hoje – pelo nome de solteira –, acaba de publicar suas memórias: Um hino à vida. A vergonha precisa mudar de lado. O livro está sendo lançado simultaneamente em 22 países. No Brasil, chega às livrarias na próxima terça-feira (24/02), pela Companhia das Letras.
Aos 73 anos, ela diz nunca ter se reconhecido em nada do que foi escrito sobre si até agora.
Agora ela fala por si mesma: descreve a infância, a perda precoce da mãe e o encontro com Dominique Pelicot, em quem confiou até o fim. Relata a vida com três filhos e como sempre foi muito mais bem-sucedida profissionalmente do que o marido, o que não parecia importar.
E então veio o choque de descobrir o que esse homem lhe fez, sedando-a regularmente com medicamentos fortes e aceitando os terríveis efeitos colaterais: danos à memória, exaustão e inflamação do aparelho reprodutivo. Ele aceitou tudo isso. No tribunal, recusou-se a assistir aos vídeos e fotos novamente porque o material o excitava.
“Ainda sou capaz de confiar nos outros”
No livro, que Gisèle Pelicot escreveu em parceria com a jornalista Judith Perrignon, ela explica por que se apegou por tanto tempo à lembrança de um casamento feliz, chegando a enviar roupas quentinhas para o marido enquanto ele estava na prisão. Havia muito hábito envolvido, ainda muito zelo.
Mas, acima de tudo, escreve ela, queria entender, e seus filhos não entendiam isso, guardavam ressentimento. O julgamento, a intensa atenção pública, os segredos de família que vieram à tona, afetaram profundamente o relacionamento de Gisèle Pelicot com os filhos e também entre os próprios irmãos. O livro também se apresenta como uma tentativa de explicação, um apelo por compreensão em relação à sua maneira de lidar com o ocorrido.
No fim das contas, Gisèle Pelicot se vê como a vencedora sobre seu marido diabólico. E encontrou um novo amor: “Eu não morri. Ainda consigo confiar nos outros.” Mais de cinco anos se passaram desde que os crimes de Dominique Pelicot vieram à tona. Sua ex-esposa retomou a vida e redescobriu a alegria nela.
