Casa Branca nega especulações sobre escassez em sistemas de ataque e defesa. União Europeia, entretanto, aposta em aumento da própria indústria, preocupada com suprimento global.Sem prazo claro para terminar, a campanha militar contra o Irã tem gerado especulações quanto à durabilidade dos estoques de munição para ataque e defesa dos Estados Unidos. A imprensa e observadores do nicho apontam para uma possível escassez no futuro próximo, em virtude da intensidade dos ataques perpetrados pelos dois países nos últimos seis dias, atingindo várias partes do Oriente Médio.

Em resposta, o governo dos Estados Unidos descartou na quinta-feira (05/03) que possam faltar “vontade ou material” na sua chamada Operação Fúria Épica contra o regime dos aiatolás.

“O Irã espera que nós não possamos sustentar isso, o que é um péssimo erro de cálculo,” disse o secretário de Guerra americano, Pete Hegseth, a jornalistas na Flórida. “Nossos estoques de armas defensivas e ofensivas nos permitem sustentar esta campanha pelo tempo que for necessário.”

Os mísseis antibalísticos servem para proteger bases e navios militares de ataques, interceptando drones e mísseis. Em menos de uma semana, o Irã lançou mais de 2 mil drones contra alvos americanos no Oriente Médio ou aliados dos EUA na região, segundo informações do Pentágono citadas pela imprensa americana.

Ao lado de Hegseth, o almirante Brad Cooper, comandante supremo das forças americanas no Oriente Médio, argumentou, por sua vez, que os ataques iranianos com mísseis diminuíram em 90% desde o primeiro dia de guerra. Já os ataques com drones caíram 83%.

“Estamos destruindo a sua habilidade de reconstruir. Enquanto transicionamos para a nova fase desta operação, vamos sistematicamente destruir a capacidade de produção de mísseis do Irã para o futuro,” disse.

Drones baratos, defesa cara

Mas, enquanto a reposição de mísseis americanos de defesa exige tempo e altos volumes de recursos, os drones iranianos são relativamente baratos e substituíveis. A mesma tática já foi adotada pela Rússia, que vem usando um modelo persa contra a Ucrânia.

Além disso, as preocupações ultrapassam o sistema de defesa da guerra no Oriente Médio. A Casa Branca também alimenta os sistemas de defesa em outros epicentros de tensão geopolítica, incluindo a própria Ucrânia e Taiwan, onde a China vem aumentando a pressão militar.

Fontes anônimas ouvidas pelo jornal americano Washington Post afirmaram que os Estados Unidos poderiam ter que, dentro de dias, começar a escolher quais alvos proteger de novos ataques.

Para o comissário da Defesa da União Europeia (UE), Andrius Kubilius, os Estados Unidos “não serão capazes de fornecer mísseis suficientes” simultaneamente aos países do Golfo, à Ucrânia e às suas próprias forças armadas.

“Tornou-se ainda mais urgente para nós, na Europa, aumentar a produção de sistemas de defesa aérea e de mísseis antibalísticos”, afirmou o comissário, que iniciou nesta sexta-feira uma série de viagens para reforçar a produção europeia na área da defesa.

Ele expressou particular preocupação com a Ucrânia, que, em quatro meses, precisa de aproximadamente 700 mísseis antibalísticos americanos Patriot, “mais ou menos o número que os fabricantes americanos são capazes de produzir num ano”. Eles são os únicos eficientes no arsenal ucraniano para derrubar mísseis balísticos russos.

Aumento da produção

O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte, vem defendendo um aumento de 400% da produção europeia de defesa desde o ano passado.

A Polônia, cujo espaço aéreo foi adentrado por drones russos em setembro, é uma das apostas para o setor, uma vez que é a maior beneficiária de um programa de crédito da União Europeia (UE) para este fim.

Já o presidente Volodimir Zelenski afirmou na quinta-feira que a Ucrânia vai assistir os EUA na derrubada dos drones iranianos por outros meios. Os quatro anos de guerra permitiram ao país desenvolver a expertise de defesa necessária.

O Pentágono vem também buscando acelerar a produção doméstica de mísseis. Em janeiro, fechou um acordo com o seu maior fornecedor, a Lockheed Martin, para mais do que triplicar a capacidade de entrega anual de interceptores em sete anos, passando de 600 para 2 mil.

Não está claro o que os Estados Unidos considerariam uma vitória na campanha militar contra o Irã, nem quando ela poderá terminar. Nesta semana, o presidente Donald Trump afirmou que a guerra poderia durar “quatro ou cinco semanas” e que armas “do nível mais alto” estão “em bom suprimento, mas não estão onde queremos que estejam”.

Guerra bilionária

Diante de novos ataques retaliatórios pelo Irã contra o Oriente Médio, Hegseth alertou que os bombardeios estavam “prestes a aumentar drasticamente”. Já as forças armadas de Israel anunciaram nesta manhã que haviam iniciado “uma onda de ataques em grande escala” contra Teerã, a capital iraniana.

Só nas cem primeiras horas de guerra contra o Irã, os EUA gastaram pelo menos 3,7 bilhões de dólares – ou seja, quase 900 milhões de dólares ao dia –, de acordo com uma análise do independente Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês).

Cerca de 1,7 bilhão de dólares foi investido em interceptores aéreos, como o sistema Patriot, enquanto outros 1,5 bilhão de dólares foram destinados a mísseis e outras munições defensivas.

Segundo o centro, estes quatro primeiros dias “são, tipicamente, os mais intensos de uma campanha aérea”. Quase a totalidade dos gastos não estava orçada nas contas aprovadas pelo Congresso americano, ressaltou ainda o CSIS.

A previsão é que, no caso do Irã, os custos comecem a cair à medida que as forças americanas optem por usar munições menos caras e o Irã reduza o ritmo de lançamento de drones e mísseis. Com base em campanhas aéreas passadas, o CSIS estima que custará mais de 3 bilhões de dólares aos EUA para repor o estoque de munições gastas na guerra.

Já nas operações no Caribe que resultaram na captura de Nicolás Maduro em janeiro, o custo estimado foi de 31 milhões por dia, ou seja, quase trinta vezes menos do que no Irã.

ht/cn (EFE, Lusa, Reuters, AP, ots)