Ameaças dos EUA sobre a Groenlândia reacendem tensões comerciais com a UE. Bruxelas avalia medidas inéditas de retaliação, incluindo a “bazuca comercial”.Nesta quinta-feira (22/01), chefes de Estado e de governo da União Europeia (UE) vão se encontrar para definir qual será a resposta da Europa à nova ameaça tarifária do presidente dos EUA, Donald Trump. Ele promete sobretaxar oito países, seis dos quais membros do bloco europeu, como forma de pressão em seu propósito de anexar o território autônomo da Groenlândia.

À disposição dos europeus estão:

O uso da chamada “bazuca comercial” – um instrumento nunca antes utilizado que poderia chegar ao ponto de restringir o acesso ao mercado europeu para empresas americanas, incluindo setores de serviços;

A imposição de tarifas retaliatórias sobre 93 bilhões de euros (R$ 588 bilhões) em importação de produtos americanos;

Ou a suspensão do acordo comercial entre a UE e os EUA, que ainda não entrou em vigor.

No último fim de semana, o premiê dinamarquês, Mette Frederiksen, afirmou que a Europa não será chantageada. Já o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, disse que busca se reunir com Trump no Fórum Econômico Mundial, em Davos, “mas se formos confrontados com tarifas que consideramos irracionais, então somos capazes de responder”, afirmou.

Questionado na segunda-feira sobre qual seria sua resposta ao movimento retaliatório da UE, Trump minimizou a capacidade europeia de enfrentar suas medidas. “Eu não acho que eles vão resistir muito. Olha, nós temos que tê-la [a Groenlândia]”, disse.

Numa mensagem enviada ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, Trump relacionou sua iniciativa de assumir o controle da Groenlândia ao fato de não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz.

“Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por ter impedido oito guerras, não sinto mais a obrigação de pensar exclusivamente na paz, embora ela sempre seja predominante, mas agora posso pensar no que é bom e adequado para os Estados Unidos da América”, afirmou.

Store lembrou que o Nobel da Paz é concedido por um comitê independente e não pelo governo do país europeu.

Dinamarca, Finlândia, Suécia, França, Alemanha e Holanda (todos membros da UE), bem como Reino Unido e Finlândia entraram na mira dos EUA após enviarem militares à Groenlândia numa missão de reconhecimento. Esses países prometeram manter sua postura de rejeição à escalada retórica de Washington mesmo diante das novas tarifas de Trump.

A inédita “bazuca comercial”

O termo que mais se repete em Bruxelas agora é “bazuca comercial”. É o nome popular dado a uma legislação técnicada UE acordada em 2023, oficialmente chamada de instrumento anticoerção (ACI).

A sua ativação permitiria à Comissão Europeia impor barreiras comerciais retaliatórias contra qualquer país, incluindo restrições ao acesso ao mercado e bloqueios ao investimento estrangeiro.

Ela pode, por exemplo, barrar grandes empresas de tecnologia americanas de prestarem serviços na Europa.

O presidente francês, Emmanuel Macron, pressiona pelo uso da ferramenta, enquanto a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, resiste. A implementação inédita da bazuca comercial é polêmica, pois seria considerada uma escalada definitiva na disputa com Washington.

“O ACI contém muitas ferramentas que poderiam ter impacto se fossem utilizadas, como controles de compras ou exportações de insumos críticos para as cadeias de abastecimento dos EUA”, explica o analista Penny Naas, do think tank German Marshall Fund. “No entanto, a implementação dessa ferramenta leva tempo.”

O ACI foi criado emreação à coerção econômica da China sobre a Lituânia, um país que apoia a independência de Taiwan. Ela não foi concebida para usada contra os aliados mais próximos da Europa.

Para Ignacio García Bercero, que foi o principal negociador da UE de um acordo comercial entre UE e Estados Unidos durante a presidência de Barack Obama, os motivos para acionar o ACI já foram atendidos.

“O que está acontecendo agora com a Groenlândia é o caso mais claro possível de coerção”, afirma Bercero. “É uma ameaça à integridade territorial de um Estado-membro da UE.”

93 bilhões de euros são suficientes?

Outra opção na mesa dos europeus é a de estabelecer um conjunto de tarifas recíprocas sobre produtos americanos no valor de 93 bilhões de euros.

O pacote já havia sido aprovado em 2025, em resposta à primeira ofensiva tarifária de Trump contra países de todo o mundo, mas foi abandonado após Washington fechar um acordo comercial com a União Europeia.

Por já ter sido acordado no passado, é tomado como a escolha mais provável do bloco. Segundo a agência de notícias Reuters, diplomatas europeus avaliam que as contratarifas podem ser aplicadas já em fevereiro, após a imposição das taxas prometidas por Trump.

Defensores da implementação da “bazuca comercial” dizem que o pacote de tarifas recíprocas será interpretado como brando pela Casa Branca,

mas a especialista Heather Grabbe, do think tank Bruegel, avalia que a pressão sobre a economia dos EUA antes das eleições legislativas americanas de meio de mandato poderá ser significativa.

Se for mantido o mesmo modelo de retaliação preparado no ano passado, o pacote poderia afetar produtos americanos como aeronaves, automóveis, autopeças e produtos agrícolas como a soja.

“Essas tarifas foram escolhidas para causar um impacto particular nas empresas que podem exercer pressão sobre Trump, como os fabricantes de cigarros americanos”, afirma Grabbe.

“Muitos produtos nos EUA tiveram seus preços aumentados devido às políticas tarifárias de Trump, o que pesará contra os candidatos republicanos na corrida para as eleições de meio de mandato”, continuou.

Porém, uma guerra comercial também prejudica a Europa, cuja economia é orientada para exportação, argumenta Grabbe.

Acordo comercial por um fio

A terceira opção europeia seria seguir a exigência dos principais grupos políticos do Parlamento Europeu, que pedem que o acordo comercial assinado em 2025 com os EUA seja imediatamente descartado.

Bruxelas e Washington assinaram um tratado após Washington impor tarifas abrangentes contra países europeus, mas ele ainda não foi ratificado pelo Parlamento.

A UE concordou em aceitar taxas de 15% no comércio com os EUA, em vez dos 20% originais anunciados por Trump no que ele chamou de “Dia da Libertação”. Em troca da redução de 5%, os europeus zeraram tarifas sobre produtos americanos, recuando da introdução do pacote anterior de 93 bilhões de euros.

No domingo, o ministro do Exterior da Alemanha, Johann Wadephul, expressou ceticismo quanto à ratificação do acordo. Em entrevista à emissora pública alemã ARD, Wadephul disse que a Europa é economicamente mais forte do que se pensa e não permitirá “chantagem”.

Em 2025, o professor de Direito da União Europeia Alberto Alemanno, da escola superior HEC Paris, classificou os termos como uma “rendição econômica” do bloco.

Ele afirma que a UE agora poderia atingir os EUA onde realmente dói. “A verdadeira influência da Europa não vem de igualar as tarifas de Trump”, disse Alemanno. “Ela vem do que mais incomoda o governo americano: os altos padrões europeus, que protegem nosso povo e nossos mercados – desde a proteção de dados até a governança da IA e a responsabilidade corporativa em todo o mundo.”

“O que a Europa deveria fazer é redobrar a fiscalização e exportar seus padrões regulatórios ainda mais do que antes”, afirmou.