Fundos de ouro estão sendo inundados com bilhões e podem acabar virando vítima do próprio sucesso. O que está por trás do fenômeno?O preço do ouro disparou nos últimos meses. Uma onça do metal (31,1 gramas), que custava 2.624 dólares no início do ano, hoje vale quase o dobro disso: 4.219 dólares, pela cotação mais recente do portal gold.de.

“Isso é um indicador da perda de confiança em governos e instituições”, afirma à DW Nicky Shields, chefe de estratégia de investimentos em metais preciosos do grupo suíço MKS PAMP, um dos principais atores internacionais do ramo. A questão, pondera, é se o mercado relativamente pequeno de fundos de ouro conseguirá absorver a atual enxurrada de capital que está inundando investimentos.

O MKS PAMP é uma empresa de investimentos e processadora de ouro, prata e platina em barras, moedas e produtos para empresas de joias e indústrias.

“Papéis de ouro”: a menina dos olhos dos investidores

Segundo o World Gold Council , o patrimônio global administrado pelos ETFs (a sigla em inglês para fundos de índice) subiu de 472 bilhões de dólares em setembro para 503 bilhões de dólares em outubro, um aumento de 6%. Só em outubro, os aportes somaram 8,2 bilhões de dólares, bem acima da média anual de 7,1 bilhões.

No terceiro trimestre de 2025, de julho a setembro, os ETFs de ouro com lastro físico registraram um fluxo recorde de 26 bilhões de dólares, como mostra o gráfico abaixo. Investidores americanos lideraram o aumento com 16,1 bilhões de dólares, enquanto fundos europeus também tiveram forte demanda, alcançando 8,2 bilhões de dólares.

ETFs de ouro são fundos de investimento negociados em bolsa como se fossem uma ação, que replicam o preço do ouro, sem que o investidor precise comprar e armazenar ele mesmo o metal em sua forma física. Muitos ETFs de ouro mantêm ouro de fato em cofres vinculados ao patrimônio do fundo, razão pela qual são chamados de “papéis de ouro”.

Ao contrário dos fundos de ações, os ETFs de ouro têm apenas um componente: ouro. Isso significa que não há diversificação do risco entre diferentes ativos. Por isso, os ETFs de ouro não são permitidos em alguns países europeus, como a Alemanha, que autoriza os ETCs (Exchange Traded Commodities), títulos vinculados a commodities negociadas em bolsa.

Hype entre investidores

O analista de mercado Martin Siegert, do banco público do estado alemão de Baden-Württemberg (LBBW), acredita que o ouro seguirá se valorizando. “Muitos argumentos favoráveis ao ouro continuam válidos”, afirmou em uma análise publicada no site do banco no fim de novembro. “Os fluxos para os ETCs de ouro devem permanecer sólidos.”

A previsão dele é que os juros nos EUA continuarão a cair, persistindo as dúvidas sobre a futura independência do Fed, o banco central americano, e a solidez do dólar, com mais surpresas na política comercial americana em 2026.

Por isso, a projeção do LBBW é que, até o fim de 2026, o preço da onça do ouro chegue aos 4,6 mil dólares.

Um ativo seguro?

Até agora, o maior valor do ouro foi atingido em meados de outubro deste ano, com mais de 4.350 dólares por onça.

O banco americano Morgan Stanley chegou a recomendar a investidores, em setembro, que alterassem a estrutura de seus portfólios e integrassem o ouro como “pilar central”: em vez de aplicar 60% em ações e 40% em títulos, como antes, 20% dos investimentos deveriam ser direcionados para produtos ligados ao ouro.

O novo modelo 60/20/20 seria um “escudo robusto contra a inflação”, afirmou o diretor de investimentos Mike Wilson à agência de notícias Reuters. Segundo ele, o ouro é o principal “ativo antifragilidade”, oferecendo estabilidade e proteção especialmente em tempos incertos.

O jornal Financial Times descreveu o entusiasmo em torno da alta do ouro como “goldplated fomo “, ou “medo – banhado a ouro – de ficar de fora”, numa tradução livre para o português. “A maior disparada do preço do ouro desde a década de 1970 é alimentada pelo receio dos investidores de perder retornos e pela preocupação com a inflação crescente”, comentou o diário britânico.

Criptomoedas entram no negócio do ouro

Mas não é apenas o fluxo de capital para ETFs de ouro que impulsiona a alta do metal. Segundo a Reuters, a empresa americana Tether – maior companhia global de ativos digitais – também desempenha um papel importante.

Sediada em El Salvador, a Tether promove investimentos em “Goldcoins” e é emissora da criptomoeda “Stablecoin Tether” (USDT). A empresa é a maior detentora individual de barras de ouro fora dos grandes bancos centrais e possui reservas semelhantes às de alguns países, como Coreia do Sul, Hungria ou Grécia.

Para Nicky Shields, da MKS, o mercado de ouro superaquecido é um sinal de que justamente o ativo considerado porto seguro está se tornando objeto de especulação. “Nos últimos dois meses, houve uma verdadeira formação de bolha nos mercados financeiros, não apenas em ouro e prata, mas também em ações americanas e inteligência artificial “, afirma.

Quais as razões para esse “superaquecimento”? “O Fed está reduzindo os juros, embora não estejamos em recessão. Isso cria mais liquidez em um sistema que talvez nem precise disso”, argumenta Shields. “Por isso, estamos vendo uma alta valorização de ativos-bolha em IA, ações americanas e uma crise de bolha em ouro e prata.”