A Febre do Nilo Ocidental (FNO), uma doença viral transmitida por mosquitos, registrou a primeira morte no Brasil nesta semana, vitimando uma mulher de 77 anos em Santa Catarina. No continente europeu, o vírus já soma 12 óbitos e alarma autoridades sanitárias devido à sua propagação facilitada pelas mudanças climáticas.

O caso brasileiro é o segundo registrado na história do estado, enquanto outros dois foram confirmados em São Paulo e um está sob investigação no Piauí, segundo o Ministério da Saúde. O cenário global evidencia um aumento de infecções na Europa, com 12 países afetados, impulsionado por temperaturas mais altas que favorecem a proliferação de mosquitos vetores.

O que aconteceu

  • A Febre do Nilo Ocidental causa a primeira morte no Brasil e soma 12 óbitos na Europa, acendendo alerta sanitário.
  • Uma mulher de 77 anos em Santa Catarina é a primeira vítima fatal da FNO no país; há outros casos confirmados em SP e um sob investigação no Piauí.
  • A propagação da doença é favorecida pelas mudanças climáticas e temperaturas elevadas, que prolongam o período de atividade e reprodução dos mosquitos vetores.

A infecção pela Febre do Nilo Ocidental, na maioria das vezes, transcorre sem consequências graves e costuma ser assintomática. Entretanto, há casos raros em que pacientes desenvolvem condições severas como meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda.

De acordo com a Organização Mundial para a Saúde (OMS), ainda não existe vacina contra o vírus, nem tratamentos específicos. Os cuidados se limitam à administração dos sintomas e tratamento hospitalar para os casos mais graves. O Ministério da Saúde do Brasil continua investigando as circunstâncias e locais exatos das infecções no território nacional.

Vírus preocupa Europa com nova onda

O vírus do Nilo Ocidental, que se expandiu neste ano na Europa, tem alarmado as autoridades. Até agora, foram registrados casos em 12 países, três a mais que no mesmo período do ano passado: Albânia, Alemanha, Áustria, Espanha, França, Grécia, Holanda, Itália, Kosovo, Macedônia do Norte, Romênia e Sérvia.

Itália e Grécia lideram o ranking de casos, com 311 e 157 infecções, respectivamente, conforme dados do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC). Em 21 regiões do continente, autoridades relataram casos da doença pela primeira vez. A FNO costuma atingir seu pico entre o fim da primavera e o outono, quando as temperaturas amenas são ideais para a propagação de mosquitos.

Até 5 de agosto, a Europa contabilizava 12 mortes pelo vírus. Na Holanda, que registrou sua primeira infecção por FNO desde 2020 na semana passada, autoridades reportaram mais uma morte em 26 de agosto, a primeira no país.

Na Alemanha, o patógeno, que chegou à Europa por meio de aves migratórias vindas dos trópicos, foi identificado pela primeira vez em 2018 em aves e cavalos. Em 2024, já havia infectado animais isoladamente em quase todos os estados alemães. Desde 2019, o vírus vem sendo detectado repetidamente em seres humanos, principalmente no leste do país.

O que é a febre do nilo ocidental?

Na maioria dos casos, pessoas infectadas pelo vírus do Nilo Ocidental não percebem nada. Cerca de uma em cada cinco desenvolve, no máximo 14 dias após a infecção, sintomas semelhantes aos da gripe, como febre, calafrios, dor de cabeça e dores no corpo. Esses sintomas geralmente desaparecem depois de três a seis dias.

Em um de cada cem casos, entretanto, o vírus ataca o sistema nervoso central, um desenvolvimento perigoso que pode causar sequelas permanentes. Entre 5% e 10% desses casos neuroinvasivos (5 a 10 de cada mil infectados) terminam em morte.

Como o vírus é transmitido?

O vírus da FNO é transmitido pela picada de mosquitos infectados, principalmente o pernilongo comum (Culex pipiens), nativo das regiões mais ao norte do planeta. Apenas as mosquitos fêmeas picam, pois precisam do sangue de suas vítimas para produzir ovos.

O vírus da FNO geralmente vai parar nos mosquitos após eles picarem algumas espécies de aves silvestres infectadas, transmitindo a doença de uma ave para a outra. Enquanto algumas aves morrem em decorrência da infecção, outras carregam o vírus sem apresentar sintomas.

Os mosquitos também podem transmitir o vírus para mamíferos, sobretudo cavalos e seres humanos. No entanto, o vírus não consegue se multiplicar bem nesses dois hospedeiros. Por isso, ambos não servem como fonte do vírus para os mosquitos e não são contagiosos.

Por que as doenças por mosquitos se espalham?

A bióloga e especialista em arboviroses Sandra Junglen, do Instituto para Virologia do Hospital Charité em Berlim, na Alemanha, atribui o fenômeno às mudanças climáticas. Temperaturas mais altas favorecem a propagação de mosquitos e, consequentemente, potencializam a transmissão de doenças.

“Com isso, o período de atividade dos mosquitos se prolonga: eles eclodem mais cedo, picam com mais frequência, têm um ciclo de geração mais curto e colocam mais ovos”, explica a pesquisadora. Além disso, todas as espécies de mosquitos precisam de água para depositar seus ovos e para que as larvas se desenvolvam. Calor e um pouco de chuva bastam para que as populações de mosquitos se multipliquem.

Os vírus também adoram temperaturas elevadas: “Em temperaturas mais altas, o vírus consegue se multiplicar melhor dentro do mosquito e chegar às glândulas salivares”, diz Junglen. A partir daí, basta uma picada para infectar o próximo hospedeiro.

Por causa do aquecimento global, a dengue, outra doença transmitida pela picada de mosquitos, já deixou de ser um problema exclusivo de países tropicais. Em nações como França, Espanha e Itália, a dengue passou a circular localmente graças ao mosquito-tigre asiático (Aedes albopictus), originário da região Ásia-Pacífico, que conseguiu se estabelecer com sucesso ali e em outras 13 nações europeias.

Isso significa que a doença já não é mais introduzida apenas por viajantes infectados que retornam do exterior, mas já circula e é transmitida dentro do território europeu. “É apenas uma questão de tempo até que tenhamos essa situação também na Alemanha”, alerta Junglen. Doze anos atrás, segundo o ECDC, o Aedes albopictus — que também pode transmitir o vírus da chikungunya — estava presente em apenas oito países europeus.

Biodiversidade como barreira natural

Não são apenas as temperaturas crescentes no Hemisfério Norte que favorecem os mosquitos, tanto as espécies nativas quanto as invasoras. A perda de biodiversidade, que em ecossistemas saudáveis garante estabilidade, também contribui para esse cenário.

Junglen observa esse fenômeno em Berlim. A bióloga e sua equipe estudam a densidade de mosquitos e do vírus da FNO em diferentes áreas da cidade, desde regiões altamente urbanizadas até cemitérios e um parque natural.

A conclusão: os cemitérios concentram especialmente muitos mosquitos e vírus. Há vegetação, água e, por isso, também alguns animais que podem servir de hospedeiros para os mosquitos. No entanto, a densidade de mosquitos é ainda maior no parque natural restaurado. Apesar disso, os pesquisadores quase não encontram o vírus do Nilo Ocidental ali. Isso tem a ver com a biodiversidade do local, explica ela.

“Uma biodiversidade elevada reduz a ocorrência de patógenos. Todo patógeno precisa de um hospedeiro, e quanto mais diversificado for um ecossistema, menor será a densidade de hospedeiros específicos e, consequentemente, a carga viral”, pontua Junglen.

Como se proteger da febre do nilo ocidental?

Como não existe vacina nem tratamento específico para a infecção pelo vírus do Nilo Ocidental, a melhor proteção é evitar as picadas. Camisas de manga comprida e calças dificultam a ação dos mosquitos, assim como o uso de mosquiteiros e telas nas janelas.

Quem tem jardim também deve evitar criar locais propícios à reprodução dos mosquitos. Eles gostam de água acumulada em vasos, recipientes e tonéis. A regra para o jardim é a mesma: quanto maior a biodiversidade, melhor. Morcegos, sapos e aranhas adoram se alimentar de mosquitos.

Da IstoÉ

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