23/02/2026 - 17:49
A comoção em torno do macaco Punch expõe um fenômeno pouco compreendido: mães inexperientes ou sob estresse podem abandonar seus filhotes, e nem sempre o instinto basta para garantir o vínculo.Punch, um filhote de macaco japonês rejeitado pela mãe e pelos colegas, encontrou conforto num orangotango de pelúcia e ficou famoso. Imagens do pequeno primata agarrado ao seu único companheiro, após tentativas frustradas de socialização, inundaram as redes sociais em posts comovidos. O zoológico onde ele vive, situado nos arredores de Tóquio, virou atração turística, com segurança reforçada no recinto dos macacos. A Ikea, loja de decoração onde o objeto de transição foi comprado, não perdeu tempo e turbinou os anúncios do produto.
A cena gerou uma catarse global, pela perspectiva do filhote rejeitado. Mas o que está por trás da atitude da mãe e dos demais macacos do zoológico de Ishikawa, que custam a aceitar Punch como parte do bando?
Não se trata de crueldade materna, mas de um fenômeno natural não só entre primatas, apontam especialistas. As fêmeas, estejam elas no zoológico ou na natureza, às vezes rejeitam seus filhotes. Assim como acontece com as mulheres, a maternidade não é um reflexo automático do instinto dos animais, e sim um processo que exige aprendizado, condições adequadas e alguma dose de experiência.
Mamíferos e aves, os grupos que mais investem tempo e energia no cuidado de suas crias, são também aqueles em que o abandono ocasional de filhotes mais ocorre. Entre primatas, espécies profundamente sociais, esses episódios desafiam observadores, veterinários e tratadores, que precisam compreender não apenas os motivos da rejeição, mas também decidir como agir para garantir a sobrevivência do recém‑nascido.
No caso de Punch, foi um visitante quem percebeu o bebê abandonado logo após o parto, há sete meses, e alertou a equipe do zoológico. Em espécies como os macacos japoneses, os recém‑nascidos precisam se agarrar à mãe desde os primeiros minutos de vida, tanto para desenvolver força muscular quanto para sentir segurança. Punch não tinha a quem se agarrar, por isso precisava de ajuda urgente.
A equipe tentou alternativas improvisadas: toalhas enroladas em diferentes espessuras, mascotes diversos, tecidos que imitassem o contato materno. Nenhuma solução parecia adequada — até que surgiu a ideia de um orangotango de pelúcia, volumoso, com pelos longos e vários pontos para segurar.
“Achamos que sua semelhança com um macaco poderia ajudar Punch a se integrar de volta ao grupo mais tarde”, explicou o tratador Kosuke Shikano.
Condições para rejeição
Alison Behie, especialista em primatologia da Universidade Nacional da Austrália, explicou ao jornal britânico The Guardian que esse tipo de abandono pode ocorrer sob certas condições, sendo “idade, saúde e inexperiência” possíveis fatores.
Segundo os tratadores do zoológico, Punch nasceu durante uma onda de calor, um fator de estresse a ser considerado. “Em ambientes onde a sobrevivência é ameaçada por fatores externo, as mães podem priorizar sua própria saúde e reprodução futura, em vez de continuar a cuidar de um bebê cuja saúde pode ser comprometida por essas condições ambientais.”
Behie acrescentou que o comportamento dos outros macacos em relação a Punch “não é bullying nem qualquer comportamento anormal, mas sim uma interação social normal”.
Sem o convívio materno, Punch pode não desenvolver adequadamente as respostas de subordinação que regulam a vida social desses primatas, que seguem hierarquias matrilineares rígidas. Essa deficiência, segundo Behie, pode ter consequências duradouras para sua integração futura na vida adulta.
Inexperiência como fator central
No caso de Punch, ele era o primogênito, e a inexperiência da mãe certamente desempenhou um papel central na atitude, acredita Behie.
Foi o caso também da bebê orangotango Rieke, abandonada pela mãe em 2015, no zoológico de Berlim. Mesmo em tempos de redes sociais mais acanhadas, a bebê encantou o mundo em seus primeiros dias de vida, com seus pelos desgrenhados e olhos atentos. Agarrava‑se ao tratador responsável como se ele fosse sua mãe, sempre acompanhada de seu cobertor verde favorito. Ela era a primogênita de sua mãe biológica, Djasinga, que simplesmente não a aceitou.
Os tratadores tentaram de tudo para promover o vínculo entre mãe e filha, mas Djasinga não demonstrava interesse e era indiferente aos gritos da cria.
Surgiu então uma solução extrema: anestesiá‑la para que Rieke pudesse receber o colostro — o leite riquíssimo em anticorpos, produzido apenas nas primeiras horas após o nascimento. A estratégia funcionou, mas apenas temporariamente. Assim que acordou, a mãe afastou a filhote do corpo, indicando que não haveria vínculo possível.
Para que tivesse uma chance real de se desenvolver emocional e socialmente, Rieke foi enviada ao Centro de Resgate de Macacos Monkey World, no Reino Unido, especializado no cuidado de orangotangos órfãos. Ali, mães substitutas — fêmeas experientes da espécie — acolheram a pequena, oferecendo o contato físico fundamental nos primeiros anos.
Outro caso ilustre vindo do zoológico de Berlim foi do urso polar Knut, rejeitado pela mãe ao nascer, em 2006. Ele foi acolhido por um cuidador, e sua história de superação e rara amizade com humanos gerou enorme cobertura midiática. Sua morte, quatro anos depois, também diante das câmeras, deixou muitos fãs desolados. Knut foi empalhado e eventualmente fica exposto no Museu de História Natural de Berlim.
Alerta sobre comércio ilegal
No caso de Punch, seu progresso tem sido constante. Ele já pesa cerca de dois quilos e continua recebendo alimentação dos tratadores, que aos poucos vão integrando o animal aos demais membros do grupo. Os tratadores acreditam que, com o tempo, ele deixará o brinquedo de lado. Mas, por ora, o orangotango de pelúcia continua sendo sua figura de apego mais forte.
Agora, especialistas temem que a comoção contribua, inadvertidamente, para o comércio ilegal de filhotes usados como animais de estimação.
“Esta história sobre Punch destaca os impactos da perda de habitat, das mudanças climáticas, do bem-estar dos animais em zoológicos e do poder das mídias sociais para conectar as pessoas aos animais”, disse Carla Litchfield, psicóloga conservacionista da Universidade de Adelaide, na Autrália, ao Guardian.
“No entanto, esperamos que os milhões de curtidas nas mídias sociais e a atenção não agravem o problema do comércio ilegal de macacos bebês para o comércio de animais exóticos, porque todos acham que os macacos bebês são fofos e seriam ótimos animais de estimação.”
sf/ra (EFE, OTS)
