Um homem de 69 anos cumpre pena de prisão na Itália após construir e promover ruínas romanas falsas em Vicenza, cobrando ingressos como se fossem uma descoberta arqueológica milenar. Franco Malosso, condenado por fraude, enganou turistas por mais de uma década com o falso “Anfiteatro Berico”, alegando que a estrutura possuía quase 1.700 anos.

Apresentado por ele como um sítio de quase 1.700 anos, o chamado Anfiteatro Berico atraía turistas, aparecia em guias de viagem e recebia visitantes interessados em conhecer o que era anunciado tanto como um complexo com vestígios do período neolítico, quanto da Grécia Antiga e do Império Romano. Contudo, a estrutura foi erguida há menos de 15 anos, com blocos modernos envelhecidos artificialmente, colunas de concreto, estátuas de gesso e um lago artificial.

A condenação tornou-se definitiva em dezembro de 2021, quando a Corte de Cassação, a mais alta instância da Justiça italiana, rejeitou seu último recurso. A pena fixada foi de dois anos e quatro meses de prisão, além de multa de 3 mil euros e começou a ser cumprida em janeiro deste ano em Ventimiglia, no norte da Itália, segundo o veículo italiano Corriere della Sera. Com isso, o caso voltou a ganhar repercussão neste mês.

O que aconteceu

  • Um homem é condenado por fraude após construir e promover ruínas romanas falsas na Itália.
  • Franco Malosso cobrava ingressos de turistas, alegando que o local era uma descoberta arqueológica de quase 1.700 anos.
  • A estrutura, feita de concreto e gesso, foi erguida há menos de 15 anos, e o caso voltou a ganhar repercussão.

O falso complexo ficava em Arcugnano, nas colinas da província de Vicenza, na região do Vêneto. Durante anos, Malosso afirmou que a estrutura datava de 393 d.C. e teria sido revelada após um deslizamento de terra ocorrido em 2005. O local era falsamente descrito como uma descoberta arqueológica excepcional e recebia turistas em visitas guiadas e eventos com reconstituições históricas. Os ingressos podiam custar até 40 euros (R$ 239). O anfiteatro chegou a ser incluído em um guia financiado pela União Europeia e também em aplicativos regionais de turismo.

Segundo a rede CNN, visitantes eram informados de que diversas figuras históricas teriam passado pelo local. Cartazes e histórias contadas aos visitantes promoviam a narrativa. De acordo com investigadores, Malosso afirmava que o local havia sido frequentado por personagens como o imperador romano Júlio César e a rainha egípcia Cleópatra. Também associava o espaço à personagem Julieta, da peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, embora ela seja completamente fictícia.

A investigação e a verdade sobre o local

A investigação começou em 2016 após uma denúncia da prefeitura de Arcugnano. As inspeções conduzidas pela polícia e por autoridades responsáveis pelo patrimônio cultural concluíram rapidamente que não existia qualquer estrutura arqueológica no terreno. Segundo os investigadores, todo o complexo era de construção recente.

As apurações apontaram que o empreendimento foi erguido em uma área de cerca de 5 mil metros quadrados após a remoção de parte de uma colina. Degraus e arquibancadas foram construídos com blocos modernos empilhados e tratados para parecer antigos. O cenário incluía colunas de concreto, estátuas de gesso, um lago artificial e outros elementos elaborados para reforçar a aparência histórica do local, segundo o Corriere della Sera.

Documentos apresentados à Justiça mostraram que a construção contou com o apoio de uma empresa local, que utilizou materiais contemporâneos para erguer a estrutura. Especialistas também encontraram concreto, gesso, fibra de vidro e outros componentes incompatíveis com uma construção da Antiguidade. Imagens de satélite indicaram que a colina havia sido modificada antes da instalação do complexo. Não está claro quando a construção começou, mas em 2014 Malosso já divulgava o local e recebia visitantes.

Por que a defesa do acusado foi rejeitada?

Ao longo do processo, a versão de Franco Malosso sobre a origem do anfiteatro mudou. Inicialmente, ele alegava ter descoberto um sítio arqueológico autêntico. Mais tarde, passou a afirmar que havia apenas reconstruído uma estrutura antiga que supostamente existira no local. A explicação foi rejeitada pelos órgãos de proteção do patrimônio, que concluíram não haver qualquer evidência arqueológica sob a colina, afirma o jornal espanhol EL País.

A defesa também argumentou que a falsificação era tão grosseira que ninguém poderia ter sido enganado por ela. O argumento foi apresentado nas diferentes fases do processo, mas acabou rejeitado pela Corte de Cassação, que manteve integralmente a condenação.

O impacto e o futuro da estrutura falsa

O caso surpreendeu arqueólogos e especialistas em patrimônio cultural. Ouvidos pela CNN, investigadores afirmaram nunca ter visto a falsificação de um sítio arqueológico inteiro. Já especialistas consultados pelo jornal El País observaram que a identificação de estruturas antigas não depende apenas da aparência visual, mas também de fatores como técnicas construtivas, materiais, contexto histórico e localização. Eles destacaram ainda que anfiteatros romanos normalmente eram construídos próximos a centros urbanos, o que tornava improvável a existência de uma estrutura desse tipo isolada na área rural de Arcugnano.

Além da pena de prisão, a Justiça determinou que Franco Malosso indenize o município pelos danos causados em 560 mil euros. Também foi ordenada a demolição do complexo e a recuperação da colina ao estado original.

Apesar da ordem judicial, o futuro do chamado Anfiteatro Berico segue indefinido. A estrutura ainda não foi removida e, segundo relatos, parte dela já voltou a ficar escondida pela vegetação.

 

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