13/01/2026 - 12:20
“Sondervermögen” é usada no meio político para mascarar “orçamento paralelo” que leva ao endividamento do Estado. Júri de especialistas critica “uso eufemístico, dissimulador e enganoso”.O termo Sondervermögen foi eleito o “despalavra” de 2025 na Alemanha. O anúncio foi feito pela campanha linguística “Unwort des Jahres” (Despalavra do Ano), em Marburg.
O termo, que significa “fundo especial”, é usado no meio político para designar pacotes adicionais ao orçamento criados pelo Estado alemão para fins específicos.
Segundo a campanha, porém, o emprego da palavra mascara seu verdadeiro significado: a contração de dívidas. O termo “marcou de forma muito clara os debates políticos sobre endividamento do Estado e programas de investimento”, diz o júri.
Isso porque, na linguagem cotidiana, Sondervermögen é entendido como uma quantidade específica de patrimônio separada de um valor total. No âmbito das finanças públicas alemãs, porém, a expressão é usada para designar autorizações de gastos extrase não o destino de um recurso já existente. Na prática, ganhou vida própria e virou sinônimo de “orçamento paralelo”.
“Criticamos o uso linguístico eufemístico, dissimulador e enganoso porque ele mina debates democráticos”, declarou Constanze Spiess, porta-voz da campanha e linguista da Universidade Philipps de Marburg.
Segundo ela, muitos cidadãos não estariam familiarizados com esse significado especializado e se orientariam pelo sentido cotidiano. O termo pode ter efeito manipulador quando é empregado estrategicamente na comunicação política, ao eliminar a clareza e transparência de seu significado, conclui o juri da campanha.
Em 2025, por exemplo, o termo foi usado para designar um superpacote de 500 bilhões de euros a serem gastos em defesa e infraestrutura, aprovado pelo Parlamento da Alemanha. Para ser aprovada, a proposta precisou afrouxar o freio da dívida pública do país.
“Zustrombegrenzungsgesetz” em segundo lugar
Em segundo lugar ficou a expressão Zustrombegrenzungsgesetz. Ela é usada no contexto da política migratória e significa, de forma literal, “lei de limitação de afluxo” – no caso, de pessoas.
O termo recorre a uma “metáfora hídrica” e apresenta a imigração como um “afluxo de grandes quantidades”, segundo a campanha. Com isso, a imigração é negativamente associada a uma ameaça.
Desde a década de 1950, designações desse campo de metáforas ligadas ao afluxo de água vêm sendo usadas na língua alemã em conexão com a migração. São exemplos os termos Flüchtlingsstrom (literalmente “correnteza de refugiados”) e Asylantenwelle (onda de requerentes de refúgio).
Refugiados desaparecem por trás dessas designações e “são assim apresentadas como uma grande massa e um perigo, sendo ao mesmo tempo desumanizadas”, pontuam os linguistas.
O que é considerado uma “despalavra”
A comissão da iniciativa “Despalavra do ano” é composta por quatro linguistas, uma jornalista e membros que variam a cada ano.
A “despalavra” é selecionada a partir de sugestões enviadas por cidadãos até 31 de dezembro de cada ano. Desta vez, houve 2.631 envios, contendo 553 expressões diferentes, das quais cerca de 70 atenderam aos critérios da competição.
Entre os termos sugeridos estava também Stadtbild (paisagem urbana) – palavra usada pelo chanceler federal alemão Friedrich Merz ao afirmar que a imigração ainda seria um “problema visível na paisagem urbana”.
O uso do termo gerou uma onda de protestos. Sob pressão, Merz afirmou que os problemas seriam causados por migrantes que não têm status de residência permanente, não trabalham e não cumprem as regras vigentes na Alemanha.
A palavra Stadtbild voltou a ser usada pela imprensa alemã em referência à fala de Merz sobre Belém, após o chanceler federal participar da COP30 e comparar o Brasil com a Alemanha. “Desta vez, o Brasil: Merz desencadeia novo debate sobre a paisagem urbana (Stadtbild)”, disse manchete do jornal Tagesspiegel na ocasião.
Contudo, a palavra Stadtbild “não é necessariamente carregada de conotação negativa” e por isso não pode ser uma “despalavra”, disse Spiess. Há também movimentos que usam o termo de forma positiva, explicou.
De modo geral, podem ser considerados termos e formulações que violem princípios da dignidade humana ou da democracia, que discriminem grupos sociais ou que sejam eufemísticos, dissimuladores ou enganosos.
Em 2024, por exemplo, foi eleita a palava biodeutsch (bioalemão), usada para mencionar alemães étnicos, em oposição a alemães com raízes migratórias. Em 2023, a escolhida foi “remigração”.
