16/01/2026 - 14:49
Pesquisadores identificaram, pela primeira vez no Brasil, um campo dos chamados “tectitos”: vidros naturais formados a partir do impacto de corpos extraterrestres contra a superfície da Terra. As estruturas foram nomeadas de geraisitos, em referência ao estado de Minas Gerais, onde foram inicialmente encontradas.
A descoberta, liderada pelo geólogo Álvaro Penteado Crósta, foi detalhada em um novo artigo publicado na revista científica Geology, em colaboração com pesquisadores do Brasil e do exterior.
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Os primeiros fragmentos foram localizados nos municípios Taiobeiras, Curral de Dentro e São João do Paraíso, no norte de Minas Gerais, em uma faixa de aproximadamente 90 quilômetros. Porém, desde a submissão do artigo, novas ocorrências foram identificadas também na Bahia e, mais recentemente, no Piauí, ampliando a área para mais de 900 quilômetros de extensão.
Segundo o pesquisador, essa expansão também é observada em outros campos de tectitos ao redor do planeta, já que o tamanho da área está diretamente relacionado à energia liberada no impacto. Até então, apenas cinco grandes campos eram reconhecidos globalmente: Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte e Belize.
Formas, cores e características
Até julho de 2025, os pesquisadores haviam reunido cerca de 500 amostras, número que já ultrapassa 600 com as descobertas mais recentes. Os fragmentos variam de menos de um grama até 85,4 gramas, podendo ter dimensões que chegam a cerca de cinco centímetros.
Embora aparentem ser negros e opacos, sob luz intensa eles tornam-se translúcidos, com uma coloração verde-acinzentada. As formas são aerodinâmicas, incluindo estruturas esféricas, elipsoidais, em gotas, discoides, torcidas ou semelhantes a halteres.
As superfícies escuras apresentam pequenas cavidades derivadas de marcas de bolhas de gás liberadas durante o resfriamento do material enquanto atravessava a atmosfera, um processo comum em tectitos e que também pode ser observado em lavas vulcânicas.
Evidências químicas do impacto
As análises geoquímicas indicam que os geraisitos encontrados possuem alto teor de sílica, material que é a matéria-prima do vidro, com concentrações entre 70,3% e 73,7%. Os níveis combinados de óxidos de sódio e potássio variam de 5,86% a 8,01%, valores ligeiramente superiores aos observados em outros campos de tectitos conhecidos.
Também foram detectadas variações em elementos-traço, como cromo e níquel, sugerindo que o material original não era completamente homogêneo. A presença rara de lechatelierita, uma forma de vidro de sílica produzida apenas em temperaturas extremas, reforça que a origem do material se deu por um impacto extraterrestre.
Um dos critérios decisivos para a classificação do fragmento foi o baixo teor de água, medido por espectroscopia no infravermelho, com valores entre 71 e 107 partes por milhão. Vidros vulcânicos, como a obsidiana, costumam conter quantidades significativamente maiores.
Um evento ocorrido no final do Mioceno
A datação isotópica, baseada na relação entre isótopos de argônio, indica que o impacto ocorreu há cerca de 6,3 milhões de anos, no final do período Mioceno. Os dados apontam para um único evento de impacto, e a datação pode ser inferior, já que parte do argônio pode ter sido herdada das rochas atingidas.
Até o momento, nenhuma cratera associada foi identificada. Dos seis grandes campos de tectitos registrados, apenas metade possui crateras conhecidas.
No caso brasileiro, segundo a análise dos pesquisadores, o material fundido teve origem na crosta continental arqueana, a primeira formação na Terra, com idades entre 3,0 e 3,3 bilhões de anos, direcionando as buscas para o cráton do São Francisco, uma das regiões geologicamente mais antigas da América do Sul.
Embora ainda não seja possível estimar com precisão o tamanho do corpo que causou o impacto, a quantidade de material fundido e a área de espalhamento indicam um evento de significativa energia, ainda que menor do que o responsável pelo campo da Australásia, que se estende por milhares de quilômetros.
Atualmente, a equipe trabalha com uma modelagem matemática para estimar os impactos, utilizando parâmetros como a energia liberada, velocidade, ângulo de entrada e o volume de rocha fundida, com a incorporação de novos dados.
A descoberta dos geraisitos preenche uma lacuna importante no registro de impactos na América do Sul e reforça a hipótese de que tectitos podem ser mais comuns do que se imaginava, passando despercebidos ou sendo confundidos com vidros comuns.
* Com informações da Agência Fapesp
