23/01/2026 - 12:48
Relatório expõe depoimentos devastadores de palestinos libertados como parte do acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas. Enquanto isso, ativistas temem que Israel esteja considerando reintroduzir a pena de morte.A memória da agressão sexual com um bastão ainda assombra Tamer Qarmut, de Beit Lahiya, no norte da Faixa de Gaza . Pai de cinco filhos, ele ficou quase dois anos detido numa prisão israelense, sob a acusação não fundamentada de integrar o grupo extremista Hamas . Ele estava entre os cerca de 2 mil presos palestinos libertados em outubro de 2025 como parte do acordo de cessar-fogo em Gaza .
“Ainda sinto dores intensas devido aos espancamentos que sofri. (…) Ainda estou cheio de tristeza por causa da tortura e das experiências difíceis que passei durante a detenção, memórias dolorosas que magoariam qualquer pessoa”, disse um mês após sua libertação.
Tamer foi um dos 21 homens soltos nessa leva mais recente que decidiu falar sobre o inferno que viveu para a organização israelense de direitos humanos B’Tselem. Ele relatou em detalhes como foi sua captura pelas forças de segurança israelenses e a rotina de torturas e privações. Seu depoimento completo está presente no relatório “Living Hell” (Inferno Vivo), publicado pela organização na terça-feira (20/01).
Teve um momento durante o relato em que Tamer ficou em silêncio, como está descrito no documento. “Então, eu o ouvi soluçar alto ao telefone. Ele desabou. Durante cinco minutos, tentei acalmá-lo, e então ele voltou a falar. Disse que os soldados tinham feito algo com ele que ele tinha vergonha de contar. Insisti para que falasse e expliquei que era importante relatar tudo o que tinha acontecido”, revela Muhammad Sabah, pesquisador da organização que ouviu Tamer.
Campos de tortura
“As prisões israelenses se transformaram em uma rede de campos de tortura”, afirmou Yuli Novak, diretor executivo da B’Tselem, à DW.
Este é o segundo relatório da organização sobre torturas em prisões israelenses. O anterior, chamado Welcome to Hell (Bem-vindo ao inferno), foi publicado em agosto de 2024, com base em 55 depoimentos. A mais recente edição tem o mérito de documentar como a prática de tortura não só persiste, como está cada vez mais entranhada no sistema penitenciário israelense, conforme aponta a entidade.
“Israel continua sua política sistêmica e institucionalizada de tortura e abuso de prisioneiros palestinos, aprovada e apoiada pelo sistema político, pelo sistema judicial, pela mídia e, é claro, pelas próprias autoridades prisionais, que se gabam abertamente das condições torturantes em que os presos palestinos são mantidos”, diz o relatório.
O Serviço Penitenciário de Israel (SPI), que opera as 30 prisões civis do país, rejeitou categoricamente as alegações descritas nos depoimentos. “As alegações de ‘violência sistemática’ ou abuso são falsas e sem fundamento”, disse o SPI à DW em um comunicado.
“Todos os presos são mantidos em conformidade com os procedimentos legais, e seus direitos, incluindo acesso a alimentação, cuidados médicos e condições de vida humanas, são salvaguardados por uma equipe profissional treinada”, disse o porta-voz.
De acordo com seu último relatório, de setembro de 2025, o SPI mantinha 10.863 palestinos classificados pelo regime israelense como prisioneiros por “razões de segurança”.
Entre eles, 3.521 são palestinos presos sem julgamento e sem a oportunidade de se defender contra as alegações, definidos como “detentos administrativos”. Outros 2.623 são definidos como “combatentes ilegais” – não têm o status oficial de prisioneiros de guerra conforme as Convenções de Genebra, o que significa que têm menos proteções.
Havia ainda 3.227 “detidos por segurança” , ou seja, palestinos contra os quais há processos judiciais em andamento, mas que ainda não foram condenados. Os 1.492 restantes são “condenados por razões de segurança” com penas de prisão determinadas por um tribunal.
A libertação do grupo de 2 mil presos do qual Tamer Qarmut fazia parte envolveu a libertação de 20 reféns israelenses sobreviventes mantidos pelo Hamas desde os ataques terroristas a Israel em 7 de outubro de 2023, quando o grupo extremista matou 1.200 pessoas, em sua maioria civis israelenses, e levou mais de 240 reféns.
Ainda assim, o número de prisioneiros palestinos continua maior do que era antes da intensificação do conflito, observa a B’Tselem: em setembro de 2023, o SPI havia listado 4.935 presos palestinos.
Detenção militar
Além das prisões civis de Israel, as Forças de Defesa de Israel (FDI) também operam quatro campos de detenção militar em todo o país. Em particular, Sde Teiman, uma instalação de detenção militar no deserto de Negev, continua sendo o foco dos casos relatados.
Dois meses depois do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, partes dessa base militar foram convertidas em um campo de detenção em grande escala.
Desde então, palestinos classificados como “combatentes ilegais” são enviados para lá, de acordo com a “Lei de Combatentes Ilegais” de Israel. A lei determina que as forças armadas israelenses têm permissão para prender suspeitos de extremismo e mantê-los detidos por 45 dias sem uma ordem de detenção formal. Algumas pessoas ficam detidas por até 90 dias sem acesso a um advogado.
“Nas instalações de Sde Teiman, passei pelos dias mais difíceis da minha vida. Ainda sofro de um trauma grave. Eles me mantiveram nu e os soldados soltaram cães que me atacaram. Eles me bateram no pênis, amarraram-no com um cordão de plástico e causaram inchaço e sangramento”, disse à B’Tselem um palestino que pediu anonimato por medo de represálias após ser libertado em outubro de 2025.
Muhammad al-Mishwakhi, 45, acrescentou que em Sde Teiman “eles mal nos permitiam tomar banho e, quando permitiam, era apenas por dois minutos. Não trocamos aqueles agasalhos por mais de dois meses. Nossas roupas ficaram tão sujas que tivemos que lavá-las e vesti-las novamente ainda molhadas, mesmo no frio do inverno”.
Quando questionada sobre vários casos individuais, a FDI disse à DW que não pode comentar sobre esses casos sem conhecer todos os detalhes. No entanto, a FDI enfatizou que seus soldados agem de acordo com as leis israelenses e internacionais e que protegem os direitos das pessoas detidas nas instalações sob sua responsabilidade.
“As FDI tratam quaisquer violações deste tipo com a máxima seriedade, uma vez que vão de encontro com os seus valores fundamentais”, continuou a declaração, acrescentando que as FDI rejeitam completamente as alegações relativas ao abuso sistemático de detidos, incluindo as de abuso sexual.
As FDI também observaram que reclamações concretas sobre má conduta ou condições inadequadas de detenção são encaminhadas às autoridades competentes e, em casos apropriados, medidas disciplinares são tomadas contra os funcionários das instalações.
No entanto, de acordo com uma investigação realizada pela ONG Action on Armed Violence em agosto de 2025, 88% das investigações israelenses sobre as recentes alegações de abuso em Gaza foram paralisadas ou encerradas sem conclusões, com apenas uma delas resultando em condenação criminal.
“Desumanização dos palestinos como estratégia”
Jane Kinninmont, CEO da ONG Associação das Nações Unidas (UNA) do Reino Unido, reconhece um padrão. “Com os abusos nas prisões, é comum que as autoridades primeiro neguem e depois digam que se trata de um problema de alguns funcionários juniores que agiram por conta própria”, disse ela à DW, acrescentando que, na verdade, isso é “muitas vezes tolerado ou mesmo incentivado pelas autoridades superiores e visto como uma forma de amedrontar e coagir uma população considerada inimiga”.
Ao mesmo tempo, ela acrescentou que a população local e organizações de direitos humanos como B’Tselem e Breaking The Silence trabalham corajosamente para mudar essa dinâmica. “Mas eles estão constantemente sob pressão do governo israelense, para quem a desumanização é estrategicamente útil, ajudando a justificar a subjugação de outro povo e a destruição dos fundamentos da vida palestina em Gaza”, disse ela.
Kinninmont acredita que o enfrentamento efetivo desses abusos exigiria compromisso e liderança das instâncias superiores do governo israelense.
No entanto, Itamar Ben-Gvir, chefe de extrema direita do Ministério da Segurança Nacional, que supervisiona o Serviço Prisional Israelense, disse em uma postagem em hebraico no X em julho de 2024 que um de seus principais objetivos era “piorar as condições dos terroristas nas prisões e reduzir seus direitos ao mínimo exigido por lei”.
Knesset considera reintrodução da pena de morte
Nesta última segunda-feira, várias organizações de direitos humanos acenderam o alerta sobre um projeto de lei controverso que está em discussão na Knesset, o parlamento de Israel . Se aprovada, uma emenda de “pena de morte para terrorista” seria incluída no Código Penal e acabaria com a abolição de fato da pena de morte no país. No contexto da escalada das violações dos direitos humanos desde 7 de outubro de 2023, isso constituiria uma grave ameaça às vidas palestinas, alertaram em comunicado.
“Itamar Ben-Gvir tentou aprovar a lei da pena de morte no início de 2023, mas agora ela está ganhando força”, disse Milena Ansari, pesquisadora assistente para Israel e Palestina da Human Rights Watch (HRW).
Mesmo antes disso, a ONU e a HRW já haviam alertado sobre os abusos, as alegadas torturas e a morte de prisioneiros palestinos. De acordo com o recente relatório da B’Tselem, pelo menos 84 prisioneiros e detidos palestinos, incluindo um menor, morreram em prisões e centros de detenção militares israelenses desde 7 de outubro de 2023. Algumas organizações de direitos humanos estimam um número ainda maior, cerca de 100.
“Os depoimentos documentados pela B’Tselem são horríveis, mas são totalmente consistentes com a pesquisa da Human Rights Watch”, disse Ansari à DW. “Esses abusos não parecem ser incidentes isolados, mas parte de um padrão mais amplo, especialmente desde 7 de outubro de 2023”, disse ela, acrescentando que “documentamos padrões semelhantes de tortura, tratamento cruel e degradante, violência sexual e abuso médico, particularmente contra profissionais de saúde palestinos detidos em Gaza”.
Ansari alertou ainda que “o que estamos vendo provavelmente representa apenas uma imagem parcial, já que o monitoramento independente foi bloqueado pelas autoridades israelenses”. Isso inclui a principal organização internacional com acesso a prisioneiros em conflito, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
