13/02/2026 - 14:56
Transmissão ao vivo de coletiva de imprensa foi interrompida após pergunta sobre a guerra em Gaza. Organização cita “problemas técnicos”, e jurados evitam se posicionar sobre o tema.Conhecido como um dos mais políticos festivais de cinema, aBerlinale já está acostumada a controvérsias, mas a primeira deste ano aconteceu antes mesmo da abertura oficial do evento, na noite desta quinta-feira (12/02).
Ainda pela manhã, durante a coletiva de imprensa que apresentou o júri internacional do evento, e que era transmitida ao vivo, o sinal foi interrompido quando um jornalista perguntou o que os jurados achavam da posição da Berlinale e do governo alemão em relação a Gaza.
Estavam presentes na coletiva de imprensa a diretora do festival, Tricia Tuttle, e as sete pessoas que vão selecionar os ganhadores deste ano dos Ursos de Ouro e Prata: o presidente do júri, Wim Wenders, aclamado diretor de Asas do Desejo e Perfect Days; o diretor nepalês Min Bahadur; o ator sul-coreano Bae Doona; o diretor indiano Shivendra Singh Dungarpur; o diretor, roteirista e produtor americano Reinaldo Marcus Green; o diretor roteirista e produtor japonês Hikari; e a produtora polonesa Ewa Puszczynska.
A pergunta sobre Gaza partiu do jornalista e podcaster Tilo Jung. Ele citou um dos comentários anteriores dos jurados sobre como o cinema tem o poder de mudar o mundo, e ressaltou que o festival não acontece no vácuo.
“A Berlinale, como instituição, tem demonstrado solidariedade com os povos do Irã e da Ucrânia, mas nunca com a Palestina, mesmo hoje em dia”, observou Jung. “À luz do apoio do governo alemão ao genocídio em Gaza e seu papel como principal financiador da Berlinale, vocês, como membros do júri…”
A transmissão ao vivo foi interrompida antes que ele pudesse terminar o questionamento: “Vocês, como membros do júri, apoiam esse tratamento seletivo dos direitos humanos?”
Festival nega censura e fala em “problemas técnicos”
A interrupção gerou especulações sobre se o festival teria tentado censurar o tema, o que os organizadores negaram.
“Tivemos problemas técnicos com a transmissão pela internet da coletiva de imprensa com o júri internacional nesta manhã”, afirmou a assessoria de imprensa da Berlinale em um comunicado, no qual também pede desculpas.
A organização do festival acrescentou que a gravação completa da coletiva de imprensa será disponibilizada no site do festival “o mais rápido possível”.
“Questão complicada”
“Acho difícil acreditar que tenha sido apenas uma coincidência”, diz Jung à DW. Segundo ele, a diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, que conduzia a coletiva de imprensa, inicialmente tentou evitar o assunto antes que alguns membros do júri reagissem de forma tensa, evitando responder diretamente à pergunta.
“Nos questionar sobre isso é um pouco injusto”, afirmou primeiro Ewa Puszczynska, produtora do filme Zona de Interesse, que trata do Holocausto. Reconhecendo que já havia falado anteriormente sobre como o cinema “muda o mundo”, ela acrescentou: “É claro que tentamos falar com cada espectador, para fazê-los pensar, mas não podemos ser responsáveis pela decisão que eles tomam – a decisão de apoiar Israel ou a decisão de apoiar a Palestina”, pontuou Puszczynska.
“Mas há muitas guerras com genocídios, e não falamos sobre isso”, continuou ela. “Portanto, essa é uma questão muito complicada e acho um pouco injusto perguntar o que pensamos, como apoiamos ou não apoiamos, se conversamos com nossos governos ou não”, finalizou.
Wim Wenders: “Temos que nos manter fora da política”
Wim Wenders concluiu a discussão sobre o tema. “Temos que nos manter fora da política, porque, se fizermos filmes que sejam dedicadamente políticos, entramos no campo da política; mas nós somos o contrapeso da política”, declarou o diretor alemão.
“O cinema tem um poder incrível de ser solidário e empático”, disse ele. “As notícias não são empáticas. A política não é empática, mas os filmes são. E esse é o nosso dever.”
A transmissão ficou totalmente fora do ar durante as respostas de Puszczynska e Wenders, mas outras emissoras registraram a discussão.
Além da interrupção na transmissão, Jung considerou as respostas do júri “questionáveis”.
“Um grande festival de cinema não deveria ter começado assim”, disse ele à DW.
Em 2024, Wenders disse à agência de notícias dpa, no tapete vermelho, que gostava do fato de a Berlinale sempre assumir uma posição e que o festival “continuaria fazendo isso no futuro”. Na época, o cineasta estava reagindo à decisão da Berlinale de cancelar o convite a cinco políticos do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) para a cerimônia de abertura.
Acusações de antissemitismo
Nos últimos dois anos, vários cineastas fizeram declarações políticas sobre o conflito em Gaza, e o Festival de Cinema de Berlim enfrentou críticas de diferentes lados sobre como lidou com esse tema.
Por um lado, a Berlinale é apontada como relutante em manifestar solidariedade aos palestinos; por outro, de antissemitismo por abrir espaço a vozes dissidentes.
Críticas às políticas de Israel por parte de um cineasta israelense estiveram entre os incidentes da edição de 2024 que levaram o festival a ser acusado de antissemitismo.
Yuval Abraham, o co-diretor israelense do documentário No Other Land, que retrata a ocupação na Cisjordânia, passou a receber ameaças de morte em seu país natal após seu apelo, na cerimônia de premiação do festival, para que se pusesse fim a “esse apartheid, essa desigualdade”.
Antes da edição de 2025 – o primeiro ano de Tricia Tuttle na direção do evento –, o festival esclareceu a posição sobre liberdade de expressão, incluindo a solidariedade com os palestinos: “Todos os convidados têm direito à liberdade de expressão dentro dos limites da lei. Também defendemos o direito dos nossos cineastas de falar sobre os impulsos por trás de seus trabalhos e suas experiências do mundo. A Berlinale acolhe diferentes pontos de vista, mesmo que isso crie tensão ou controvérsia.”
