Conflito no Oriente Médio ameaça deixar invasão russa no Leste Europeu em segundo plano. No entanto, nem todos os desdobramentos são negativos para Kiev.A guerra de EUA e Israel contra o Irã vem dominando há dias o noticiário e a agenda política mundial. As consequências do conflito são sentidas muito além da região – inclusive na Ucrânia.

O país do Leste Europeu, que desde 2022 luta contra a invasão da Rússia, teme ser deixado em segundo plano por causa dos desdobramentos no Oriente Médio, além de poder ter que lidar com menos recursos para armamentos e um novo choque de preços causado pelo recuo na oferta de petróleo em todo o mundo. Por outro lado, o conflito pode acabar, em partes, beneficiando a Rússia – mas com ressalvas apontadas pelos especialistas.

Confira abaixo os possíveis reflexos que a guerra entre EUA e Israel contra o Irã pode trazer para a Ucrânia.

Menos armas?

Segundo o historiador militar austríaco Markus Reisner, o conflito no Oriente Médio é “um presente estratégico para a Rússia e a China”. Na opinião dele, a Rússia pode tirar proveito do fato de que a atenção do Ocidente está voltada para a nova guerra.

“A Ucrânia poderia assim ficar relegada ao segundo plano. Na pior das hipóteses, isso significaria ainda menos recursos, como, por exemplo, mísseis antiaéreos Patriot”, afirma o especialista da Academia Militar de Wiener Neustadt. Com a ofensiva contra o Irã, os EUA agora precisam de armas para uma nova guerra, o que dificulta o acesso ucraniano aos equipamentos balísticos.

Ihor Semywolos, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio de Kiev, também vê o risco de esgotamento dos recursos militares que são vitais para a Ucrânia. De acordo com Semywolos, um prolongamento da guerra com o Irã tornaria o Ocidente “mais flexível em seus esforços para pôr fim à guerra na Ucrânia”, o que fortaleceria a posição da Rússia.

“Para a Ucrânia, qualquer desfecho rápido da guerra com o Irã é melhor do que sua continuação”, concorda o analista ucraniano Vitaliy Portnikov. Segundo ambos os especialistas, a opção ideal seria o sucesso dos EUA e de Israel, bem como o colapso do atual regime iraniano.

Pois assim que o Irã se tornar mais previsível e deixar de ameaçar seus vizinhos, isso significará “estabilidade no Oriente Médio e um enfraquecimento do poder político e econômico da China e da Rússia nessa região”, avalia Portnikov.

Alta na energia beneficia a Rússia

Uma das consequências globais mais graves de uma guerra prolongada no Irã já deverá ser o aumento nos preços do petróleo e do gás. “Isso é do interesse de Moscou”, enfatiza Portnikov. A alta nesses insumos aumentaria consideravelmente a capacidade da Rússia de continuar a guerra na Ucrânia. Nesse caso, o Kremlin tentaria oferecer energia à Europa a preços baixos em troca de concessões.

O novo conflito no Oriente Médio já teve um impacto significativo nos preços mundiais do petróleo. O preço do barril de petróleo bruto Brent ultrapassou a marca de 80 dólares em 3 de março, com o bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irã. É por essa rota que o petróleo do Golfo Pérsico chega ao Oceano Índico e, de lá, a outras regiões do mundo.

Operadores do mercado não descartam que, com o conflito se prolongando, o valor do combustível fóssil possa ultrapassar os 100 dólares nas próximas semanas.

No entanto, ainda não está claro por quanto tempo o aumento dos preços do petróleo vai continuar e em que medida a Rússia se beneficiará disso. Wilfried Jilge, especialista em Rússia e Ucrânia da Sociedade Alemã de Política Externa (DGAP, na sigla em alemão), duvida que os efeitos a longo prazo dos altos preços do petróleo possam compensar as perdas que a Rússia sofreu com as sanções ocidentais relacionadas à guerra na Ucrânia.

“A Rússia não entrará em colapso este ano devido às sanções e à crise econômica, mas vemos uma deterioração gradual e uma crise na economia russa que não podem mais ser negados”, destaca.

Desgaste político para a Rússia

Além disso, apesar dessas vantagens para os russos, a guerra no Irã também pode, por outro lado, ser prejudicial para Moscou. Principalmente porque o país de Vladimir Putin não está em condições de apoiar o Irã, um de seus aliados mais importantes. Segundo Jilge, isso é um ponto positivo para a Ucrânia.

“Vemos que, devido à guerra na Ucrânia, a Rússia não consegue mais manter seu domínio em outras regiões”, diz ele. Por isso, o especialista do DGAP considera um cenário possível em que o círculo próximo a Putin comece a se perguntar cada vez mais “qual o sentido de continuar se desgastando na Ucrânia, se isso significa um enfraquecimento geral de sua posição”.

Nesse contexto, vale mencionar tanto a queda do regime do aliado de Moscou, Bashar al-Assad, na Síria, no final de 2024, quanto a prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA no início de janeiro. Moscou não se pronunciou sobre nenhum dos dois eventos.

Experiência ucraniana contra drones do Irã

A Ucrânia pode ganhar vantagem graças à experiência que acumulou na neutralização de drones iranianos. A Rússia utilizou esses drones de forma intensiva, sobretudo no início da guerra, mas agora também fabrica modelos próprios. Já o Irã, nos últimos dias, atacou instalações militares americanas nos países do Golfo e outros alvos na região com esses mesmos drones.

O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, afirmou que Kiev poderia enviar especialistas para a região do Golfo para ajudar a interceptá-los.

“Os países do Golfo poderiam se beneficiar da expertise do exército ucraniano, o que, em contrapartida, aumentaria a disposição dessa região em apoiar a Ucrânia”, sublinha o especialista austríaco Markus Reisner. Segundo ele, esse apoio poderia vir tanto na forma de sanções contra a Rússia quanto de ajuda financeira à Ucrânia.

Para Wilfried Jilge, da DGAP, a Europa deve fortalecer desde já o apoio à Ucrânia, sem esperar pelo fim da guerra envolvendo o Irã. Segundo ele, a Europa deve intensificar concretamente o combate à frota fantasma da Rússia, utilizada tanto para exportações ilegais de petróleo quanto para fins militares.

“E precisamos agora dar passos decisivos no fornecimento de equipamentos militares à Ucrânia e tomar novas iniciativas”, afirma Jilge.