02/01/2026 - 12:21
Um mesmo conjunto de neurônios pode ser responsável por regular dois estados fisiológicos opostos, a febre e o torpor. A descoberta é de um estudo liderado por uma pesquisadora brasileira na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e que foi publicada na revista Nature. A pesquisa, apoiada pela Fapesp, abre caminho para novos tratamentos médicos e até para aplicações futuras em longas viagens espaciais.
O trabalho identificou uma população específica de neurônios localizada no hipotálamo, mais precisamente no núcleo mediano pré-óptico. Essas células podem ser reconhecidas pela expressão do receptor de prostaglandina E2 do tipo EP3 e são capazes de induzir respostas opostas no organismo, dependendo da ativação ou inibição.
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“Quando esses neurônios são inibidos, produzem febre; quando ativados, induzem o que chamamos de torpor, um estado caracterizado por uma queda profunda e prolongada na temperatura corporal e no metabolismo”, explica Natália Machado, professora assistente na Escola de Medicina de Harvard e pesquisadora do Beth Israel Deaconess Medical Center, que coordenou o estudo com o professor Clifford Saper.
“Nossa ideia agora é identificar alguma molécula circulante que seja responsável por essas respostas e que possa ser futuramente convertida em fármacos, abrindo possibilidades para novos tratamentos médicos em humanos”, completa a pesquisadora.
Ainda segundo o estudo, algumas espécies, como os camundongos, entram em torpor quando submetidas simultaneamente à fome e ao frio. Embora os humanos não apresentem esse estado de forma natural, os autores acreditam que esse grupo de neurônios seja evolutivamente conservado também em nossa espécie. O estímulo adequado poderia ativá-los ou inibi-los, induzindo febre ou torpor. Durante esse estado, os camundongos chegam a reduzir o metabolismo em até 80%.
Entre os autores do estudo também está Luís Henrique Angenendt da Costa, que realizou pós-doutorado na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FORP-USP) e fez estágio no laboratório de Machado com bolsa da FAPESP.
De acordo com o brasileiro, a indução controlada do torpor pode ter aplicações clínicas relevantes. “Induzir a redução da temperatura corporal e o metabolismo pode ser uma estratégia muito interessante para o tratamento do AVC, por exemplo, fazendo o tecido afetado tolerar por mais tempo a falta de oxigênio, aumentando o tempo para se realizar uma intervenção médica”, exemplifica Costa.
Atualmente, a chamada hipotermia terapêutica já é utilizada, mas com limitações. A redução de temperatura é pequena e pode provocar efeitos colaterais graves, como instabilidade cardíaca e tremores intensos, já que o corpo tenta recuperar sua temperatura normal. A ativação dos neurônios descritos no estudo permite reduzir a temperatura sem que haja essa contrarresposta fisiológica.
A redução do metabolismo poderia contribuir, até mesmo, para missões espaciais de longa duração, como as planejadas para Marte pela Nasa e pela ESA. Em estado de torpor, o corpo demandaria menos energia e alimentos, o que poderia ser decisivo para suportar viagens de cerca de mil dias. A indução da febre também pode ter benefícios terapêuticos. Como o aumento da temperatura corporal é um mecanismo de defesa contra vírus e bactérias, novas abordagens que facilitem essa resposta podem ajudar, por exemplo, pessoas idosas.
Para confirmar que essa população de neurônios era responsável tanto pela febre quanto pelo torpor, os pesquisadores realizaram experimentos em camundongos geneticamente modificados, utilizando técnicas como quimiogenética e optogenética. Os testes mostraram ainda que o cálcio é o principal sinalizador intracelular envolvido nessas respostas.
Quando esses neurônios foram deletados, os animais deixaram de apresentar febre e de entrar em torpor, evidenciando o papel dessas células na regulação da temperatura corporal.
O próximo desafio fica a cargo de encontrar formas não invasivas de induzir os efeitos do torpor em humanos já que as técnicas utilizadas nos experimentos não são aplicáveis clinicamente. A identificação de hormônios ou peptídeos circulantes capazes de ativar esses mecanismos é uma das possibilidades investigadas.
Por meio do programa Conhecimento Brasil, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Costa segue a linha de pesquisa em sua atuação como pesquisador na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP. O foco será investigar os mecanismos da hipotermia associada a infecções graves, como a sepse, com o objetivo de desenvolver novas abordagens.
