15/08/2026 - 13:51
Cientistas desenvolveram um novo sistema de inteligência artificial (IA) que permite o estudo da cognição de macacos-prego-de-cara-branca em seu habitat natural, na Costa Rica. Utilizando uma tela sensível ao toque, o equipamento distribui bananas como recompensa e busca medir a aprendizagem e memória dos animais fora dos laboratórios, mudando um paradigma histórico na pesquisa de primatas.
O que aconteceu
- Um sistema de inteligência artificial em macacos-prego-de-cara-branca busca revolucionar o estudo da cognição primata.
- Pesquisadores usam telas sensíveis ao toque para interagir com os macacos e recompensá-los com bananas.
- A iniciativa visa coletar dados sobre aprendizagem e memória em ambientes naturais, superando limitações de laboratório.
Historicamente, a grande maioria dos dados sobre cognição em primatas é obtida em laboratórios, com animais estudados em cativeiro ou submetidos a testes em condições restritivas. Agora, o grupo de cientistas por trás do CapuchinAI busca mudar esse cenário, levando os testes cognitivos diretamente para o ambiente selvagem.
O modelo CapuchinAI foi testado com macacos-prego-de-cara-branca (Cebus capucinus), também conhecidos como capuchinhos, na Reserva Florestal de Taboga, na Costa Rica. Os detalhes foram publicados na revista científica American Journal of Primatology. O sistema identifica o macaco por meio de reconhecimento facial quando ele se aproxima e, em uma tela sensível ao toque, o primata recebe uma tarefa e, se correta, uma recompensa alimentar.
Para que os animais se acostumassem com a dinâmica, os pesquisadores criaram um estímulo inicial: um quadrado azul na tela que, ao ser tocado, aciona o distribuidor de banana. Os testes iniciais demonstraram que o modelo identifica indivíduos da espécie com 97% de precisão. De acordo com o estudo, os primatas aprenderam rapidamente a associação entre a tela e a recompensa.
Federico Sánchez, coautor da pesquisa e membro da Universidade Emory, nos Estados Unidos, relata a surpresa dos cientistas. “Era quase como se pudéssemos vê-lo perceber: “Ah, é isso que preciso fazer, tocar na tela!” Foi incrível ver um indivíduo aprender algo tão rápido”, afirmou em comunicado.
O modelo também revelou diferenças individuais entre os macacos. Observou-se, por exemplo, que alguns aprenderam rapidamente, enquanto outros preferiram observar os companheiros antes de se aproximarem do sistema. Muitos deles também se aproximaram para “beijar” a tela azul, a fim de ganhar uma fatia de banana.
Para evitar que um indivíduo dominante monopolizasse a plataforma, o sistema CapuchinAI limita as recompensas por sessão. Os pesquisadores também relataram que animais da espécie dos quatis – parentes dos guaxinins – tentaram manipular o aparelho.
Os estudos em laboratório podem apresentar vieses, já que o animal não interage em seu ambiente natural. Experimentos realizados em liberdade oferecem contextos sociais e ecológicos válidos, mas são notadamente difíceis de planejar e controlar.
“Estou tentando preencher essa lacuna”, declarou Marcela Benítez, antropóloga e coautora da pesquisa, ao New York Times. Para a especialista, o cérebro dos primatas não evoluiu em um laboratório, “mas, sim, em ambientes complexos e competitivos”.
Benítez complementa que a compreensão dos primatas raramente é estudada em liberdade, pois o controle experimental necessário para medir a cognição é desafiador em ambientes imprevisíveis. “Se quisermos saber como os primatas tomam decisões, se quisermos entender como eles usam esses grandes cérebros que desenvolveram, precisamos realmente colocá-los no contexto do mundo em que vivem”, explica.
“Estudar os indivíduos em seus ambientes naturais, onde há inúmeras variações em suas experiências de vida, nos permite aprender como as influências ambientais os moldaram”, concorda Sánchez.
O modelo CapuchinAI foi treinado com imagens de seis macacos-prego-de-cara-branca, mas o local de campo conta com cerca de cem exemplares da espécie. “Não tínhamos vídeos de alta qualidade de todos esses indivíduos, o que é necessário para treinar o modelo”, reconhece Sánchez. Contudo, os vídeos gerados em campo serão usados para ampliar o catálogo de reconhecimento.
Nas próximas fases da pesquisa, os cientistas testarão um software capaz de oferecer um conjunto de tarefas adaptadas ao nível de cada macaco. Isso incluirá testes de controle de impulsos ou flexibilidade cognitiva, permitindo que a máquina reconheça o indivíduo e retome o teste exatamente de onde foi interrompido na sessão anterior.
“Nossa metodologia de IA não substitui a necessidade de pesquisadores humanos em campo. É essencial contar com conjuntos de dados ricos e observacionais, coletados por pessoas que estejam no local”, esclarece Benítez. Os autores esperam, ainda, que outros pesquisadores adaptem o CapuchinAI para diferentes espécies de primatas selvagens.
“[O sistema] permite compreender mais profundamente os indivíduos sobre os quais já temos dados por meio da observação de campo. Agora, podemos automatizar os testes cognitivos e quantificar esses resultados. É uma forma de entrar nas mentes por trás das personalidades”, sublinha Sánchez.
“É uma ferramenta nova e poderosa no conjunto de ferramentas da primatologia”, conclui Benítez.
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