28/01/2026 - 12:33
Casa Branca transferiu centro das operações do ICE da fronteira com o México para as cidades. Confrontos entre agentes federais de imigração e a população desafiam ideais americanos.Ações de grande repercussão – por vezes letais e potencialmente inconstitucionais – realizadas por agentes federais de imigração dos EUA podem estar mudando a visão dos americanos sobre uma política fundamental do governo do presidente Donald Trump.
A imigração tem sido um ponto central da plataforma de Trump por mais de uma década de vida política e foi tema central de sua campanha à reeleição em 2024.
No entanto, pesquisas mostram que a opinião pública mudou em meio à ampla divulgação das operações realizadas pelos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e de outras agências federais em áreas urbanas. Essas ações resultaram, somente em janeiro, na morte a tiros de dois cidadãos americanos em Minneapolis.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada nesta segunda-feira (26/01), realizada antes e depois do assassinato do enfermeiro de UTI Alex Pretti por agentes do ICE em Minneapolis, mostrou que 53% dos americanos desaprovam a forma como Trump lida com a imigração, em comparação com uma reprovação de 39% no primeiro dia de seu novo mandato, iniciado em janeiro de 2025. A aprovação da atuação do presidente em relação à imigração está em 39%, abaixo do pico de 50% registrado em fevereiro do ano anterior.
Das fronteiras para as grandes cidades
A polarização partidária também desempenha um papel importante. Os republicanos, de modo geral, apoiam as atividades do ICE, enquanto mais de nove em cada dez apoiadores do Partido Democrata, de oposição, desaprovam as medidas.
Contudo, quase dois terços dos eleitores que não declararam apoio a nenhum dos partidos majoritários disseram que as ações do ICE foram longe demais.
O ICE tem a função de identificar e deter imigrantes em situação irregular, mas, no segundo mandato de Trump, as atividades da agência foram recebidas com protestos, campanhas públicas de responsabilização e monitoramento, e um aumento das tensões nas ruas.
Trata-se de uma convergência de diversos fatores sem precedentes na história operacional do ICE, analisa Kelsey Norman, diretora do Programa de Direitos das Mulheres, Direitos Humanos e Refugiados do Instituto Baker de Políticas Públicas, nos EUA.
Isso inclui a chegada de agentes do ICE às principais cidades, a meta pessoal de Donald Trump de promover um milhão de deportações, um aumento acentuado do financiamento e do recrutamento de agentes, assim como registros de conduta violenta, e agora letal, da agência nas ruas.
“Muitas dessas práticas militarizadas já existiam na aplicação das leis de imigração”, aponta Norman à DW, “embora elas estivessem sendo exercidas na fronteira, onde não recebiam necessariamente o tipo de atenção pública que recebem agora”.
Para especialista, ações do ICE violam Constituição
As mortes de Reneé Good e Alex Pretti em Minneapolis atraíram a atenção global sobre as operações do ICE nas cidades americanas – Pretti foi baleado e morto por agentes da Patrulha da Fronteira durante um protesto contra o ICE. Para os americanos comuns, essas ações destacam outros riscos potenciais, não só o de uso de força letal contra cidadãos.
Walter Olson, pesquisador sênior do instituto Cato, um think tank libertário com sede nos EUA, diz haver evidências de que as ações do ICE infringem as proteções civis resguardadas pela Constituição dos EUA e sua Declaração de Direitos.
Ele aponta aparentes violações dos direitos de “busca e apreensão” previstos na Quarta Emenda à Constituição, nas ocasiões em que o ICE entrou em residências sem mandados de busca assinados por um juiz. Liberdades resguardadas tanto para cidadãos quanto para não cidadãos também foram violadas, segundo Olson.
“Vimos múltiplas aparentes violações dos direitos de busca e apreensão, incluindo arrombamentos de portas de residências”, afirma Olson.
Segundo ele, “em outros casos, mais numerosos, embora menos dramáticos, as regras constitucionais sobre quando a polícia pode parar alguém na rua” também foram violadas.
Segunda Emenda reinterpretada
Declarações feitas após a morte de Pretti por autoridades e apoiadores do governo Trump também chamaram atenção para a Segunda Emenda, que garante aos indivíduos o direito de portar armas.
Pretti possuía licença para porte de arma no estado de Minnesota e estava autorizado a portar uma arma ocultada. Nenhum dos vários vídeos de testemunhas oculares de sua morte parece mostrá-lo sacando uma arma de fogo, mas isso não impediu que figuras importantes do governo afirmassem que Pretti não deveria ter levado uma arma para um protesto.
Essa linha de raciocínio vem enfrentando resistência dentro do Partido Republicano e de outros movimentos conservadores, que apontam para as proteções constitucionais.
“A Segunda Emenda tem sido muito valorizada pelo lado conservador do espectro político americano por muitas décadas”, ressalta Olson.
“O governo Trump […] veio a público e disse coisas como ‘não se deve portar uma arma nas ruas da cidade’, ou ‘nunca se deve levar uma arma de fogo a uma manifestação’, mesmo que – citando a situação de Minnesota – seu estado permita, mesmo que você tenha uma licença para porte oculto, mesmo que você nunca use a arma, a saque ou a ostente.”
“Esta é uma mudança brusca de 180º em relação à posição conservadora anterior”, observa Olson.
Os cidadãos americanos podem agora estar levando em conta o que essas ações podem sinalizar para o futuro, ressalta o pesquisador.
“Para os americanos comuns, a questão que acho que eles precisam enfrentar é: se isso pode ser feito nesta campanha contra imigrantes, onde mais poderá ser feito quando essa campanha se voltar para pessoas consideradas subversivas ou ‘antiamericanas’?”
Ações sem precedentes em regimes democráticos
O mandato e o papel do ICE na aplicação das leis de imigração evoluíram e se transformaram ao longo das duas décadas de existência na agência, mas sua conduta no atual mandato de Trump é sem precedentes tanto nos EUA quanto em outras democracias, avalia Norman.
Os agentes estavam frequentemente fora da vista do público ao operar na fronteira durante os governos anteriores, incluindo no primeiro mandato de Trump. Isso mudou com seu deslocamento para cidades do norte do país, onde atuam mascarados em áreas densamente povoadas, sujeitos ao escrutínio público de qualquer cidadão munido de um celular com câmera.
Isso possibilitou maior atenção ao policiamento da imigração no segundo mandato do republicano e destacou algumas das táticas mais extremas de seus agentes.
“Normalmente observamos o tipo de táticas empregadas pelo ICE sendo realizadas pela polícia […] em países bastante autoritários”, observa Norman.
O uso da força, incluindo gás lacrimogêneo e spray de pimenta, contra transeuntes e ativistas também chamou a atenção de entidades policiais internacionais, incluindo a Associação Internacional de Chefes de Polícia.
A associação publicou uma declaração pedindo à Casa Branca que reúna autoridades policiais de todos os níveis para “apoiar a ação calma e legal e políticas baseadas em práticas comprovadas”.
Observadores já haviam expressado preocupação quanto a uma campanha de recrutamento em massa que pode fazer com que muitos agentes do ICE atuem com treinamento insuficiente.
Polícias locais sofrem as consequências
As tensões atuais podem mudar a visão do público sobre a qualidade e o profissionalismo de quase 18 mil agências policiais nos EUA, destaca Kathy O’Toole, sócia da 21CP Solutions, uma consultoria que surgiu de uma análise do policiamento nos EUA durante o governo do ex-presidente Barack Obama (2009-2017).
O’Toole, ela própria ex-chefe de polícia em Boston e Seattle, disse que as polícias locais provavelmente terão que lidar com as consequências das atuais controvérsias envolvendo o ICE.
“Em várias das principais cidades, há tanta tensão entre as forças policiais federais e locais que isso não beneficia ninguém”, afirma O’Toole à DW.
“Se houver uma tragédia em uma comunidade que seja causada pela polícia, as pessoas não necessariamente diferenciam entre a polícia federal, estadual ou local”, argumenta. “Se você observar o que está acontecendo em Minneapolis e em algumas dessas outras grandes cidades, com todas as manifestações, é a polícia local que acaba tendo que lidar com as consequências.”
