02/01/2026 - 11:57
Após décadas de pesquisa, um arqueólogo da Flórida, nos Estados Unidos, afirma ter esclarecido um dos enigmas geográficos mais intrigantes do Peru: a origem e a função da chamada Faixa de Buracos, localizada no Vale do Pisco, em uma região montanhosa do país.
Charles Stanish, professor de arqueologia da Universidade do Sul da Flórida e especialista em cultura andina, dedicou anos ao estudo das mais de 5,2 mil cavidades rasas escavadas nas encostas conhecidas pelos moradores como Monte Sierpe, a montanha da serpente.
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Desde a década de 1980, em sucessivas viagens de campo, ele passou a sustentar a hipótese de que as depressões foram abertas por populações pré-incas como um mercado rudimentar e, posteriormente, adaptadas pelos incas em um sistema mais elaborado de contabilidade e armazenamento, ligado à agricultura.
Ao longo dos anos, o local alimentou teorias diversas, que iam de interpretações técnicas a especulações extravagantes. Alguns pesquisadores sugeriram que os buracos formariam uma complexa rede de reservatórios de água. Outras versões mais extremas, divulgadas no programa de televisão “Alienígenas do Passado” e até exploradas por uma empresa de turismo, levantaram a possibilidade de uma origem extraterrestre, associada à suposta queda de uma nave espacial.
Agora, Stanish acredita ter encontrado evidências decisivas ao lado de Jacob Bongers, da Universidade de Sydney, ex-orientando de pós-graduação na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.
Na expedição mais recente, a equipe utilizou tecnologia avançada de drones para realizar o primeiro mapeamento aéreo completo da área, obtendo imagens de alta resolução que demonstraram “padrões impressionantes” na disposição dos buracos.
De acordo com os pesquisadores, as fileiras de cavidades, cada uma com largura entre 90 centímetros e dois metros, apresentavam segmentações e uma organização matemática que lembrava os quipos, sistemas de cordas com nós usados pelos incas para contagem e registro de informações.
“O Monte Sierpe é extremamente difícil de mapear a partir da superfície. Mesmo do alto da montanha, não é possível ver seu padrão completo devido à névoa permanente na área. E como havia poucos artefatos, os arqueólogos não conseguiram datá-lo ou interpretá-lo com precisão”, disse Stanish.
Segundo o arqueólogo, os indícios mais conclusivos vieram da análise microbotânica de sedimentos coletados no interior dos buracos. Sementes fossilizadas apontaram a presença de culturas como milho e plantas silvestres tradicionalmente usadas para tecer e embalar mercadorias.
“Provamos que as sementes não chegaram voando, não foram transportadas pelo ar, tiveram que ser colocadas lá por humanos”, afirmou. “Não encontramos nenhuma, com uma exceção bem lá embaixo, sementes da era colonial, e encontramos uma datada por carbono como sendo um pouco anterior aos Incas, o que foi fascinante.”
“E o mais legal foi que encontramos os juncos, os juncos tradicionais e os salgueiros que os povos Inca e Quechua usam para transportar mercadorias, até os dias de hoje. Então, conseguimos os juncos, conseguimos as sementes.”
Stanish explicou que as próximas etapas do trabalho envolvem novas análises das amostras de sementes já coletadas, enquanto Bongers pretende liderar uma futura expedição com escavações adicionais. Para o pesquisador, no entanto, a interpretação atual sobre a Faixa de Buracos está “bastante sólida”. “Se encontrarmos algo que altere a interpretação, diremos isso. Mas duvido”, disse.
Ele também afirmou esperar que as autoridades do Peru reconheçam o valor histórico do sítio e adotem medidas para sua preservação. “Estou preocupado com os latifundiários que se apropriam das terras e depois as irrigam. As pessoas precisam ganhar a vida, e eu admiro isso. Mas, sim, este é um local precioso para os povos indígenas e para o seu orgulho, e é importante reconhecer isso”.
