Em uma caminhada pelas ruas de poeira do vilarejo de Vannivelampatti, no sul da Índia, a história das revoluções do século 20 parece ganhar uma sobrevida inesperada. Ali, não é raro encontrar um “Fidel Castro” cuidando do gado ou um “Che Guevara” retornando do campo. Para os habitantes desta localidade no estado de Tamil Nadu, esses nomes não são apenas referências históricas distantes, mas símbolos de uma luta vivida na pele contra a opressão agrária e a segregação milenar do sistema de castas.

Resumo

  • Herança ideológica: moradores do sul da Índia batizam filhos como “Fidel Castro”, “Che Guevara”, “Marxina” e “Lenina” em sinal de orgulho político.

  • Gênese do movimento: o comunismo local nasceu após o massacre de 1968, no qual 44 agricultores em greve foram queimados vivos por latifundiários.

  • Foco social: diferentemente de regimes autoritários globais, o comunismo em Vannivelampatti foca na reforma agrária e na abolição do sistema de castas.

  • Identidade visual: a foice e o martelo estão presentes em tatuagens, fachadas e na identidade cultural de famílias que prometem manter a tradição.

A tradição de batizar os filhos com nomes de líderes revolucionários é o reflexo de uma identidade comunista que atravessa gerações. O fazendeiro Karl Marx, um dos moradores locais, explica a origem de sua graça com simplicidade: “Venho de uma família comunista. Meu pai admirava muito Karl Marx, então ele me deu o nome dele”. No entanto, a semente dessa ideologia não floresceu em Vannivelampatti por meio de livros teóricos, mas pelo trauma de uma tragédia que marcou a região em 1968.

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Naquele ano, 44 agricultores indianos foram queimados vivos por entrarem em greve para reivindicar melhores salários. O massacre, que chocou o país, serviu de catalisador para um homem chamado Vembuli. Testemunha da atrocidade, Vembuli decidiu organizar os moradores locais sob uma vertente do comunismo adaptada à realidade indiana. O objetivo era claro: utilizar os princípios de igualdade para desmantelar a estrutura de castas — o rígido sistema de hierarquia social indiano — e promover a reforma agrária.

Diferentemente da imagem de repressão e violência frequentemente associada a regimes comunistas autoritários na Europa e na Ásia, o comunismo de Vannivelampatti é descrito pelos seus habitantes como uma ferramenta de libertação social. Para eles, a ideologia foi o que permitiu que o sistema de castas deixasse de desempenhar um papel na estrutura do vilarejo, algo raro em muitas áreas rurais da Índia, onde a casta de uma pessoa ainda determina suas oportunidades de emprego, moradia e até o acesso à água potável.

O orgulho de pertencer a esse movimento é visível e permanente. Kattu Rani, uma moradora local, exibe com satisfação a foice e o martelo tatuados em sua mão. “Somos comunistas desde a época do meu pai. Continuarei comunista até meu último suspiro. E transmitirei esses princípios aos meus netos”, afirma ela, simbolizando a continuidade da linhagem ideológica.

Essa transmissão de valores alcança seu auge no ritual da nomeação. Naga Jothi, por exemplo, decidiu que suas filhas deveriam carregar o peso e a esperança da causa em seus documentos. As meninas foram batizadas como Marxina e Lenina, garantindo que as vozes da revolução continuem ecoando nas chamadas escolares e no cotidiano do vilarejo.

Vannivelampatti permanece como um enclave único. Em um mundo onde o comunismo clássico muitas vezes é visto como uma peça de museu ou um sistema de controle estatal, este vilarejo indiano o ressignificou como uma linguagem de dignidade humana. Ali, ser “Marx” ou “Lenina” é um lembrete constante de que a igualdade, antes de ser um governo, deve ser uma prática de vizinhança que ignora as barreiras do nascimento e celebra a coletividade do trabalho.