06/01/2026 - 17:57
Posição estratégica e minerais da região instaram Washington a tentar comprar ou anexar o território desde 1867. Trump justifica interessa por questão de “segurança nacional”.Após consolidar a captura de Nicolás Maduro e indicar que a pressão militar americana no hemisfério ocidental ainda não se encerrou, o presidente dos EUA, Donald Trump, retomou sua atenção à Groenlândia. A retórica pela anexação do território autônomo dinamarquês, no entanto, não é recente, e remonta a um interesse americano disparado há mais de um século.
A privilegiada posição da Groenlândia no Atlântico Norte levou os EUA a considerarem a compra ou anexação do território em diversas ocasiões, seja para consolidar o poder no hemisfério pós-Guerra Civil, seja para impedir o avanço russo na Guerra Fria.
O interesse dos EUA é novo?
O interesse dos EUA pela Groenlândia está longe de ser novo. Já em 1867 – o ano em que os EUA compraram o Alasca da Rússia –, políticos consideraram anexar a Groenlândia e também a Islândia. O país havia saído de uma guerra civil no ano anterior e se deixava levar por um espírito expansionista, tentando consolidar rotas marítimas estratégicas.
Em 1º de julho de 1868, quando a doutrina Monroe e o desejo de libertar o continente da influência europeia ganhava fôlego, jornais americanos noticiaram que o então secretário de Estado William Henry Seward estaria prestes a concluir a compra da Groenlândia por 5,5 milhões de dólares em ouro.
Havia um entendimento no governo americano de que a ilha aumentaria a influência naval dos EUA diante do crescente interesse europeu na região.
Um relatório encomendado por Seward, que também defendia a anexação do Canadá, indicava a grande quantidade de vida animal e “bens minerais” na Groenlândia. Entre eles, citava a criolita, um mineral usado na indústria do alumínio.
Contudo, a proposta da Casa Branca chegou aos ouvidos do Congresso americano, que prontamente rejeitou o uso de fundos para comprar novas terras. A ideia foi ridicularizada pelos parlamentares, que não viam grandes vantagens na aquisição do território tomado por gelo.
O acordo não se concretizou, mas a ideia permaneceu por décadas. No início da Segunda Guerra Mundial, em 1941, quando a Alemanha ocupou a Dinamarca, os EUA de fato avançaram sobre a Groenlândia para garantir a defesa do território. Foi nesse período que instalaram por lá bases e sistemas militares que perduram até hoje.
Documentos desclassificados desde a década de 1970 mostram que, em 1946, ao fim da guerra, os EUA chegaram a oferecer a compra da Groenlândia por 100 milhões de dólares, pagos em ouro, depois de flertar com a ideia de trocar terras ricas em petróleo no Alasca por partes estratégicas do território dinamarquês. A proposta não ganhou tração, e a Dinamarca retomou a administração do território.
No entanto, após tentativas dinamarquesas de persuadir os EUA a deixarem a Groenlândia de forma permanente, os dois países se tornaram membros da Otan e, em 1951, assinaram um tratado bilateral de defesa. Nele, Washington manteria suas bases e se comprometeria a defender a Groenlândia de qualquer ameaça.
Naquele ano, ficou autorizada a construção da Base Aérea de Thule. Hoje chamada Base Espacial de Pituffik, ela serve à vigilância espacial e é considerada um pilar central do sistema americano de alerta precoce para lançamentos de mísseis.
Ameaça soviética renova interesse
Já em 1955, durante a Guerra Fria, assessores de segurança tentaram convencer o então presidente dos EUA, Dwight D. Eisenhower, a comprar a ilha. Desta vez, a justificativa era que a Groenlândia ofereceria posição fundamental para construir um sistema de vigilância e monitorar movimentos da URSS.
“À luz da ameaça soviético-comunista à segurança do Mundo Livre e nesta era de distâncias cada vez menores e potenciais atômicos, a Groenlândia assumiu progressivamente uma importância estratégica cada vez maior para os Estados Unidos”, disse o governo americano em um documento desclassificado daquele ano.
Segundo a Casa Branca, “pela primeira vez, os Estados Unidos devem agora estar preparados para se defender contra um ataque surpresa de proporções possivelmente devastadoras no início da guerra e para retaliar de forma rápida e eficaz com todos os meios à sua disposição.”
Contudo, com o tratado de defesa de 1951, a Dinamarca já havia concedido aos EUA uma margem de atuação tão ampla que o gabinete considerou arriscado demais, do ponto de vista diplomático, avançar com tais iniciativas. Também havia um temor de que a ação alimentasse narrativas soviéticas contrárias ao imperialismo americano.
O acordo já dava amplos poderes a Washington para manter sua atuação militar na Groenlândia, diante da baixa capacidade dinamarquesa de defender o território em caso de ataque.
A ideia não foi enterrada, mas passou a ser discutida principalmente nos bastidores e monitorada pelo Pentágono. Em 2008, a exploração comercial das reservas minerais da ilha também aguçou o interesse de Rússia e Canadá. Foi Donald Trump quem a trouxe novamente aos holofotes durante seu primeiro mandato (2017–2021).
Em agosto de 2019, uma visita de Estado planejada à Dinamarca foi cancelada de última hora por Trump depois que a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen,classificou como “absurda” a ideia de vender a Groenlândia aos EUA.
O republicano retomou a proposta de forma mais incisiva no segundo mandato, desta vez indicando até mesmo interesse por uma anexação forçada do território. Em seu discurso mais recente, enunciado após a ação militar que capturou Nicolás Maduro na Venezuela, disse que Washington precisa da Groenlândia por razões de “segurança nacional”.
A proposta foi novamente rechaçada por líderes europeus. “Deixei muito claro qual é a posição do Reino da Dinamarca, e a Groenlândia afirmou repetidamente que não deseja se tornar parte dos Estados Unidos”, disse Mette Frederiksen, nesta segunda-feira. “Infelizmente, temo que seja preciso levar o presidente americano a sério quando ele diz que quer a Groenlândia.”
De onde vem a reivindicação da Dinamarca sobre a Groenlândia?
A Groenlândia, então habitada pelos povos inuit, foi primeiro colonizada pelos europeus em 1721, quando a então Dinamarca-Noruega enviou sua primeira expedição missionária.
O período colonial na ilha terminou em 1953, quando a Groenlândia se tornou parte oficial do Reino da Dinamarca, com representação no Parlamento dinamarquês. Já em 1979, Copenhague concedeu ao território a capacidade de autogestão, e uma lei de 2009 fortaleceu a autonomia. O chamado Self‑Government Act ampliou os poderes do governo groenlandês e seu controle sobre recursos naturais.
A soberania da Dinamarca sobre a Groenlândia é reconhecida internacionalmente, inclusive por uma decisão do Tribunal Internacional Permanente de Justiça, principal órgão judicial da ONU, de 1933. Mas do ponto de vista econômico, a ilha é fortemente dependente da Dinamarca.
No entanto, de acordo com os princípios do direito internacional das Nações Unidas, a Groenlândia tem o direito à autodeterminação. A lei de autonomia de 2009 também inclui o direito dos groenlandeses de decidirem, por meio de um referendo, sobre sua independência plena. As discussões a esse respeito ganharam maior intensidade nos últimos anos.
Hoje, a Groenlândia pertence à Dinamarca politicmaente, mas apenas sua política externa e de segurança continua sendo definida em Copenhague.
Diante das declarações recentes dos EUA, o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, reafirmou que o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados é “inegociável”.
Por que Groenlândia voltou aos holofotes?
Ocupando cerca de metade do tamanho somado dos países da União Europeia (UE), a Groenlândia é a maior ilha do mundo. Em seus pouco mais de 2 milhões de quilômetros quadrados vivem, porém, apenas cerca de 60 mil pessoas. A maioria pertence aos inuit Kalaallit e vive em pequenas cidades costeiras. Cerca de um terço habita a capital, Nuuk.
A ilha se estende do Atlântico Norte até o gelo eterno do Oceano Ártico. Oitenta por cento da superfície da Groenlândia é coberta por uma camada de gelo. Apenas as regiões costeiras – ainda assim uma área um pouco maior que a Alemanha – ficam livres de gelo durante o verão.
O aquecimento global, no entanto, faz com queas massas de gelo em todo o Oceano Ártico encolham gradualmente. Isso torna o interior da Groenlândia mais acessível, o que abre novas rotas marítimas pelo Ártico e torna mais viável a
exploração de matérias-primas críticas.
Entre elas, estão urânio, petróleo e gás natural, além das duas maiores jazidas conhecidas de terras raras do mundo. Somam-se a isso níquel, cobre, ouro e grafite. A extração destes materiais foi interrompida pelo governo groenlandês por razões ambientais.
Trump rejeita que seu interesse seja nos minerais da região. Segundo ele, Washington vê a ilha como um posto avançado estratégico no espaço ártico, especialmente diante das atividades crescentes da Rússia e da China na região. Isso também envolve limitar o acesso de outras grandes potências aos recursos do Ártico e ao seu controle sobre novas rotas marítimas.
Colaborou Gustavo Queiroz
