23/07/2026 - 12:44
Um novo estudo publicado no jornal científico Proceedings of the National Academy of Sciences revelou que a intuição geométrica é mais instintiva do que se pensava. A pesquisa demonstrou que primatas não humanos, crianças e adultos processam formas de maneiras surpreendentemente semelhantes, indicando raízes comuns para distinguir figuras regulares, como ângulos retos e linhas paralelas, de irregulares.
O que aconteceu
- A intuição geométrica para distinguir formas regulares e irregulares é compartilhada por primatas não humanos, crianças e adultos, sendo mais instintiva do que se imaginava.
- Macacos rhesus e babuínos-oliva participaram de um jogo de combinação em telas sensíveis ao toque, demonstrando capacidade de reconhecimento de semelhanças geométricas.
- Experimentos posteriores com crianças e adultos, incluindo de comunidades indígenas, confirmaram que essa capacidade de percepção geométrica é comum em todos os grupos estudados, independentemente de cultura ou educação formal.
Considerados criaturas inteligentes devido à sua capacidade de usar ferramentas, lembrar rostos e até mesmo se comunicar com humanos, os primatas não humanos ainda tinham certas capacidades cognitivas subestimadas. Conceitos como a geometria eram tradicionalmente vistos como algo além de suas habilidades, com a ciência acreditando que eles não possuíam uma intuição geométrica inata.
O experimento com primatas
Para desafiar essa teoria, pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon, na Pensilvânia, Estados Unidos, conduziram um experimento inovador. Eles ofereceram petiscos de frutas a quatro macacos rhesus (Macaca mulatta) e quatro babuínos-oliva (Papio anubis) em troca de sua participação em um jogo de combinação.
O jogo, realizado em uma tela sensível ao toque, envolvia formas geométricas bidimensionais. Os primatas precisavam identificar a combinação correta de formas baseando-se unicamente na semelhança geométrica entre elas.
“Pareciam fáceis de combinar, mas não eram. Os objetos não tinham características distintivas, nem diferenças significativas de cor, tamanho ou forma”, explicou Jessica Cantlon, neurocientista da Universidade Carnegie Mellon e uma das autoras do estudo.
Como crianças e adultos confirmam a teoria?
Na etapa seguinte da pesquisa, o mesmo experimento foi replicado com 58 crianças em idade pré-escolar e 79 adultos. Estes participantes incluíram pessoas dos EUA e membros de comunidades indígenas tsimane na Bolívia, permitindo uma comparação entre indivíduos de diferentes contextos culturais e sistemas educacionais.
A análise dos resultados revelou uma notável continuidade e semelhança na forma como todos os grupos – as duas espécies de macacos, as crianças e os adultos – concebiam a geometria básica. Isso demonstrou um padrão universal de percepção geométrica.
“Macacos, crianças e adultos pareciam pensar sobre relações geométricas essencialmente da mesma maneira. Isso sugere que essas intuições sobre geometria fazem parte da arquitetura básica da mente dos primatas”, enfatizou Cantlon.
A pesquisadora acrescentou que essa descoberta implica que a educação pode aproveitar essas intuições profundas e evolutivamente antigas sobre forma e espaço. Dessa forma, a geometria não precisaria ser ensinada do zero, mas sim construída sobre bases cognitivas já existentes.
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O Portal dos Primatas e a mente animal
Este estudo é mais uma contribuição do laboratório de Jessica Cantlon em colaboração com o inovador Portal dos Primatas. Localizado no Zoológico de Seneca Park, em Nova York, o projeto é uma parceria entre cientistas da Universidade Carnegie Mellon e do Instituto de Tecnologia de Rochester.
O objetivo do Portal dos Primatas é investigar as origens e a natureza do pensamento. Ele permite que babuínos-oliva em cativeiro interajam com telas sensíveis ao toque, realizando problemas cognitivos enquanto mantêm suas atividades diárias normais.
Além de suas pesquisas, o Portal dos Primatas oferece acesso aberto a dados, códigos e vídeos dos primatas resolvendo problemas. Essa iniciativa visa capacitar estudantes de todo o mundo a aprofundar a análise da mente animal e seus complexos processos cognitivos.
