24/07/2026 - 15:42
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu nesta terça-feira, 21 de julho, um possível ataque militar a um complexo subterrâneo próximo à instalação nuclear de Natanz, no Irã. O local, conhecido como Kūh-e Kolang Gaz Lā ou popularmente como “Montanha Pickaxe”, é alvo de suspeitas de abrigar centrífugas de urânio e permanece sem acesso para inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
As declarações de Trump, que ocorreram a jornalistas, geraram uma rápida resposta de Teerã, intensificando a tensão em torno do programa nuclear iraniano. As informações sobre o complexo são escassas, baseadas principalmente em imagens de satélite e avaliações de inteligência.
O que aconteceu
- Um complexo subterrâneo ligado ao programa nuclear iraniano em Natanz é alvo de especulações após declarações de Donald Trump sobre um possível ataque.
- Conhecido como “Montanha Pickaxe”, o local é cercado por sigilo, sem acesso para a AIEA, e suspeita-se que abrigue centrífugas de urânio.
- O Irã reagiu afirmando que poderá expandir o conflito caso os Estados Unidos ataquem suas instalações nucleares.
“Provavelmente atacaremos aquela área muito em breve. E não há nada que eles possam fazer a respeito”, declarou Trump na terça-feira, 21 de julho. O Irã reagiu afirmando que poderá “expandir” o conflito caso os Estados Unidos ataquem suas instalações nucleares.
Apesar de ser citado com frequência em relatórios dos últimos anos, a função exata da Montanha Pickaxe continua desconhecida, o que o transformou em um dos locais mais monitorados do programa nuclear iraniano.
A “montanha pickaxe”: um segredo iraniano
Conhecido em persa como Kūh-e Kolang Gaz Lā, ou “Montanha Pickaxe” (Picareta, em português), o complexo permanece cercado por incertezas. Teerã divulgou poucas informações sobre a instalação, e inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) jamais receberam autorização para visitá-la. Por isso, grande parte do que se sabe sobre o local resulta de imagens de satelite e avaliações de inteligência, não de observação direta.
O que se sabe sobre a Montanha Pickaxe
O complexo fica na província de Isfahan, ao sul de Teerã, escavado em uma montanha localizada a cerca de dois quilômetros da usina de enriquecimento de urânio de Natanz. O local, uma das principais instalações nucleares do Irã, foi bombardeado pelos EUA em 2025.
Imagens de satélite divulgadas por empresas como a Maxar Technologies mostram obras em andamento desde 2020. Os registros revelam novas entradas de túneis, estradas de acesso, estruturas de segurança e grandes volumes de rocha removida. A construção parece ter se intensificado após a explosão que atingiu, em julho de 2020, uma oficina de montagem de centrífugas avançadas em Natanz. As autoridades iranianas classificaram o episódio como um ato de sabotagem.
Meses depois, o governo anunciou planos para construir uma nova instalação subterrânea destinada à montagem de centrífugas avançadas. Segundo Teerã, o novo complexo seria maior, mais moderno e mais protegido que o danificado.
O Institute for Science and International Security, sediado em Washington, estima que partes da instalação estejam entre 80 e 100 metros abaixo da superfície da montanha. Caso essa avaliação esteja correta, o bunker seria mais profundo que muitas das demais instalações nucleares conhecidas do Irã e significativamente mais resistente a ataques aéreos.
O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, afirmou repetidamente que os inspetores da agência nunca tiveram acesso ao local. Sem inspeções, a entidade não pode verificar a existência de material nuclear, centrífugas ou outros equipamentos sensíveis no interior da instalação.
Relatos sobre transferência de centrífugas
Segundo o jornal americano Wall Street Journal, a inteligência israelense avaliou que o Irã poderia ter transferido milhares de componentes de centrífugas para enriquecimento de urânio ou outros equipamentos sensíveis para o complexo. De acordo com a reportagem, a movimentação teria ocorrido nos meses seguintes à campanha conjunta de bombardeios conduzida por Estados Unidos e Israel em junho de 2025.
Questionado, Trump afirmou que o Irã “pode ter” levado centrífugas para a Montanha Pickaxe, mas acrescentou que não há confirmação dessa hipótese. Analistas também consideram a possibilidade de o complexo servir futuramente para a produção ou montagem de centrífugas avançadas, caso o Irã decida recuperar ou ampliar essa capacidade.
O governo iraniano sustenta que instalações subterrâneas são necessárias para proteger sua infraestrutura nuclear contra atos de sabotagem e ataques militares. Teerã afirma que seu programa nuclear tem finalidade exclusivamente pacífica e nega buscar o desenvolvimento de armas nucleares.
Ainda assim, inspetores internacionais e relatórios de inteligência indicam que o país possui cerca de 440 quilos de urânio enriquecido com pureza de até 60%, patamar muito superior ao necessário para uso civil e próximo dos 90% geralmente associados à produção de armas nucleares.
Resistência da estrutura a bombas
Para Farzin Nadimi, pesquisador sênior do Washington Institute for Near East Policy, a relevância estratégica da Montanha Pickaxe está em sua resistência a bombas de penetração profunda e em sua proximidade com o complexo nuclear de Natanz. Segundo ele, os danos relatados com este tipo de armamento em Fordo e em partes das instalações de Natanz e Isfahan após os bombardeios de junho de 2025 aumentaram ainda mais a importância do local.
“Dadas as preocupações de segurança do Irã, é razoável esperar que futuras atividades de enriquecimento de urânio e até mesmo programas relacionados a armamentos sejam concentrados em um único local fortemente protegido”, afirmou Nadimi. “A Montanha Pickaxe é a candidata mais lógica para esse papel.”
As chamadas bombas destruidoras de bunkers são projetadas para penetrar o solo antes da detonação. No entanto, mesmo os modelos mais potentes possuem limitações quanto à profundidade que conseguem atingir. Por isso, especialistas divergem sobre a capacidade dessas armas de destruir um complexo enterrado tão profundamente. O traçado exato dos túneis, sua profundidade e a localização da infraestrutura crítica nunca foram divulgados publicamente.
É possível inutilizar a instalação?
Diferentemente de Natanz ou Fordo, onde estruturas importantes foram identificadas ao longo dos anos, é difícil avaliar o impacto potencial de um ataque contra uma instalação construída dentro de uma montanha.
Alguns especialistas argumentam que, em uma eventual operação militar, o objetivo não precisaria ser a destruição completa do complexo. Uma alternativa seria bloquear acessos, danificar entradas de túneis e comprometer a infraestrutura de apoio, tornando o local difícil ou impossível de operar.
Ainda não está claro se a Montanha Pickaxe será utilizada como centro de produção de centrífugas, instalação de enriquecimento de urânio ou apenas como um complexo de apoio altamente protegido. O que se sabe é que o sigilo em torno do empreendimento, sua localização estratégica e sua escala aparente o transformaram em uma das áreas mais observadas do programa nuclear iraniano, que deve continuar sob intenso escrutínio internacional nos próximos anos.
