31/08/2025 - 12:57
Imagens mostram manifestante irlandesa pró-palestinos sendo agredida no rosto por um policial durante manifestação na capital alemã contra guerra em Gaza. Premiê da Irlanda chama violência de “inaceitável”.Um vídeo que mostra uma mulher sendo brutalmente agredida pela polícia alemã durante um protesto em Berlim nesta semana provocou atrito diplomático entre a Irlanda e a Alemanha. As imagens mostram uma ativista irlandesa chamada Kitty O’Brien, que participava de um protesto pró-palestinos na capital alemã, levando dois socos diretos no rosto e sendo imobilizada com o rosto ensanguentado antes de ser detida.
Mais tarde, no mesmo vídeo, O’Brien aparece gritando desafiadoramente para os policiais: “Vocês não nos assustam! Isso está na conta de vocês. Há sangue nas suas mãos”.
O protesto e subsequente repressão policial ocorreram na quinta-feira (28/08) e as imagens viralizaram nos dias seguintes, levando a embaixadora da Irlanda na Alemanha, Maeve Collins, assim como altos funcionários do Departamento de Relações Exteriores da Irlanda, a contatarem as autoridades alemãs para expressar preocupação.
Um porta-voz do departamento Irlandês, citado pela emissora nacional irlandesa RTE, disse que o governo do país “está pronto para oferecer assistência consular à cidadã envolvida”.
O grupo Irish Bloc Berlin — que se define como uma “comunidade de ativistas” comprometida com a “libertação da Palestina” e a resistência contra o que chamam de “silenciamento sistemático e racializado das vozes pró-Palestina na Alemanha” — afirmou que O’Brien, integrante do grupo, precisou passar por cirurgia devido a uma fratura grave no braço direito, alegando que ela “foi puxado e torcido com grande força, quebrando o osso”.
A polícia de Berlim declarou ter encaminhado o caso às autoridades de supervisão para determinar se os agentes agiram de forma desproporcional ou criminosa.
O’Brien deve permanecer hospitalizada por alguns dias.
Segundo a polícia, prisões foram efetuadas após diversas advertências diretas para que os manifestantes encerrassem o ato e se dispersassem, ordens que teriam sido ignoradas e respondidas com agitação e comportamentos ilegais.
A corporação afirmou que “os agentes foram obrigados” a usar a força, acrescentando que O’Brien foi advertida várias vezes de que enfrentaria uma resposta física caso continuasse a desobedecer.
De acordo com os policiais, O’Brien “se recusou a cumprir ordens e insultou verbalmente e agrediu fisicamente vários agentes”, alegando ainda que ela chamou os policiais de “apoiadores de genocídio” e “nazistas de m….”.
Outros vídeos publicados online mostram uma longa interação verbal e física entre O’Brien e os policiais antes da agressão.
A manifestação de quinta-feira, definida como um ato de “desobediência civil”, foi considerada ilegal pelas autoridades por não ter sido registrada previamente junto à polícia.
Segundo a corporação, cerca de 94 pessoas foram detidas na quinta-feira. Todas foram liberadas após a verificação de identidade.
As autoridades informaram que foram abertas 96 investigações criminais em decorrência do protesto.
Outras reações ao tratamento de O’Brien
A ação da polícia berlinense contra Kitty O’Brien gerou protestos diante da Embaixada da Alemanha em Dublin, onde algumas dezenas de pessoas manifestaram indignação.
A tia de O’Brien, que é vereadora da Câmara Municipal de Dublin, estava entre os manifestantes e declarou: “O que vemos aqui é um grupo de jovens irlandeses defendendo o direito internacional e o povo de Gaza e da Palestina, algo que, na prática, está sendo criminalizado em Berlim neste momento”.
O primeiro-ministro Micheál Martin classificou o incidente como “inaceitável”, afirmando também estar “profundamente preocupado”.
Nos últimos dois anos, desde a eclosão da guerra em Gaza, a Alemanha e a Irlanda têm seguido caminhos opostos em relação ao conflito.
A Alemanha permanece como um dos principais aliados de Israel, bloqueando sanções em nível europeu e salientando que considera a segurança israelense uma “razão de estado” alemã. Já a Irlanda tem sido um dos países mais vocais na condenação da conduta israelense no conflito. A Irlanda também aderiu em dezembro de 2024 à ação que acusa israel de genocídio na Corte Internacional de Justiça (CIJ), e foi retaliada pelos israelenses com o fechamento permanente de sua embaixada em Dublin.
Polícia alemã já havia sido alvo de críticas por violência contra manifestantes
A polícia de Berlim já havia sido alvo de críticas anteriormente pela forma como lida com manifestações pró-Palestina e contra a conduta de Israel na guerra em Gaza.
Em junho, o comissário de Direitos Humanos do Conselho da Europa, Michael O’Flaherty, chegou a expressar preocupação sobre como autoridades alemãs lidam com os protestos contra a guerra na Faixa de Gaza.
Em uma carta enviada ao ministro do Interior da Alemanha, Alexander Dobrindt, em 6 de junho, O’Flaherty criticou o que chamou de restrições à liberdade de expressão e reunião durante os protestos e lembrou de relatos sobre o uso excessivo da força pela polícia contra os manifestantes.
“O uso da força por policiais, inclusive durante protestos, deve obedecer aos princípios de não discriminação, legalidade, necessidade e proporcionalidade, e precaução”, escreveu o comissário no documento. “Manifestantes teriam sido submetidos a vigilância intrusiva, online ou presencial, e a verificações policiais arbitrárias”, acrescenta.
Ele disse ainda que tinha informações de que as autoridades de Berlim vêm restringindo o uso da língua árabe e de símbolos culturais nos protestos desde fevereiro de 2025, assim como eventos e outras formas de expressão relacionadas ao tema.
O Conselho da Europa, fundado em 1949, é uma organização internacional de direitos humanos com sede em Estrasburgo que atua na defesa da democracia e do Estado de Direito.
jps (DW, ots)