05/02/2026 - 18:56
Promotores apuram participação de suspeito em viagens organizadas para atirar contra civis durante o cerco à cidade, na Guerra da Bósnia. Jornalista que denunciou o caso acredita que mais pessoas serão investigadas.Promotores de Milão investigam um idoso italiano de 80 anos suspeito de participar de viagens organizadas para atirar contra civis sitiados em Sarajevo durante a Guerra da Bósnia (1992-1996).
Em novembro do ano passado, o Ministério Público da Itália abriu investigações com base em relatos de que cidadãos italianos teriam pago para viajar a Sarajevo e atirar contra civis “por diversão” durante o cerco à cidade.
O suspeito é um caminhoneiro aposentado da província de Pordenone, no norte da Itália, segundo a imprensa local. O homem, que não teve o nome divulgado, enfrenta acusações de vários crimes de homicídio premeditado agravado por motivo torpe, afirmam os relatos.
Não foi esclarecido se ele é suspeito de ter participado diretamente dos assassinatos ou de ter auxiliado no transporte e na logística para os “turistas”. O idoso permanece em liberdade.
Atirar contra civis “por esporte”
O jornalista que revelou os supostos eventos, Ezio Gavazzeni, disse que o procurador Alessandro Gobbis identificou o suspeito e o intimou a depor na próxima segunda-feira, esclarecendo que isso não implica necessariamente em culpa.
A Procuradoria de Milão, chefiada por Marcello Viola, iniciou as investigações após Gavazzeni levantar questionamentos sobre supostas viagens de italianos para atirar em homens, mulheres e crianças sitiados em Sarajevo entre 1992 e 1995.
A tese do jornalista é que, durante o cerco que aprisionou milhares de civis por quase quatro anos sob o fogo da artilharia sérvia da Bósnia, alguns italianos e pessoas de outros países se juntaram aos sitiantes para atirar por mero esporte, se posicionando como atiradores de elite, ou snipers, nas colinas ao redor de Sarajevo. Uma das principais ruas da cidade, onde os ataques eram frequentes, foi apelidada de “beco dos atiradores”.
Segundo o inquérito, os “turistas” teriam pago valores entre 80 mil e 100 mil euros (R$ 496 mil e R$ 621 mil) para milícias locais para poder atirar em civis.
Cerco a Sarajevo deixou mais de 11 mil mortos
Gavazzeni disse que começou a investigar as alegações após assistir ao documentário de 2022 “Sarajevo Safari”, do diretor esloveno Miran Zupanic.
O jornalista afirma que suspeitos italianos costumavam se encontrar na cidade de Trieste antes de viajar para Belgrado, onde soldados sérvios da Bósnia os escoltavam até colinas com vista para Sarajevo.
Parte crucial da Guerra da Bósnia , o cerco de Sarajevo deixou 11,5 mil mortos e 60 mil feridos e ficou marcado pelos constantes ataques de snipers a civis. Atiradores de longa distância se posicionavam nos montes que cercam a cidade e disparavam de forma aleatória contra a população sitiada.
A promotoria apura se entre estes snipers estavam também supostos fanáticos por armas e pessoas envolvidas em círculos da extrema direita italiana.
O início da investigação italiana no ano passado aumentou as esperanças dos sobreviventes de que os responsáveis fossem levados à Justiça.
Gavazzeni, que lançará um livro sobre suas investigações em 15 de março, previu a revelação de novos suspeitos no futuro. “Sei que muitas pessoas não estão dormindo bem à noite”, afirmou.
Presidente da Sérvia acusado de envolvimento
O jornalista croata Domagoj Margetic apresentou uma denúncia à procuradoria de Milão contra o atual presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, alegando que ele teria atuado como voluntário ao lado de forças sérvias baseadas no antigo cemitério judeu da capital bósnia, de onde atiradores de longa distância alvejavam de forma aleatória os civis sitiados.
Vučić teria integrado o Novo Destacamento Chetnik de Sarajevo, liderado pelo comandante Slavko Aleksic.
Em carta aos procuradores de Milão, Margetic afirma ter reunido depoimentos de autoridades bósnias e um vídeo de 1993 que supostamente mostraria Vučić ao lado de homens armados portando um rifle de precisão. Ele tinha 23 anos na época.
O jornalista alega que o atual presidente da Sérvia esteve estacionado em uma das linhas de frente do cerco a Sarajevo e teria “facilitado” a circulação de cidadãos endinheirados que se uniam à milícia sérvia “por diversão”, atuando como tradutor.
rc (Reuters, EFE)
