Há 70 anos, em 1956, o Brasil vivia um “Big Bang” de identidade. Não que o país tenha sido inventado do zero, mas as linhas mestras do que o mundo entende por “Brasil moderno” foram traçadas naquele momento. Após décadas marcadas pela era Vargas e instabilidades institucionais, o país parecia, finalmente, ter alcançado uma maturidade arrojada. Sob o comando de Juscelino Kubitschek e seu vice, João Goulart, o slogan “Cinquenta anos em cinco” tornou-se o mantra de uma nação que queria deixar para trás o seu passado arcaico e agrário para se tornar uma potência urbana e industrial.

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A efervescência de um Brasil arrojado

O ano de 1956 não foi apenas um marco político; foi um fenômeno cultural. Enquanto JK assinava as metas de desenvolvimento, as bases da bossa nova e do cinema novo eram lançadas, criando uma estética de sofisticação e crítica social que ganharia o mundo. “Essa imagem foi catapultada pelo projeto de Brasília. É a transformação mais visível: um projeto arquitetônico avançadíssimo que simbolizava um país voltado para o futuro”, destaca a historiadora e cientista política Isabel Lustosa.

A chegada de gigantes como Volkswagen, Toyota e Mercedes-Benz marcou o nascimento do parque industrial brasileiro. Pela primeira vez, o American Way of Life entrava nas casas da classe média ascendente na forma de geladeiras, enceradeiras e liquidificadores. O Brasil deixava de ser o país “sem luz e sem estradas” para se impor no cenário internacional como uma democracia vibrante que, naquele momento, respeitava a liberdade de imprensa e os interesses privados.

O custo do progresso: a bomba-relógio econômica

Entretanto, o brilho do concreto de Oscar Niemeyer escondia fissuras profundas na economia. O projeto desenvolvimentista de JK foi financiado por um endividamento massivo e pela emissão de moeda, gerando uma inflação que começou a corroer o poder de compra da população.

O legado econômico de JK

Indicador Econômico1955/19561959/1960
Dívida Externa PúblicaUS$ 87 milhõesUS$ 297 milhões
Inflação Anual19,2%30,9%

As obras faraônicas, como a construção de Brasília e a Rodovia Régis Bittencourt, custaram caro aos cofres públicos. Segundo a jornalista Marleine Cohen, biógrafa de JK, o presidente foi brilhante ao investir no “objeto” Brasil, mas pecou ao esquecer o “sujeito” brasileiro. Enquanto as fábricas produziam carros, o poder de consumo da maioria permanecia baixo e a desigualdade social continuava a ser o abismo que o asfalto das novas estradas não conseguia cobrir.

Heranças malditas e o golpe de 1964

A herança de JK virou uma “bomba-relógio” nas mãos de seus sucessores, Jânio Quadros e João Goulart. A instabilidade econômica gerada pelo plano de metas, somada às tensões políticas da Guerra Fria, culminou no golpe militar de 1964.

Aqui reside uma das ironias mais trágicas da história brasileira: o movimento golpista foi impulsionado por militares que haviam sido anistiados por Juscelino anos antes, após tentativas frustradas de levante. JK acreditava que a conciliação e o progresso técnico seriam suficientes para blindar a democracia, mas a erosão das normas institucionais e o descontentamento social provaram o contrário.

O que resta de JK 70 anos depois?

Setenta anos após o início daquela epopeia, o Brasil é, de fato, um país diversificado e um grande exportador global. A infraestrutura lançada por JK permitiu que o país se integrasse, mas a promessa de uma modernidade plena esbarra nos mesmos gargalos de 1956: a desigualdade estrutural. JK nos deixou a imagem de um Brasil que pode ser grande, mas também o alerta de que o crescimento econômico sem justiça social é um castelo de areia — ou, neste caso, de concreto candango.