Belmonte, cartão-postal da bela paisagem montanhosa do leste de Portugal, na região da Beira, é um amável povoado que há pouco despertou de um longo pesadelo. Durante centenas de anos, o vilarejo, fundado por romanos, foi habitado por pessoas de todo tipo, até a Inquisição católica, no século 15, deflagrar perseguição implacável a hereges e não cristãos. Milhares de judeus e muçulmanos sobreviveram convertendo-se ao cristianismo e virando “marranos” (ou cristãos-novos). Mas também houve aqueles que, durante séculos, rejeitaram a fé publicamente e conservaram-na em privado, tornando-se “criptojudeus”, mantendo vidas paralelas e clandestinas, escondidos em seus bairros. Em Belmonte, há poucas décadas a comunidade saiu às ruas com sua identidade real, para desfrutar de uma vida ecumênica como portugueses modernos.

Essas são memórias pesadas – cicatrizes da destruição de uma ecologia humana que não podem ser removidas nem com o passar dos séculos. Os criptojudeus sabem que o sofrimento vivido por gerações, sob medo constante, gera inúmeros problemas, sequelas e conflitos. Os historiadores que tentam recuperar esse capítulo da história ibérica se perguntam: “Como é possível?” E as vítimas respondem: “Cada um sofria à sua maneira. Trabalhávamos juntos, cristãos e judeus, para sobreviver.”

Logo após a queda da longa ditadura do Estado Novo português (1933- 1974), as reformas democráticas mudaram, de repente, a vida do país. O decreto de Escolarização Geral, de 1976, abriu as portas para o mundo. Filhos de criptojudeus analfabetos entraram na escola comum pela primeira vez. Hoje, a nova geração de judeus compartilha, em casa, o presente e o passado medieval, o que torna a convivência por vezes frustrante. Não raro, pais e filhos se sentem desorientados.

Em uma viagem a Belmonte no início dos anos 1990, perguntei na farmácia se havia um rabino instalado no povoado. O jovem farmacêutico, Albino, um católico tradicional, sacudiu negativamente a cabeça. “Não, os sefardis (os judeus da Península Ibérica) não gostam de falar com estranhos. Falam só com a gente. São algumas centenas, mas convivemos bem. Quando precisam de um rabino, viajam para Lisboa ou para Israel. Mas eu não sei muito sobre isso.

Albino prosseguiu. “Eles moram aqui, em segredo, há centenas de anos. No entanto, por medo, não abrem suas portas para outros que não os familiares, embora compartilhemos tudo, até o cemitério. Os cristãos ficam à esquerda, os judeus, à direita. É igual no povoado. Eles em seu bairro, nós no nosso. Os sefardis não têm santuário. Eles celebram em segredo suas devoções em casa. Em épocas sombrias, cruzaram a fronteira espanhola, e voltaram quando não havia mouros na costa. Há tempos montaram uma indústria têxtil justamente onde termina o povoado. Isso abriu uma boa rota ibérica de comércio. Usufruíamos dos frutos juntos.”

O bairro judeu de Belmonte. As casas mais antigas são do século 13.

O farmacêutico fez um gesto na direção de uma rua estreita. “Ali, veja, vive um deles, nas antigas casas romanas de pedra. Uma boa pessoa, mas não o conhecemos muito.” Com passos largos, um homem alto, vestido de preto, passou, com o olhar fixo na calçada. A marginalização evidente ressuscita na memória as lembranças de imagens da Europa na Segunda Guerra Mundial – homens, mulheres e crianças judias enfileirados compulsoriamente para tomar o último trem de suas vidas rumo a campos de extermínio nazistas.

Desde o século 15 até o 19, os judeus ibéricos não tinham direitos civis nem permissão para praticar sua fé. Igualmente difícil foi a vida dos marranos. Muitos perderam seus círculos familiares, culturais e de amizade. Poucos deles sabiam simular a fé cristã sob o controle constante dos jesuítas. Como pôde um grupo tão reduzido resistir durante tantos anos? É impossível encontrar a resposta completa. Por centenas de anos, poucos belmontenses sabiam ler e escrever. Não há documentos objetivos. A verdade foi pouco a pouco sendo enterrada com as vítimas.

Os sefardis que se instalaram em Belmonte antes da “Reconquista” cristã eram artesãos e comerciantes. Sua presença na península está documentada já pelos romanos, oriunda da diáspora judaica após a destruição de Jerusalém, no ano 70. Junto com os árabes, os judeus contribuíram para a constituição de Portugal. Capitais judeus participaram do financiamento dos descobrimentos marítimos do Novo Mundo. Um cristão filho de Belmonte, Pedro Álvares Cabral, tornou-se famoso por sua travessia do Atlântico e pela descoberta do Brasil.

Os sefardis (ou sefardins) também emprestaram dinheiro para vários líderes de conflitos bélicos, sem tomar partido de um ou de outro rei. A eles interessava mais sobreviver. Seus conhecimentos de línguas – hebraico, árabe, latim e espanhol – foram inestimáveis em todas as negociações comerciais e políticas das casas reais. Os principais assentamentos dos sefarditas portugueses no século 15 eram Santarém, Guarda, Porto, Faro, Estremoz, Setúbal e Lisboa. Habitavam também Évora, Beja, Portalegre e Elvas. Na região da Beira, tinham comunidades em Belmonte e Covilhã. Estima-se que cerca de 44 mil foram processados pela Inquisição em um período de 200 anos. Milhares fugiram para o Novo Mundo.

No século 15, os judeus representavam cerca de 30% da população de Portugal. No século 21, são só alguns milhares. Os reis espanhóis Fernando e Isabel, católicos fervorosos, promoveram a Reconquista da península e construíram laços familiares com Portugal. Em 1492, os judeus foram expulsos pelo decreto de Alhambra. A princesa Isabel de Aragão e Castela foi forçada a casar-se com Afonso, o príncipe do trono português, que morreu com 16 anos. Seu sucessor, D. Manuel I, o Venturoso, casou-se com a viúva.

Culto secreto

Criptojudeu é a designação de quem segue secretamente o judaísmo enquanto afirma publicamente seguir outra religião, forçado pelas circunstâncias. O termo identifica os descendentes de judeus que mantêm em segredo os costumes judaicos, de forma consciente ou inconsciente, enquanto praticam outra religião. Entre os marranos, cristãos-novos, nem todos eram judeus, pois muitos árabes também se converteram ao cristianismo.

Entre os criptojudeus europeus mais conhecidos na história estão: Rodrigo Lopes, médico lusitano da rainha Elizabeth I; Antonio Fernandes Carvajal, comerciante português que se fixou em Londres; Luis de Carvajal, governador do Estado de Nuevo León (México) no século 16; e seu sobrinho Luis de Carvajal, o Moço. Alguns estudiosos do judaísmo consideram que Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote, também teria sido (ou descenderia de um) criptojudeu.

 

Moedas de Jerusalém, do século 1.

Com a morte desta, foi induzido a casar-se também com a sua irmã, D. Maria de Castela. Fernando e Isabel queriam anexar Portugal. Em troca dos enlaces, o país foi coagido a expulsar os judeus, aos quais restou o exílio ou a conversão ao cristianismo. Muitos partiram para o norte da África, a Itália, a Turquia e a Holanda – entre esses os pais do filósofo BaruchSpinoza. Com a expulsão, Portugal perdeu boa parte da sua comunidade científica, médica, intelectual e empresarial – prejudicando seu próprio desenvolvimento.

Desde 1478, os reis católicos espanhóis haviam posto a Inquisição em marcha na Península Ibérica, sancionada pelo papa em Roma. Na colina do castelo de Belmonte, os inquisidores cortaram as cabeças de inúmeras famílias não cristãs. Crianças entre 2 e 10 anos foram capturadas e mandadas para as ilhas de Cabo Verde a fim de serem vendidas como escravas para plantadores de cana-de-açúcar no Brasil. As propriedades dos infiéis foram confiscadas. Os mais obstinados foram levados pelas ruas, puxados pelos cabelos, para a fogueira. Em 1506, 20 mil judeus foram enviados ao Palácio das Estátuas, sede da Inquisição em Lisboa, para serem convertidos ao cristianismo sob o fio da espada. A iniciativa acabou em um massacre de três dias. Dois mil judeus morreram nas ruas de Lisboa.

Nomes das vítimas da Inquisição.

Para amenizar os conflitos, os reis portugueses ordenaram uma anistia temporária, que permitia embargar as propriedades sefarditas em caso de fuga dos donos. Os mais corajosos compraram certificados de isenção e fugiram para o Brasil. Um pequeno grupo – talvez umas cem pessoas – se escondeu na região de Belmonte, nos porões, na floresta e nas grutas, fingindo participar de missas na igrejinha local, disfarçados sob nomes cristãos e vestidos como camponeses.

 

Fachada do Museu Hebraico.

A tempestade só amainou no século 18. Apenas em 1810 a comunidade judaica foi publicamente reconhecida em Portugal. Durante séculos, os criptojudeus de Belmonte se acostumaram a viver dissimulados. Em 1917, um jovem engenheiro de minas, o judeu polonês Shmuel Schwartz, passou na cidade a negócios e se inteirou da situação precária de companheiros de fé. Schwartz documentou parte das suas orações, costumes e canções durante sua estadia, após ganhar a confiança das mulheres ao recitar alguns versos em hebraico. Na década de 1920, um marrano, o capitão Barros Bastos, tornou pública a existência da comunidade. Mas a dissimulação só acabou mesmo em 1983, quando um grupo de judeus israelenses, estudiosos do sefardismo, visitou o povoado e levou a comunidade para uma viagem de reconhecimento oficial a Israel. Em 1996, o embaixador do Marrocos doou uma sinagoga aos 160 judeus de Belmonte.

Paisagem montanhosa de Belmonte.

Recentemente, voltei à cidade. Passaram-se duas décadas. Hoje, a comunidade comemora a idade moderna com cautela. Nas ruas, um jovem carteiro percorria as ruas acenando para todos. Um homem judeu punha à venda por ? 45.000 (R$ 104.000) sua casa, onde havia acabado de tomar uma ducha. Ducha numa construção tão velha? Dentro dos muros antiquíssimos havia um banheiro bem equipado, ele explicou – um costume muito antigo. Uma senhora sefardita, que desfrutava o sol da manhã sentada na rua, mandava o marido fazer compras, despreocupadamente. Algumas crianças com mapas procuravam o antigo bairro judeu, em busca dos vestígios de uma sinagoga no século 13.

 

Tudo parecia igual a qualquer povoado do sul da Europa, ensolarado, limpo, arrumado e alegre. A tranquilidade era total. Na praça, uma assistente social do governo português abriu a porta de seu carro branco, do serviço público, e comentou: “Visito 30 pacientes durante o dia e 20 à noite. Cuidamos dos nossos” – o que inclui hoje judeus, imigrantes e ciganos. O ar fresco trazia as fragrâncias de capim e das mimosas. Entre as antigas ruínas de uma igreja e do castelo, roupas bailavam ao vento, dependuradas numa longa corda. Juntos, judeus e cristãos, muçulmanos e romanis (ciganos) de Belmonte têm feito um esforço digno de limpar as ruas da lembrança de atrocidades históricas.

De pé na porta de sua loja de tecidos, do outro lado da praça, Alípio Diogo Henriques cumprimentava as pessoas com um sorriso. A jovem vendedora da loja de presentes correspondeu à saudação e disse: “Alípio, com seus 87 anos, é o mais velho dos sefardis. Ele tem muitas recordações. É o homem mais encantador do vilarejo. Está ali, na frente de sua loja!” O velho judeu de olhos brilhantes vestia camiseta e calça cinza e um chapéu elegante. Mas estava mais interessado em saber como andava o mundo do que em falar de seu passado. Me contou só parte de sua história, em frases curtas.

Muitos judeus sefardis de Belmonte não sabem se confessar em hebraico. No passado não havia ninguém que lembrasse do texto correto

“Sou filho do povoado, me casei e minha esposa está em casa, lá em cima, tem 84 anos. Tivemos três filhos. Um menino morreu em um acidente. Não fui à escola, trabalhei em fábrica. Vendo artigos têxteis, cobertores, lençóis e sacos de pimenta-vermelha. Não sei me confessar em hebraico. Não havia ninguém em casa que se recordasse do texto correto. Falávamos português, mas não participávamos muito da vida do povoado. Havia medo. Nossos antepassados sefardis vieram da Espanha, nos tempos distantes. Eles sabiam escrever e conheciam o árabe.”

“Hoje estamos felizes. Minha esposa e eu ganhamos bancos na nova sinagoga, com placas de identificação gravadas. Nossos pais não conheciam os rituais. Tivemos que aprender.” Atualmente, uma filha trabalha na Pousada de Belmonte, o antigo claustro franciscano reformado, destacado com cinco estrelas no guia turístico. “Não, não tenho nenhum livro da família, nem fotos, nem cartas”, diz Alípio. “Minhas memórias irão comigo. Meu nome é Alípio Diogo Henriques. Se quiser mais, fale com Moisés, o meu sobrinho, na loja de roupas na rua de baixo.”

O que Alípio não queria expor, Moisés Mendes Henriques e o recentemente instalado Museu Judaico contaram, com detalhes. Centenas de anos de memórias estão ali documentadas, em cartas, roupas, objetos pessoais, símbolos religiosos e imagens. “O que me comove é lembrar que eu já não podia mostrar minha fé aos meus filhos”, diz Moisés. “Não sabia como, havia esquecido. Mas agora lembramos.”

Alguns dos moradores

 

 

 

Alípio Diogo Henriques, de 87 anos, o mais velho judeu de Belmonte: “Minhas memórias irão comigo.”

 

 

 

 

 

O ex-policial Abílio Henriques é o atual administrador da sinagoga da cidade.

 

 

 

Os irmãos Carlos e Moisés Mendes Henriques são proprietários de uma loja de tecidos. Os pais e os avós deles celebravam o Sabbath em sigilo, em casa.