21/01/2026 - 12:02
Cenário do filme “O Agente Secreto”, capital pernambucana é conhecida como terreno fértil para boatos. Outras histórias falsas ou lendas já deixaram recifenses em pânico.A enfermeira Anne Sthefany, de 31 anos, lembra até hoje de quando sentava para ouvir com o irmão as histórias de terror contadas por um tio. Entre elas, uma ultrapassou a infância e permaneceu viva na memória, a de uma perna cabeluda que andava sozinha pelas ruas do Recife . “A gente ficava na imaginação, tentando entender como é que uma perna andava pela rua chutando as pessoas. Ia dormir pensando nisso”, conta.
Anne não foi a única criança da cidade amedrontada pela “perna cabeluda”, um dos personagens mais notáveis de O Agente Secreto , filme premiado do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho . O membro decepado que surge na boca de um tubarão e ganha vida como um vilão moralista no longa é mais do que um elemento de realismo fantástico ou apenas símbolo de uma lenda urbana isolada trazido para as telonas; evoca também uma identidade cultural do Recife.
A capital pernambucana, onde a obra é ambientada, é uma cidade conhecida por criar, alimentar e viver reproduzindo boatos e lendas. A “perna cabeluda”, personagem que assombrou crianças e adultos após ganhar as páginas dos jornais e as ondas do rádio na década de 1970, se soma a outras histórias que dão ao Recife a fama de “cidade assombrada”.
Essa característica peculiar recifense já foi retratada em outras obras cinematográficas além do longa de Mendonça Filho, na literatura e até em quadrinhos. Algumas das mais famosas são o livro Assombrações do Recife Velho, do sociólogo e escritor Gilberto Freyre (1900-1987), e os filmes Recife Assombrado 1 e 2, de Adriano Portela.
Essa fama também é alvo de iniciativas culturais, como o projeto Recife Assombrado, dedicado a investigar e resgatar os folclores e lendas urbanas da chamada Veneza brasileira, e fomenta até roteiros turísticos.
Por que o Recife é terreno fértil para boatos e lendas urbanas
“Acreditar em histórias de assombração faz muito parte do imaginário e do modo de ser do pernambucano, do recifense. Por isso que um boato feito o da “perna cabeluda” ganhou ainda mais força, porque não era estranho para a gente”, explica o jornalista e escritor Roberto Beltrão. Ele é um dos criadores do projeto Recife Assombrado e viveu na infância o medo de encontrar a tal perna por aí.
Segundo Beltrão e outros especialistas entrevistados pela DW, um dos motivos que explica o apreço recifense pelas lendas e boatos é a história da cidade. Capital mais antiga do Brasil, fundada em 1537, o Recife foi formado por uma sociedade patriarcal canavieira na qual se praticava o que Beltrão chama de “catolicismo mediúnico”, que admitia o contato entre os vivos e os mortos.
“A própria Igreja Católica, como instituição, não dá força a esse tipo de ideia, mas aqui em Pernambuco isso ganhou muita força. […] Gilberto Freyre diz que na ‘casa grande’ se cultuavam Deus, os santos e os mortos”, lembra Beltrão.
“Em todo lugar que tem muitas festividades, tem muito sagrado. E onde tem o sagrado, é solo fértil para o imaginário coletivo”, acrescenta Rúbia Lóssio, socióloga, folclorista e coordenadora da Comissão Pernambucana de Folclore e Culturas Populares (CPFCP).
A criação de histórias também tem a ver com a geografia da cidade. Recife é uma cidade portuária, ressalta Lóssio, então era rota de muitos povos diferentes e sofreu influências judaicas, portuguesas, europeias, africanas e indígenas. “Um caldeirão de efervescência de criação de histórias. […] Nossa construção social é pautada na manifestação do fantástico”, diz a folclorista.
Não à toa, lendas como a da “perna cabeluda” têm o espaço público como cenário, o que ajuda a serem amplificadas. “Geralmente, quando você imagina uma assombração, um fantasma, ele está restrito a algum lugar, como um casarão, uma casa assombrada. Mas, no Recife, não. Sempre a assombração esteve no meio da rua”, diz.
Em um artigo que escreveu sobre a “perna cabeluda”, João Braga, doutor em ciências da religião e divulgador científico no canal de YouTube O Polímata, correlaciona essa característica também com a violência histórica da cidade, marcada por insurgências, guerras, massacres, revoltas e altos índices de assassinatos.
Episódios como a Setembrada, uma revolta militar do século 19 contra a presença portuguesa no Brasil, deram origem, por exemplo, ao boato de que o choro de um menino era ouvido numa praça no centro da cidade, local onde foram sepultados vários mortos no embate. A praça recebeu, posteriormente, o nome de Chora Menino.
“Na pesquisa que eu fiz, algumas pessoas traziam o fato de o Recife sempre ter sido uma capital muito violenta. E diziam que essa lenda de uma perna sem corpo teria nascido justamente da prática de desmembramentos de grupos de extermínio”, diz Braga.
Ele também lembra que a “perna cabeluda” é citada na música Banditismo por uma questão de classe, de Chico Science, que fala sobre violência policial. “Essas lendas urbanas são um reflexo da situação social de uma população oprimida dentro da cidade. Perceba que no filme de Kleber Mendonça Filho a questão da violência está intrínseca do começo ao fim. No próprio filme, a ‘perna cabeluda’ é uma consequência da violência policial na cidade”, acrescenta.
Das páginas dos jornais às salas de aula
Há diferentes versões para o surgimento da lenda da “perna cabeluda”, mas todas elas demonstram o papel que a própria imprensa pernambucana teve na criação e amplificação dos boatos e lendas que formam o imaginário recifense.
Na coletânea Treze Noites com a Perna Cabeluda, cuja capa ilustra a abertura deste texto, Beltrão conta que o primeiro relato sobre uma perna fantasma estava em um texto publicado no jornal Diario de Pernambuco no dia 10 de dezembro de 1975. Sem assinatura, a reportagem relatava que 13 dias antes, numa casa na cidade de São Lourenço da Mata, moradores começaram a ver nas paredes a sombra de uma perna se movendo.
O assunto se alastrou e, no dia seguinte, o jornal informou que a perna já teria sido vista em outros bairros e era um “problema policial”. Dois dias depois, o jornal tentou amenizar a situação, dizendo que aquilo era “uma invenção do povo”, mas em fevereiro de 1976 retomou a história em texto fictício do escritor Raimundo Carrero, já dando a alcunha famosa até hoje de “perna cabeluda”.
O tema também foi abraçado pelos radialistas Geraldo Freire e Jota Ferreira, na então Rádio Repórter do Recife, durante o noticiário policial. Ferreira, na época um repórter iniciante, foi instigado por Freire a inventar uma história para o noticiário, segundo contam em entrevista à revista piauí .
Há quem diga que o boato era uma forma de a imprensa local lidar com a censura, e um símbolo do conservadorismo na ditadura militar durante a década de 1970. “Tinha um certo apelo moral, moralista, porque eu me lembro que diziam que a perna atacava pessoas que estavam na farra”, lembra Beltrão.
Segundo ele, depois da década de 1970, o boato ficou adormecido, mas foi resgatado esporadicamente, como aconteceu em O Agente Secreto, e no filme Recife Assombrado, que inclusive colocou uma perna cabeluda gigante no centro histórico recifense para fazer a propaganda do segundo filme no ano passado.
Parte dessas manifestações culturais, como um cordel da escritora Mari Bigio, acabam sendo usadas para perpetuar a lenda por gerações, como fez a professora Maria Rafaela Albuquerque com os alunos da creche municipal onde ensina. “A recepção das crianças foi maravilhosa. Só de falar do Recife, eles já se sentiram interessados. Eles não sentiram medo, pois contamos de uma forma lúdica”, afirma.
Outro boatos e lendas da cidade
Não é difícil encontrar por Recife um morador que já tenha sido amedrontado ou viveu a angústia de uma história que nunca existiu, mas foi repassada no boca a boca, abraçada pelas páginas de jornais, pelas ondas do rádio e precisou de comunicados oficiais do governo e da prefeitura para ser desmentida.
Quase na mesma época da “perna cabeluda”, outro boato marcou a cidade. Nos dias 17 e 18 de julho de 1975, o Recife enfrentou uma chuva sem precedentes, deixando 80% da área urbana debaixo d’água e resultando em mais de 100 mortos e 350 mil desabrigados.
No dia 21, começou a circular na cidade o boato de que a barragem de Tapacurá tinha estourado e um novo alagamento de grandes proporções iria tomar conta de tudo. O boato provocou pânico social, gerando correria pelas ruas do centro, levando pessoas a subirem em prédios e árvores e causando até infartos. Foi preciso que o governador na época, Moura Cavalcanti, se pronunciasse e fosse às ruas acalmar as pessoas.
“Eu lembro muito de voltar da escola e ver minhas lancheiras, bonecas, tudo na lama”, rememora Lóssio. A história, relatada no livro Tapacurá — Viagem ao planeta dos boatos, do jornalista Homero Fonseca, foi ressuscitada em 2011, quando uma nova cheia alagou a cidade e despertou rumores de um “novo” estouro da barragem, levando correria às ruas.
Os boatos, lembra a enfermeira Anne Sthefany, seguem se proliferando. Há menos de um mês, um recuo intenso do mar levou os moradores do Recife e região metropolitana a espalharem a história de que um tsunami iria invadir a cidade. “Começou a aparecer fotos do mar muito baixo nas redes sociais, e isso ficou na minha cabeça, na dos meus filhos. A gente não conseguia dormir, meus filhos fizeram até uma mala para fugir. A gente tem essa mania de aumentar as coisas”, brinca Sthefany.
