Depois de negar por anos participação na indústria bélica e na Força Aérea sob Hitler, companhia aérea alemã lança livro em que admite “papel ativo” no regime nazista.Para marcar o centenário de sua fundação, a companhia alemã de aviação Lufthansa está reavaliando sua história para “assumir maior responsabilidade” por suas ações durante a era nazista, rompendo com tentativas anteriores de separar sua identidade do período pré e pós-Segunda Guerra.

“Na Lufthansa, temos orgulho do que somos hoje”, disse o CEO da empresa Carsten Spohr a jornalistas em declarações divulgadas nesta quarta-feira (04/02). “Ignorar aqueles anos difíceis, sombrios e terríveis teria sido simplesmente desonesto.”

A decisão de celebrar seu centenário com base na fundação da primeira “Deutsche Luft Hansa” (em português, “Liga Hanseática Aérea Alemã”) reflete essa mudança. A empresa por muito tempo enfatizou a ruptura legal e organizacional entre sua antecessora – profundamente integrada ao regime nazista e encerrada em 1946 – e a Lufthansa AG do pós-guerra, fundada em 1953.

Membros do conselho executivo e do conselho de supervisão da antiga Luft Hansa (renomeada para Lufthansa em 1933) haviam ingressado no Partido Nazista em 1930, e a companhia aérea estatal transportava autoridades do governo.

A Lufthansa também teve participação na indústria bélica e na Luftwaffe, a Força Aérea alemã, durante a guerra. Em 1944, o setor de armamentos representava mais de dois terços de toda a receita da empresa.

Empresa se beneficiou de trabalho forçado

Antigos membros da diretoria enfatizavam que a única relação com a companhia anterior seriam as cores, o logotipo e o nome.

Mas a relação extrapolava estes elementos. Seu conselho administrativo era formado pelos mesmos membros do passado nazista, incluindo Kurt Weigelt, que liderou o departamento econômico do Escritório de Política Colonial do partido de Adolf Hitler.

A tentativa de separar a empresa de seu passado refletia a busca por aliviar a reputação e a responsabilidade jurídica. Agora, a Lufthansa quer assumir essa responsabilidade, disse Spohr.

Um novo livro sobre a história da empresa será distribuído a todos os seus mais de 100 mil funcionários, juntamente com uma exposição no novo centro de visitantes. A obra cita explicitamente o “papel ativo” da companhia durante a era nazista.

A Lufthansa encomendou pesquisas sobre seu passado há mais de 25 anos, mas se recusou a divulgá-las de forma extensiva ou reconhecer as conclusões sobre o uso de trabalho forçado – tema que deve ser reexaminado pela empresa desta vez.

Segundo o historiador Manfred Grieger, que contribuiu para o livro, mais de 12 mil pessoas foram exploradas na produção de armamentos da empresa e em suas operações de reparo e manutenção. Recentemente veio à tona que esse número incluía também crianças.

Marcas de renome e dinastias empresariais continuam a “se esconder à vista de todos”, afirma o jornalista David de Jong, autor do livro de Bilionários nazistas: a tenebrosa história das dinastias mais ricas da Alemanha, lançado em 2023 no Brasil pela Companhia das Letras.

A obra descreve como a maioria dos líderes empresariais que cooperaram com o regime de Adolf Hitler nunca foram realmente responsabilizados, ao contrário dos políticos de alto escalão e líderes militares nazistas julgados em Nurembergue após a Segunda Guerra Mundial.

gq/ra (Reuters, DPA, OTS)