Estudo de conto escrito por Turing sugere que o pioneiro da computação estava longe de ser apenas o gênio tímido e recluso retratado pela cultura popular.”Pai” da informática e decifrador do código Enigma dos nazistas, o matemático britânico Alan Turing (1912-1954) pode não ter sido o cientista excêntrico e isolado que se acreditava, mas sim um homem divertido, que assumia com orgulho sua homossexualidade.

É o que revela a análise detalhada de um conto escrito por Turing e conservado no King’s College de Cambridge. Publicada recentemente na revista The Review of English Studies, a análise mostra uma personalidade de Turing bem diferente daquela popularizada pelo filme O Jogo da Imitação (2014), indicado a oito estatuetas do Oscar e vencedor do prêmio de Melhor Roteiro Adaptado.

A carreira e a vida de Alan Turing, cientista fundamental para o desenvolvimento da computação moderna e da inteligência artificial, bem como para decifrar códigos e encurtar a Segunda Guerra Mundial, foram abruptamente interrompidas após ele ser condenado por homossexualidade em 1952 no Reino Unido. Dois anos depois, foi encontrado morto por envenenamento, em circunstâncias até hoje cercadas de dúvidas. Na época, sua morte, aos 41 anos, foi considerada um suicídio.

Um texto “picante”

A reinterpretação da personalidade de Turing se baseia em Pryce’s Buoy (A Boia de Pryce), um manuscrito de seis páginas escrito à mão e preservado nos arquivos do King’s College, em Cambridge. O texto foi transcrito e analisado pela pesquisadora Sarah Dillon, da Universidade de Cambridge, que vê na obra pistas de uma faceta pouco conhecida da personalidade de um dos mais importantes matemáticos do século 20.

“Estamos diante de um relato ‘picante’, que rompe com a imagem de Alan Turing como um matemático isolado e nos revela um homem brincalhão, sem traumas, que assume com orgulho sua homossexualidade”, destaca a pesquisadora.

O conto — que, segundo Dillon, foi escrito no final de 1952 ou início de 1953 — gira em torno de Ron Miller, um rapaz da classe trabalhadora que trabalhava como acompanhante, e de Alec Pryce, um cientista homossexual famoso por uma invenção que fez quando tinha cerca de vinte e poucos anos, conhecida como “a boia de Pryce”.

Para Dillon, Alec representa o próprio Turing, e ela acredita que o relato seja uma adaptação direta para a ficção do encontro sexual que o levou à prisão por homossexualidade no final de 1951. Em 2013, Alan Turing recebeu postumamente o perdão da rainha Elizabeth 2º pela condenação por “indecência grave”, imposta devido à sua homossexualidade.

Na história do conto, cansado após um período de trabalho intenso, Alec sente que merece um pouco de diversão. Ao sair em busca dela, encontra Ron, um homem desempregado que quer ganhar algum dinheiro em troca de sexo.

Sentados em um banco do parque, os dois avaliam a situação e se observam mutuamente. A impressão que Alec tem de Ron é de que “não é exatamente um galã, mas tem um certo charme. A cavalo dado, não se olha os dentes”.

Em seguida, os dois se dirigem a um restaurante. Turing escreve que Ron “não costumava se expressar com refinamentos ou rodeios. Afinal, o resultado seria o mesmo. Uma cama continua sendo uma cama, independentemente do caminho que leva até ela”.

“Adoro a hesitação de Turing e como ele capta a tensão no relacionamento, esse vai e vem entre se aproximar e se afastar. Ele faz isso muito bem”, destaca Dillon.

Literatura, uma libertação

Infelizmente, o texto acaba abruptamente na página seis, deixando o conto sem um desfecho.

“Claramente havia mais, e isso é muito frustrante”, diz Dillon. “Não sabemos o que aconteceu com o resto. Não sabemos se a mãe de Turing censurou. Ficou mais explícito sexualmente? Como terminou? Isso é frustrante, mas todo o resto é muito empolgante”, relata

“Turing morreu com apenas 41 anos e, nos anos que antecederam sua morte, tentava compreender a si mesmo e ao seu mundo. A literatura lhe oferecia uma forma realmente poderosa de fazer isso, e está claro que nela ele encontrou a libertação e a oportunidade de ser mais criativo”, analisa.

A pesquisadora também observa como Turing, que lia romances de ficção homossexual, incluindo as obras do britânico Angus Wilson, extraiu trechos de um de seus livros para o conto, algo que ela considera normal.

“Quando você começa a tentar a sorte como escritor criativo, copia o que te inspira. É uma espécie de andaime, porque escrever de forma criativa dá medo.”

Assim como Wilson, “Turing tenta entrelaçar os pensamentos íntimos de seus personagens em um panorama social mais amplo”, afirma Dillon. “Acho que ele consegue isso com sucesso.”

Angus Wilson (1913–1991) foi um dos primeiros autores abertamente homossexuais do Reino Unido a abordar o tema em suas obras de forma direta.

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