Um códice do século XV escrito em um idioma que não existe, repleto de ilustrações de plantas alienígenas e rituais desconhecidos, desafia cientistas da computação e paleógrafos. Estaríamos prestes a decifrar a obra mais misteriosa da história humana — ou a IA foi enganada por um truque da Idade Média?

Guardado sob rígido controle de temperatura e segurança nos cofres da Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos da Universidade Yale (registrado sob a assinatura MS 408), repousa um objeto que zomba da inteligência humana há mais de cinco séculos.

Trata-se do Manuscrito Voynich, um livro de 240 páginas de pergaminho de vitelo datado, por radiocarbono, entre 1404 e 1438. Ele contém centenas de desenhos coloridos de plantas que não existem na natureza, diagramas astrológicos complexos e ilustrações de mulheres nuas mergulhadas em tubulações com fluidos verdes. Mas o que realmente tira o sono de historiadores é o seu texto: uma caligrafia fluida e elegante escrita em um alfabeto absolutamente único, que a comunidade acadêmica batizou de “Voynichese”.

Ao longo do século XX, o código resistiu aos ataques dos maiores mentes da criptografia — incluindo os analistas de inteligência das Forças Armadas dos EUA que quebraram os códigos militares das Potências do Eixo na Segunda Guerra Mundial. Agora, no século XXI, a última esperança recai sobre a Inteligência Artificial.

Contudo, longe de encerrar o debate, os algoritmos trouxeram à tona uma questão ainda mais inquietante: o Manuscrito Voynich é uma revelação oculta ou o trote mais elaborado da história?

O Algoritmo da Universidade de Alberta e o “Hebraico Criptografado”

A virada tecnológica na investigação do Voynich ganhou força com os trabalhos do Professor Greg Kondrak e do pesquisador Bradley Hauer, do laboratório de Processamento de Linguagem Natural (NLP) da Universidade de Alberta, no Canadá.

Em um estudo transformador, a equipe alimentou algoritmos de aprendizagem de máquina com o texto de amostragem da Declaração Universal dos Direitos Humanos traduzida para 400 idiomas diferentes. O objetivo era fazer o computador identificar a “assinatura estatística” da linguagem por trás dos caracteres desconhecidos.

O resultado surpreendeu os próprios cientistas: o algoritmo apontou com mais de 80% de probabilidade estatística que a língua base do manuscrito é o Hebraico antigo.

A IA sugeriu que o autor do manuscrito utilizou uma técnica conhecida como alfagrama: a reordenação das letras de uma palavra em ordem alfabética (por exemplo, transformar “casa” em “aacs”) associada à omissão proposital de vogais.

Ao aplicar um algoritmo de desembaralhamento na primeira frase do manuscrito, o sistema gerou a seguinte tradução preliminar:

“Ela fez recomendações ao padre, ao homem da casa, a mim e às pessoas.”

Embora soe como o início de um tratado herbal ou farmacêutico medieval, o avanço foi recebido com ceticismo por linguistas tradicionais, que argumentam que ferramentas estatísticas podem “encontrar” padrões coerentes em dados aleatórios se forem forçadas a fazê-lo.

Enigma do Manuscrito Voynich
Manuscrito Voynich ilustração de flores enigmáticas – página 29

As Cinco Mãos e o Experimento do “Lixo Textual”

Outro avanço científico crucial sobre a estrutura material do manuscrito veio de análises paleográficas avançadas. Uma pesquisa analítica recente da escrita identificou que o Manuscrito Voynich não foi escrito por uma única pessoa, mas sim por cinco calígrafos (escribas) diferentes.

A análise revelou uma divisão de trabalho organizada:

  • Um escriba foi responsável exclusivamente pelas seções de astronomia e astrologia.

  • Outro copiou a seção balneológica (as ilustrações das piscinas e banhos).

  • Os outros três dividiram a extensa seção de herbário e receitas.

Se o livro foi produzido por um ateliê com múltiplos escribas que dominavam a mesma caligrafia sem cometer erros visíveis de cópia, isso enfraquece a tese de uma “escrita louca” individual.

No entanto, um contraponto perturbador foi publicado pelo pesquisador e autor Garry Shaw (Cryptic: From Voynich to the Angel Diaries). Em testes comportamentais, voluntários humanos foram orientados a inventar “textos falsos” (gibberish) usando um processo psicológico chamado auto-citação (repetir pequenas variações de palavras inventadas anteriormente).

O resultado do texto falso produziu propriedades estatísticas e distribuições de frequência exatamente idênticas às do “Voynichese”. Para esse grupo de céticos, a IA da Universidade de Alberta pode ter sido vítima de uma miragem matemática: decodificando um algoritmo medieval humano projetado apenas para parecer um idioma real.

Clues de Papel e Tinta: A Origem Geográfica

Enquanto os computadores digerem o texto, as análises físicas do manuscrito continuam a fornecer pistas valiosas. Testes de microscopia e espectrometria realizados no pergaminho e nos pigmentos confirmaram que as tintas são genuínas do início do século XV.

Pormenores ocultos nas ilustrações oferecem coordenadas geográficas interessantes:

  1. O Castelo de Verona: Em um dos diagramas dobráveis do manuscrito, há o desenho do perfil de um castelo com merlões em formato de “rabo de andorinha” (ameias gibelinas). Esse estilo arquitetônico específico era usado quase exclusivamente no Norte da Itália durante o início do Renascimento.

  2. Vestuário da Época: Um desenho detalha um arqueiro usando um chapéu típico da moda florentina da década de 1420.

 

O Veredito que a Ciência Ainda Não Pode Dar

O Manuscrito Voynich permanece no limbo entre a ciência da computação e a história da arte. Para analistas do acervo da Biblioteca Beinecke, a IA é a ferramenta mais promissora já criada para o problema, mas ela só alcançará uma resposta definitiva quando puder integrar, em um mesmo modelo, a tradução linguística, a botânica comparada e a paleografia medieval.

Até lá, a obra segue como um espelho fascinante da mente humana: um enigma onde a tecnologia moderna enxerga padrões matemáticos brilhantes, enquanto a história suspeita de um segredo guardado a sete chaves — ou do trote mais genial do Renascimento.

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Fontes:

  1. University of Alberta (Canadá) – Faculty of Science / Department of Computing Science: Estudo “Using AI to uncover ancient mysteries” (Greg Kondrak & Bradley Hauer), sobre o uso de Processamento de Linguagem Natural (NLP) e algoritmos de identificação do Hebraico.

  2. Yale University – Beinecke Rare Book and Manuscript Library: Arquivos oficiais do acervo Beinecke MS 408 e relatórios de conservação/datação por radiocarbono.

  3. The Art Newspaper / Garry J. Shaw: Análise de estudos paleográficos sobre a identificação de cinco escribas e experimentos de geração de “pseudo-texto” (Cryptic: From Voynich to the Angel Diaries, Yale University Press).