Fauna do Mar Trans-Saariano, que existiu entre 100 e 50 milhões de anos atrás, incluía enormes bagres-marinhos e serpentes-marinhas

 

Alguns dos maiores bagres e serpentes do mar já nadaram no que hoje é o deserto do Saara, de acordo com um estudo publicado no “Boletim do Museu Americano de História Natural” e abordado pelo jornal “The Guardian” que apresenta as primeiras reconstruções de espécies aquáticas extintas do antigo Mar ou Canal Trans-Saariano, que cortava a atual África da Argélia, no norte, à Nigéria, no sul.

Nessa época, entre 100 e 50 milhões de anos atrás, esse mar tinha 50 metros de profundidade e cobria 3 mil quilômetros quadrados do que se viria se tornar o maior deserto de areia do mundo. O sedimento marinho deixado para trás foi preenchido com fósseis, o que permitiu aos cientistas que publicaram o estudo reconstruir a vida passada naquela região.

Segundo os autores do estudo, naqueles tempos o árido norte do atual Mali “parecia-se mais com a moderna (ilha de) Porto Rico”.  Ao reconstituir o cenário, Maureen O’Leary, paleontóloga da Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook que liderou a pesquisa, conta que o sol brilhava em alguns dos primeiros manguezais e moluscos se alinhavam no fundo do mar.

O trabalho também pôs pela primeira vez a área no mapa geológico, mostrando como o mar trans-saariano fluiu e refluiu ao longo de seus 50 milhões de anos de existência. Ele serviu ainda para adicionar informações sobre o nível K-Pg (entre os períodos Cretáceo e Paleogeno), assinatura geológica do evento que marcou a extinção dos dinossauros, há cerca de 66 milhões de anos.

Os pesquisadores estimam que o mar do Saara tinha 1,6 milhão de bagres-marinhos, 12,3 milhões de serpentes-marinhas (Hydrophiinae) e 1,2 milhões de picnodontes (um tipo de peixe ósseo). Segundo O’Leary e seus colegas, naquela época os animais viviam em gigantismo. “Se você pegar um mar que está em fluxo e refluxo, talvez esteja deixando para trás bolsões de água em que novas variáveis ​​estão ocorrendo e controlando o tamanho do corpo”, afirma ela.

O estudo se baseia no trabalho de expedições britânicas ao Mali nos anos 1980, que, entre outras coisas, descobriram (mas não escreveram sobre) uma grande carapaça de tartaruga e uma importante coleção de fósseis. Os fósseis recolhidos são propriedade do Mali e foram emprestados ao Museu Americano de História Natural para fins científicos.