Ataque no país mais populoso da África foi um dos piores dos últimos meses. Governo culpa grupo islamista Boko Haram.Homens armados, supostamente extremistas islâmicos, mataram dezenas de pessoas em um estado do oeste da Nigéria que está se tornando um novo foco da violência que afeta grande parte do país mais populoso da África.

Autoridades locais disseram que pelo menos 162 pessoas morreram no ataque desta terça-feira (03/02), em um dos piores massacres do país nos últimos meses, e que as vítimas nas aldeias de maioria muçulmana de Woro e Nuku, no estado de Kwara, foram alvejadas por supostamente se recusarem a aderir à ideologia extremista. Os homens armados arrasaram casas e saquearam lojas.

O ataque é o mais recente em uma onda de violência em Kwara, bem como em outros focos de conflito, apesar do recente apoio dos militares dos EUA.

Partes da Nigéria são assoladas por gangues armadas que saqueiam aldeias e sequestram para obter resgate, bem como pela violência intercomunitária nos estados centrais e por grupos jihadistas ativos no norte.

Luta entre grupos armados

A Nigéria enfrenta dezenas de grupos armados locais que lutam cada vez mais por território, incluindo seitas islâmicas como o Boko Haram, originário do país, e sua facção dissidente, o Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP). Há também o Lakurawa, ligado ao grupo Estado Islâmico, bem como outros grupos especializados em sequestros e mineração ilegal.

Nenhum grupo reivindicou a autoria do massacre, mas o governo estadual culpou “células terroristas”, enquanto o governo nacional atribuiu o ataque aos jihadistas do Boko Haram.

Em comunicado emitido na quarta-feira, o presidente nigeriano, Bola Ahmed Tinubu, informou que ordenou o destacamento de um batalhão do Exército em Kwara, onde “terroristas do Boko Haram assassinaram ontem à noite [terça-feira] aldeões indefesos”.

Tinubu afirmou que o batalhão liderará a “Operação Escudo da Savana” para “deter os terroristas bárbaros e proteger as comunidades indefesas”.

O presidente também condenou o “ataque covarde e brutal” e expressou indignação com a morte dos moradores, “que rejeitaram a odiosa tentativa de doutrinação [por parte dos agressores] e optaram por praticar o Islã, que não é extremista nem violento”.

“É louvável que os membros da comunidade, apesar de serem muçulmanos, tenham se recusado a ser recrutados por uma crença estranha que promovia a violência em vez da paz e do diálogo”, declarou o presidente, sem especificar um número oficial de vítimas.

Ataques constantes

Alguns estados da Nigéria, especialmente no centro e no noroeste, sofrem ataques constantes dos chamados “bandidos”, termo usado para designar gangues criminosas que cometem assaltos e sequestros em massa para pedir resgate, e que as autoridades por vezes classificam como “terroristas”.

A essa insegurança soma-se a atividade do grupo jihadista Boko Haram no nordeste do país e, desde 2016, de sua dissidência, o Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP).

O Boko Haram e o ISWAP já mataram mais de 35 mil pessoas – muitas delas muçulmanas – e deixaram cerca de 2,7 milhões de deslocados, principalmente dentro da Nigéria, mas também em países vizinhos como Camarões, Chade e Níger, segundo dados governamentais e da ONU.

No noroeste, o Lakurawa, um grupo aparentemente ligado à organização terrorista Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP), também costuma cometer atentados nos estados de Kebbi e Sokoto há alguns anos.

Ajuda dos EUA

Os Estados Unidos enviaram um pequeno contingente militar à Nigéria em apoio – principalmente de inteligência – à luta antiterrorista, segundo afirmou nesta terça-feira o chefe do Comando Militar americano na África (Africom), general Dagvin Anderson.

Trata-se do primeiro reconhecimento público da presença de forças americanas em solo nigeriano desde os ataques aéreos contra o Estado Islâmico no país africano no final de 2025, nos quais o Exército dos EUA colaborou.

Os Estados Unidos estão apoiando a Nigéria em suas campanhas militares contra os grupos armados, apesar de algumas divergências.

A Nigéria tem estado na mira diplomática dos EUA nos últimos meses, após ameaças do presidente americano Donald Trump de atacar o país, alegando que ele não está fazendo o suficiente para proteger seus cidadãos cristãos.

Embora os cristãos estejam entre os alvos, analistas dizem que a maioria das vítimas de grupos armados são muçulmanos no norte da Nigéria, onde ocorre a maioria dos ataques.

md/ra (EFE, AP, AFP, Reuters)