Diante dos violentos protestos que atingem o Irã, chanceler federal alemão afirma que estes são os “últimos dias e semanas” da liderança islâmica. Alemanha conversa com EUA sobre transição de governo.O chanceler federal alemão, Friedrich Merz, afirmou nesta terça-feira (13/01) que espera uma mudança iminente na liderança do Irã, como resultado da violenta repressão aos protestos que ocorrem no país contra o regime islâmico.

“Se um regime só consegue se manter no poder por meio do uso da violência, então ele está, na prática, acabado”, disse ele durante visita à cidade indiana de Bangalore. “Parto do pressuposto de que estamos vendo agora justamente os últimos dias e semanas deste regime”, continuou.

Segundo Merz, os ministros do Exteriores da Alemanha, dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França estão em “estreito contato para garantir que possa haver uma transição pacífica no Irã para um governo democraticamente legitimado”.

Protestos deixam centenas de mortos

Os protestos no Irã tiveram início em 28 de dezembro devido à grave situação econômica do país e culminaram em exigências pela derrubada da liderança da República Islâmica.

As forças de segurança reagiram com violência. Um funcionário do regime declarou nesta terça-feira, à agência de notícias Reuters, que cerca de 2 mil pessoas foram mortas até o momento, incluindo civis e membros das forças de segurança.

A organização de direitos humanos Hrana, sediada nos EUA, havia estimado 646 mortes até segunda-feira, incluindo 505 manifestantes, além de membros das forças de segurança e pessoas não envolvidas. Outras 579 mortes relatadas ainda estariam sendo investigadas.

A televisão estatal iraniana atribui a violência a interferências estrangeiras e diz que membros de “grupos terroristas” supostamente apoiados por Israel teriam sido presos.

Irã critica posicionamento alemão

O ministro do Exterior do Irã, Abbas Araghchi, criticou duramente os comentários de Merz. “A Alemanha deveria pôr fim à sua interferência ilegal em nossa região”, escreveu Araghchi na plataforma X.

“De todos os governos, o da Alemanha é talvez o menos qualificado para falar de ‘direitos humanos’. A razão é simples: seus flagrantes padrões duplos ao longo dos últimos anos destruíram qualquer resquício de credibilidade”, afirmou, mencionando o apoio alemão a Israel durante a guerra em Gaza.

“Os iranianos também se lembram do repugnante elogio do sr. Merz a Israel quando o país bombardeou casas e empresas em nosso território”, afirmou sobre o conflito entre Irã e Israel em junho do ano passado, quando o chanceler federal alemão disse que Israel estava fazendo o que chamou de “trabalho sujo” em nome do Ocidente.

Teerã prega diálogo, EUA ameaçam

O porta-voz do governo, Fatemeh Mohajerani, afirmou que Teerã irá “conduzir um diálogo” com os manifestantes. “O governo considera os defensores e os manifestantes como seus filhos. Estamos nos esforçando ao máximo para ouvir suas vozes, mesmo que alguns tenham tentado se apropriar desses protestos”, afirmou. O presidente Masud Peseschkian teria criado grupos de trabalho compostos para esclarecer as causas da insatisfação entre os jovens.

Um deputado iraniano advertiu para distúrbios ainda maiores caso o governo não responda às preocupações da população. “As pessoas estão insatisfeitas, e os responsáveis no governo e no Parlamento precisam resolver seus problemas. Caso contrário, os mesmos acontecimentos vão se repetir com maior intensidade”, disse Mohammadresa Sabaghian na terça-feira, durante uma sessão parlamentar.

Araghchi afirmou à emissora Al Jazeera que continua em contato com o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff. “A comunicação entre Witkoff e eu continuou antes e depois dos protestos e ainda segue em andamento”, afirmou.

Na noite de segunda-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou todos os parceiros comerciais do Irã com tarifas punitivas. “Com efeito imediato, qualquer país que faça negócios com a República Islâmica do Irã pagará uma tarifa de 25% sobre todo o comércio com os Estados Unidos da América”, escreveu Trump em sua plataforma Truth Social.

O Irã, que já está sob duras sanções dos EUA, exporta a maior parte de seu petróleo para a China. Entre os outros parceiros comerciais mais importantes estão a Turquia, o Iraque, os Emirados Árabes Unidos e a Índia. A embaixada chinesa em Washington criticou a postura de Trump.

A Casa Branca afirma, porém, que mantém canais diplomáticos com a liderança em Teerã. “O que se ouve publicamente do regime iraniano difere claramente das mensagens que o governo dos EUA recebe de forma confidencial, e acredito que o presidente tenha interesse em analisar essas mensagens”, disse a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt.

gq (DPA, Reuters, OTS)