As mudanças climáticas ameaçam os famosos moais da Ilha de Páscoa, no Chile. As estátuas gigantes, construídas pelo povo rapanui, entre os anos 1250 e 1500, podem serem engolidas pelo mar até 2080, devido ao aumento do nível dos oceanos causado pelo aquecimento global, revelou um estudo publicado em meados de agosto na revista especializada Journal of Culture Heritage.

“O aumento do nível do mar é real. Não é uma ameaça distante”, destacou o autor principal do estudo, Noah Poa. A Ilha de Páscoa está localizada no Oceano Pacífico e é administrada pelo Chile. O local foi reconhecido como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

+ Urbanização fez aves megacoloridas desaparecerem das cidades brasileiras, indica artigo

“A questão principal não era se o local seria afetado, mas quando e com que intensidade”, afirmou o pesquisador num comunicado divulgado pela Universidade do Havaí, em Manoa.

Para avaliar esse impacto, os pesquisadores construíram uma réplica digital em alta resolução da costa leste da ilha e executaram modelos computacionais para simular o avanço futuro das ondas em vários cenários de aumento do nível do mar.

Posteriormente, os resultados foram sobrepostos em mapas que incluíam os locais onde estão os moais. O estudo mostrou que as ondas podem atingir Ahu Tongariki, maior plataforma cerimonial da ilha, já em 2.080.

Segundo Poa, a descoberta fornece os dados específicos e urgentes necessários para incentivar o debate e o planejamento comunitário futuro.

Importância cultural e econômica

Em Ahu Tongariki, estão localizados 15 moais, que atraem dezenas de milhares de visitantes todos os anos. A região é um dos principais pilares do turismo local. Mas, além de seu valor econômico, Ahu Tongariki, que fica dentro de um parque nacional, está profundamente ligado com a identidade cultural dos habitantes da ilha.

“Este estudo revela uma ameaça crítica à cultura e aos meios de subsistência rapanui. Para a comunidades estes sítios são essenciais para reafirmar sua identidade e apoiar a revitalização das tradições locais”, destacou Poa.

Entre os séculos 10 e 16, o povo rapanui construiu aproximadamente 900 moais, que estão espalhados por toda a Ilha de Páscoa e representam ancestrais e líderes comunitários importantes. A ameaça ambiental a essas estátuas gigantes não é inédita. Em 1960, o maior terremoto já registrado da história, um sismo de magnitude 9,5 na costa do Chile, provocou um tsunami no Pacífico que atingiu a ilha e varreu os moais, que haviam sido derrubados durante guerras civis, para o interior – o que danificou as estátuas.

Como a ilha pode ser protegida

As possíveis medidas para proteger Ahu Tongariki incluem a construção de diques, reforçar a costa e a remoção dos monumentos para outras regiões da ilha. Poa espera que o estudo gere um debate agora e não somente quando danos irreparáveis já tiverem ocorrido.

“Infelizmente, do ponto de vista científico, os resultados não são surpreendentes. Sabemos que o aumento do nível do mar representa uma ameaça direta ao litoral em todo o mundo”, acrescentou o pesquisador. “É melhor antecipar e ser proativo, em vez de reagir a potenciais ameaças.”

Embora o estudo se concentre na Ilha de Páscoa, suas descobertas podem ser replicadas em patrimônios culturais do mundo inteiro, com regiões costeiras cada vez mais ameaçadas pelo aumento do nível do mar. Um relatório da Unesco divulgado no mês passado concluiu que 50 patrimônios mundiais estão altamente expostos a inundações costeiras.

(DW, ots)