Baixo volume de reservatórios levou Sabesp a reduzir pressão da água na tubulação. Crise hídrica afeta, principalmente, regiões periféricas.Quando Ana Maria dos Santos acorda no Grajaú, no extremo sul de São Paulo, a primeira tarefa do dia é sempre a mesma: encher garrafas. “Tem que encher todos os dias, porque senão à noite, quando a água for embora, corremos o risco de ficar sem, e aí não tem a quem recorrer”, conta a auxiliar de limpeza.

No bairro, guardar água virou rotina entre a vizinhança. Após as 19h, às vezes mais cedo, o fornecimento “é cortado”. O cenário já complicado piora quando outros serviços falham: durante um apagão recente, Ana Maria afirma ter ficado quatro dias seguidos sem água e precisou buscar galões em outro bairro.

O que ela descreve é um efeito prático de uma decisão técnica que vem atingindo milhões de moradores da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Com os reservatórios em baixa, desde agosto do ano passado, a Sabesp reduziu a pressão da água na tubulação. Uma estratégia que, para moradores de áreas mais altas, distantes das adutoras ou com rede local mais frágil, pode significar horas seguidas com torneiras secas. No Jardim Gaivotas, onde Ana Maria mora, é comum 12 horas ou mais sem abastecimento.

Apesar da medida, a situação no Sistema Cantareira, que historicamente é central no abastecimento da Grande São Paulo, continua preocupante. No início de fevereiro, o volume útil do reservatório atingiu 35,3%. No entanto no começo deste ano, esse volume ficou em 20% – um patamar menor ao dejaneiro de 2014, quando a Grande São Paulo começou a conviver com a pior crise hídrica já registrada, o que levou a Sabesp a drenar o chamado “volume morto” dos reservatórios.

Para quem vive às margens do reservatório Jaguari-Jacareí, o maior do Cantareira, a tímida recuperação não é motivo de alívio. “Se continuar com pouca chuva, e se continuar a precisar da água em São Paulo, vai fazer o quê?”, questiona o construtor Carlos Justino, vizinho do reservatório.

Desabastecimento seletivo

O alerta, porém, não se limita ao Cantareira. Todos os mananciais que abastecem a maior região metropolitana do país estão com níveis abaixo dos observados em 2014. Somado ao Cantareira, o sistema Alto Tietê abastece cerca de 13 milhões de pessoas, e atualmente apresenta um volume 37%.

Para Amauri Pollachi, coordenador do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento, a redução de pressão tende a “empurrar” o problema para as pontas do sistema. Ele lembra que a Região Metropolitana de SP tem mais de 50 mil quilômetros de tubulações e que, quando a pressão cai, quem está mais distante dos reservatórios e na ponta destas tubulações enfrenta maior dificuldade de receber água.

“O que hoje acontece é de fato um desabastecimento seletivo”, diz, afirmando que áreas mais ricas e mais verticalizadas sentem menos o impacto.

Pollachi defende que, antes de reduzir pressão, deveria ser acionada uma alternativa testada na crise anterior: a tarifa de contingência, que premia quem reduz o consumo voluntariamente. “Se você abaixasse 20% no consumo, a conta d’água abaixava 30%”, afirma, reforçando que naquela ocasião a redução no consumo teve uma adesão de 82% da população.

Na avaliação do especialista, mudanças na tarifa poderiam reduzir o consumo em cerca de 15% e aliviar a pressão sobre os sistemas sem concentrar o risco de falta d’água em quem tem menos infraestrutura para armazenar esse recurso.

Para Pollachi, essa medida não seria considerada devido à privatização da Sabesp, concluída em julho de 2024. O especialista sustenta que mecanismos como a tarifa de contingência tenderiam a reduzir a receita da empresa e, por isso, enfrentariam resistência em um contexto de maior pressão por lucro.

Impacto das mudanças climáticas

A redução da pressão na rede é definida pela Arsesp, agência reguladora dos serviços públicos no estado. Em nota, a agência afirma que segue o Plano Estadual de Segurança Hídrica e diz que, desde outubro, o Sistema Integrado Metropolitano opera na chamada faixa três de atenção, com pelo menos dez horas de redução de pressão.

Já a Sabesp avalia que medida, deliberada pela Arsesp e seguida por ela, é justificável diante do cenário de seca. Segundo o diretor regional oeste da empresa privada de abastecimento, a Grande São Paulo estaria hoje mais preparada para enfrentar estiagens cada vez mais frequentes do que no passado.

Também afirma que a empresa deve investir R$ 5 bilhões até 2027 para interligar represas e tubulações, reforçando o sistema. “As mudanças climáticas já afetam a própria operação do nosso sistema. Desde agosto, conseguimos economizar mais de 80 milhões de metros cúbicos. Isso seria suficiente para poder abastecer a cidade de São Paulo durante um mês inteiro”, afirma Marco Barros, ao defender a estratégia. Ele ressalta ainda que a redução de pressão “é uma medida transitória”.

Alheia a essa disputa técnica e regulatória, Ana Maria resume a crise do jeito mais simples – e mais duro. Ela vive ao lado de uma represa, mas precisa tratar a água como um bem que pode desaparecer a qualquer hora: guardar, racionar, improvisar. E torcer para que, quando a torneira secar de novo, ainda haja alguma garrafa cheia.