03/04/2025 - 7:48
Um dia após o presidente americano anunciar a mais generalizada rodada de tarifas, países prometem reagir e põe o mundo à beira de uma guerra comercial.Países em todo o mundo se preparam, nesta quinta-feira (03/04), para responder à mais generalizada rodada de tarifas até o momento, anunciada pelo presidente dos Estados Unidos,Donald Trump, ontem, no que o republicano chamou de “Dia da Libertação”.
Trump impôs uma sobretaxa mínima de 10% a todas as importações ao país, mas adotou um conceito de reciprocidade que se traduziu em alíquotas de quase 50% em alguns casos.
A reação dos governos mais afetados se limitou a promessas e comunicados até agora, enquanto autoridades calibram as respostas com base no alcance das taxas. No entanto, os mercados financeiros amanheceram com fortes perdas globalmente, diante da avaliação de que a comunidade internacional já começa a “se armar” para uma custosa guerra comercial.
Europa prepara pacote de medidas
A União Europeia(UE) confirmou que prepara um pacote de medidas em contraposição à tarifa de 20% da qual é alvo, mas demonstrou estar aberta a negociações para evitar uma disputa mais ampla. O bloco já vinha finalizando planos de taxar o equivalente a 26 bilhões em produtos americanos, na esteira de sobretaxas ao aço e ao alumínio iniciadas em março por Trump.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyn, classificou a situação como um “grande golpe à economia mundial”. “Parece não haver ordem na desordem. Nenhum caminho claro através da complexidade e do caos que está sendo criado à medida que todos os parceiros comerciais dos EUA são atingidos”, afirmou, durante cúpula com líderes da Ásia Central no Uzbequistão.
Além dos anúncios da véspera, também entram em vigor nesta quinta-feira tarifas de 25% sobre veículos importados pelos americanos. A Associação da Indústria Automotiva da Alemanha, que têm os EUA como principal mercado, pediu a UE que “mantenha a cabeça fria” para evitar “uma escalada que apenas agravaria os danos”.
Fora do bloco europeu, o Reino Unido dispõe de “uma ampla gama de instrumentos e não hesitará em usá-los”, mas “permanece calmo e comprometido”, de acordo com o ministro de negócios, Jonathan Reynolds. Os EUA cobrarão uma tarifa recíproca de 10% dos britânicos.
China promete resposta, mas não detalha planos
Outro alvo central da Casa Branca, a China exortou os EUA a “cancelarem imediatamente” a ofensiva tarifária e prometeu impor “contramedidas resolutas” por meio de comunicado do ministério do Comércio. Pequim, porém, não detalhou os planos. “Não há vencedores em uma guerra comercial, e não há saída para o protecionismo”, ressalta a nota.
Para o país asiático, tarifas recíprocas de 34% serão acrescidas a sobretaxas já existentes de 20%. O total, de 54%, se aproxima da alíquota de 60% prometida por Trump durante a campanha eleitoral.
No Japão, o ministro do Comércio, Yoji Muto, exortou Washington a desistirem da tarifa de 24% aplicadas aos produtos do país asiático. Já o presidente interino da Coreia do Sul, Han Duck, reconheceu que uma “guerra tarifária global se tornou uma realidade”.
Especialistas consideram tarifas agressivas
As palavras duras refletem a percepção de que as tarifas foram agressivas, embora ainda haja incerteza sobre a implementação. Para o estrategista Jim Reid, do Deutsche Bank, as taxas cumpriram as expectativas mais pessimistas.
“No geral, o tamanho das tarifas aumentou a sensação de um impulso para uma reorganização política radical pela nova administração dos EUA”, escreveu Reid em relatório a investidores. Mas elas “não aumentaram muito a confiança de que haja um plano de implementação estratégica aprofundado”.
O economista-chefe da consultoria britânica Capital Economics, Neil Shearing, também considerou as alíquotas mais altas que o esperado, particularmente para China e outros países asiáticos. Por outro lado, o Brasil está entre os “vencedores” por ter sido alvo apenas da tarifa mínima de 10%, na visão dele.
“Impacto mínimo na economia brasileira”
Antes parceiros indispensáveis, EUA e Brasil se tornaram concorrentes diretos no comércio global em setores como agricultura e energia, explica à DW o chefe da Moody’s Analytics para América Latina, Jesse Rogers. O resultado é que os embarques brasileiros para a maior economia do mundo são relativamente limitados, em comparação com Europa e Ásia.
“As tarifas recíprocas terão impacto mínimo na economia brasileira, já que o país não importa muito dos EUA”, resume Rogers.
O economista vê potencial impacto no setor de energia, uma vez que o Brasil é grande exportador de petróleo refinado. Mas o mercado americano pode ser facilmente substituído por praças asiáticas e do Oriente Médio, de acordo com ele. Os efeitos devem ser mais indiretos. “Se as tarifas desacelerarem as economias chinesa e global, o Brasil e a América do Sul sentirão o impacto”, especula.De qualquer forma, o Congresso aprovou um projeto de lei que prevê mecanismos para reciprocidade comercial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou que o país pode recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC).