A execução da peça musical “Organ²/ASLSP” do compositor americano John Cage, conhecida como a música mais longa do mundo, recebeu um novo acorde nesta quarta-feira (5) na cidade de Halberstadt, Alemanha. Um oitavo tubo foi adicionado ao órgão “automático” da igreja medieval de Burchardi, marcando a 17ª mudança sonora do projeto que se estenderá por 639 anos.

Principais pontos

  • A música mais longa do mundo, “Organ²/ASLSP” de John Cage, ganhou um novo acorde em Halberstadt, Alemanha.
  • Um oitavo tubo foi adicionado ao órgão da igreja de Burchardi, alterando o som de sete para oito notas.
  • O projeto, que começou em 2001 e tem previsão de término em 2640, completou apenas cerca de 4% de sua duração total.

A rara alteração no acorde, de sete para oito notas, ocorreu como parte do ambicioso John Cage Organ Project Halberstadt. Este momento foi considerado histórico dentro da igreja, refletindo o passado, o presente e o futuro do projeto e daqueles que acompanham a peça de Cage, intitulada “Organ²/ASLSP” (As SLow aS Possible, ou “o mais lento possível”, em tradução livre).

Anneli Borgmann, presidente do conselho administrativo do John Cage Organ Project Halberstadt, afirmou à agência Associated Press (AP): “Por mais rápido que nosso mundo esteja se desenvolvendo, acho que aqui é um lugar maravilhoso para se estar, para se reencontrar e simplesmente deixar-se tocar por essa sensação de “estar aqui””.

A apresentação da peça teve início em 5 de setembro de 2001, data do 89º aniversário de Cage, com uma pausa silenciosa que durou até 5 de fevereiro de 2003, quando os primeiros acordes puderam ser escutados. O término da performance está programado para 4 de setembro de 2640.

Como a peça de John Cage funciona?

Em “Organ²/ASLSP”, um mecanismo de foles mecânicos envia ar para o órgão, gerando um som contínuo. Uma mudança de acorde, realizada manualmente, implica que o som dos tubos do órgão se altera. Seja porque novos sons são adicionados ou porque os sons existentes terminam, essa alteração remete a complexidades sonoras, como as antigas gravações de baleias que podem revelar enigmas do mar.

Mais de uma centena de espectadores se reuniu dentro da igreja de Burchardi nesta quarta-feira para testemunhar a 17ª mudança de acordes da peça, enquanto dezenas de outras pessoas acompanhavam a transmissão ao vivo do lado de fora.

Por três minutos, a plateia ouviu o acorde anterior com sete tubos. Em seguida, um oitavo tubo foi encaixado no pequeno órgão, introduzindo um novo tom, um “lá”, que ressoou por toda a igreja. Os espectadores ouviram por mais três minutos antes de aplaudirem e ovacionarem.

“É uma diferença muito sutil”, disse Jeffrey Lependorf, diretor-executivo do John Cage Trust, em Nova York. “Há um som mais agudo que se destaca um pouco mais.”

O tom “lá” permanecerá soando até 2030. Contudo, em 5 de outubro de 2027, o “mi” que compõe o acorde será retirado, fazendo com que o acorde retorne a ter sete notas. É relativamente incomum que oito notas sejam ouvidas simultaneamente em “ASLSP”, mas isso acontecerá novamente por quatro meses em 2028, e depois somente em 2046.

A filosofia de Cage e a arte do silêncio

O compositor americano John Cage nasceu em Los Angeles em 1912 e faleceu em Nova York em 1992. Além de suas composições, Cage foi um teórico e artista multifacetado, que buscava novas abordagens para a música contemporânea. Ele teve aulas com o austríaco Arnold Schönberg (1874-1951), criador do dodecafonismo, sistema harmônico em que as doze notas deveriam ser tocadas sem repetições para evitar um centro tonal único.

Idiossincrático e avesso a regras fixas, Cage se distanciou do sistema dodecafônico, incorporando em sua música elementos até então pouco explorados. Ele criou o “piano preparado”, inserindo objetos como metal e feltro entre as cordas do instrumento para gerar novas texturas sonoras.

A maior notoriedade de John Cage, no entanto, veio com o uso do silêncio e do acaso, especialmente na peça “4”33″”. Essa composição para piano consiste em quatro minutos e trinta e três segundos nos quais o instrumentista não toca nenhuma nota. O objetivo de Cage era que a performance fosse invadida por sons aleatórios do ambiente, como a respiração dos espectadores ou passos no corredor, expandindo a percepção dos ouvintes.

A estreia da primeira versão de “ASLSP”, com duração de “apenas” uma hora, ocorreu em 1985 no Rio de Janeiro, durante uma viagem do compositor americano ao Brasil. Cage a readaptou para órgão em 1987, para o organista alemão Gerd Zacher.

O período de 639 anos da versão atual equivale ao intervalo de tempo entre a construção do primeiro grande órgão do mundo, em 1361, e o ano 2000. Halberstadt foi escolhida como o local da apresentação por ter sido onde esse primeiro órgão monumental foi construído.

O projeto revitalizou a Igreja de Burchardi, que estava em ruínas antes da arrecadação de fundos para um novo telhado e outros reparos essenciais à concretização da obra. O som no local envolve os visitantes por toda a igreja e proporciona novas experiências auditivas à medida que eles se movem pelo espaço vazio.

“Acho que é realmente o órgão que toca a igreja, e não o contrário”, concluiu Lependorf. “Você se move duas polegadas em qualquer direção e o som não soa sutilmente diferente – soa muito diferente.”

O Paradoxo de Judas: O beijo que traiu Jesus