Na Alemanha, Alexandre Silveira (Minas e Energia) diz que “futuro é nuclear” e defende retomada de Angra 3 e construção de pequenos reatores. Após fim da sua matriz nuclear, alemães veem Brasil como mercado promissor.O ministro de Minas e Energia do Brasil, Alexandre Silveira (PSD), defendeu a expansão do setor nuclear no Brasil, afirmando ser a favor da conclusão da usina de Angra 3 e da construção de pequenos reatores país afora.

“Temos urânio em abundância. Temos tecnologia de produção do combustível nuclear e somos um dos poucos países. É evidente e claro e cristalino que o futuro de um país que detém toda essa potencialidade é nuclear”, disse Silveira nesta quarta-feira (04/03) em evento na Alemanha que reuniu personalidade políticas e membros do setor dos dois países.

“Nós não devemos nem pensar em não continuar a cadeia nuclear. Temos que terminar Angra 3, que está pela metade. É algo que nós precisamos nos orgulhar. Nos envergonha Angra 3 pela metade.”

As declarações foram feitas em um painel na Universidade de Frankfurt, no oeste da Alemanha, país que abandonou a produção de energia nuclear em 2023, após décadas de pressão do movimento ambientalista e da repercussão dos desastres de Chernobyl e Fukushima.

Silveira viajou para o país como parte do evento Diálogos Intercontinentais Brasil-Alemanha, promovido pelo Dinter.

No mesmo painel que Silveira estavam representantes da indústria nuclear alemã, que nos últimos anos passaram a mirar o mercado externo após o país abandonar essa forma de produção de energia.

Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) indica que a conclusão da usina de Angra 3 demandaria cerca de R$ 24 bilhões em investimentos extras, enquanto o abandono da obra pode consumir entre R$ 22 bilhões e 26 bilhões com rescisões contratuais, desmontagem do canteiro, devolução de incentivos fiscais e multas.

Pequenos reatores

Ainda em Frankfurt, o ministro Silveira também argumentou que a energia nuclear será necessária para suprir a demanda de energia por data centers de inteligência artificial (IA), que tem explodido no mundo.

“Com o advento dos data centers de inteligência artificial, que vão requerer uma demanda muito substancial nos próximos dez anos, a energia nuclear será a energia central, em especial nos países que dominam a cadeia, como o Brasil.”

Silveira também se mostrou entusiasmado com o modelo com reatores do tipo SMR – sigla em inglês para small modular reactors, ou pequenos reatores modulares –, que têm em torno de 10% do tamanho de um reator convencional.

Por serem pré-fábricados, esses tipos de reatores podem ser mais facilmente instalados do que grandes usinas convencionais. Eles produzem cerca de um quinto da energia de uma usina comum, mas têm custo mais baixo e são capazes de entrar em operação mais rapidamente. No momento, há apenas duas usinas desse tipo operando no mundo – uma na China e outra na Rússia, construída em um navio.

Segundo Silveira, os SMRs podem ser substitutos de usinas termoelétricas que operam em lugares ermos do Brasil, não incluídos no Sistema Interligado Nacional (SIN) de energia.

Outro participante do painel foi Marcelo Zanatta Estevam, presidente da Âmbar Energia, empresa do grupo J&F dos irmãos Joesley e Wesley Batista, que recentemente passou a deter 68% das ações da Eletronuclear, que opera o Complexo Nuclear de Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro. A Âmbar Energia tem contemplado publicamente a possibilidade de instalar SMRs no Brasil.

Zanatta afirmou que estudos já listam 40 localidades no Brasil que seriam ideias para a instalação de novas usinas e, assim como Silveira, argumentou que os reatores seriam os melhores substitutos para o uso de combustível convencional em cidades não incluídas no SIN ou que dependem de termoelétricas, especialmente na região Norte.

“É muito difícil chegar nessas comunidades, e o tempo de viagem do combustível por barco pode demorar três, quatro ou cinco dias. Já quando a gente olha o combustível nuclear, já existe tecnologia para que uma usina fique um ano e meio sem precisar de uma troca de combustível”, disse.

Zanatta também destacou que a demanda de energia por parte de data centers de IA e carros elétricos demandam cada vez mais energia e que fontes renováveis como eólica e solar ainda são marcadas por intermitência em horários de pico de consumo. “Então cada vez mais vai ser importante ter uma energia na base, descarbonizada, e a gente acredita que ela seja a nuclear. Somos privilegiados por ser um país com uma das maiores reservas de urânio do mundo e com tecnologia já desenvolvida.”

Presente no mesmo evento, Martin Pache, porta-voz da associação Kerntechnik Deutschland, que reúne empresas de tecnologia e pesquisa nuclear da Alemanha, disse esperar que Brasil e o país europeu mantenham a cooperação nuclear iniciada em 1975, com o acordo que abriu caminho para a construção da usina de Angra 2, mesmo diante do mau momento vivido pela indústria alemã, após o abandono da energia atômica em 2023.

Ele também disse acreditar numa virada no sentimento antinuclear alemão, diante da crise energética na Europa e o alto custo para a desmontagem nas usinas desativadas.