Alvo de ataques dos dois lados no conflito entre EUA-Israel e Irã, Iraque teme retorno da violência interna entre xiitas e sunitas e impactos na sua economia, fortemente dependente do país vizinho.À medida que a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã se espalha, iraquianos expressam temores de que antigas rivalidades sectárias, que já levaram o Iraque à beira de uma guerra civil há duas décadas, possam estar ressurgindo.

É possível perceber essa tensão nas redes sociais iraquianas e nas ruas, observa Wissam Yassin, um profissional de marketing digital da cidade de Basra, no sul do Iraque.

“Dá para perceber que uma parte da comunidade xiita no Iraque vê essa batalha como existencial”, diz. “Eles veem o enfraquecimento do Irã como uma ameaça direta a si mesmos, não apenas emocionalmente, mas também em termos do poder político que possuem no Iraque. Eles veem qualquer ataque contra o Irã como um ataque contra si.”

Já entre a comunidade sunita do Iraque, muitos parecem perceber a guerra como uma oportunidade de reorganizar o cenário político diante de um enfraquecimento da influência do regime xiita iraniano no Iraque. “Essa divisão sectária é a coisa mais perigosa para o Iraque”, afirma Yassin, que é muçulmano xiita.

Impacto em toda a região

Analistas avaliam que a estratégia do Irã é tentar prolongar o conflito para assim elevar os custos da guerra ao presidente dos EUA, Donald Trump, em forma de baixas militares ou inflação crescente, às vésperas da campanha para as eleições de meio de mandato.

Quanto maior a duração do conflito, maior o impacto dele sobre o Iraque e todo o Oriente Médio.

“O que está vindo por aí vai mudar a região, talvez até as fronteiras”, afirmou o jornalista iraquiano Kamal Alaash nas redes sociais.

Para ele, o que aconteceu no Iraque depois que o ditador Saddam Hussein foi derrubado será uma gota no oceano comparado ao que acontecerá depois da morte do antigo líder supremo iraniano, Ali Khamenei.

O Iraque como campo de batalha da guerra do Irã

O que acontece no Irã tem enorme impacto na vida dos iraquianos. O Iraque compartilha uma fronteira de cerca de 1.500 km com o país vizinho, além de fortes laços comerciais, políticos e militares.

O Iraque, que só recentemente regressou a um certo grau de estabilidade, é há muito palco de combates entre forças ligadas aos Estados Unidos e ao Irã, como o grupo paramilitar Kataib Hezbollah. No atual conflito, foi o único país da região alvo de ataques dos dois lados.

Depois que EUA e Israel iniciaram os ataques, o Irã retaliou mirando bases americanas no Oriente Médio. Um dos alvos foi a base militar de Erbil, a capital da região autônoma do Curdistão iraquiano, em ataque reivindicado pela Guarda Revolucionária do Irã.

Grupos armados iraquianos apoiados pelo Irã, conhecidos como Resistência Islâmica no Iraque e incluindo o Kataib Hezbollah, reivindicaram a responsabilidade por dezenas de ataques com drones a bases americanas.

Ao mesmo tempo, forças dos EUA e de Israel bombardearam grupos paramilitares aliados ao Irã dentro do Iraque – um ataque aéreo atingiu nesta terça-feira (03/02) um acampamento militar do Kataib Hezbollah no sul do Iraque, segundo o grupo.

Riscos para a economia iraquiana

Além da violência, há ainda o impacto financeiro, pois a instabilidade no Irã provavelmente vai abalar as relações econômicas e comerciais com o Iraque.

Segundo a Câmara de Comércio Conjunta Irã-Iraque, o comércio bilateral entre os dois países somou 12 bilhões de dólares em 2024.

Estima se que o Irã forneça cerca de um quinto dos bens de consumo do Iraque e que utilize o país para contornar sanções dos EUA e ter acesso a moedas estrangeiras.

O Irã é ainda o principal fornecedor de energia usada para eletricidade do Iraque, um ponto nada desprezível diante da chegada de mais um verão. Em anos anteriores, quando faltavam luz e água durante os verões insuportavelmente quentes do Iraque, os moradores logo saíam às ruas para protestar.

Em 2023, o gás iraniano foi usado para gerar cerca de 29% da eletricidade do Iraque, de acordo com o think tank holandês Clingendael Institute.

O Estado iraquiano depende fortemente da venda de petróleo. O bloqueio do tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, pelo Irã, diminui as receitas do Iraque com petróleo, e essa situação afeta a capacidade do governo iraquiano de pagar os servidores públicos.

O Iraque tem uma das maiores forças de trabalho do setor público no mundo, e o governo paga salários ou benefícios, como aposentadorias, a cerca de 7 milhões de iraquianos.

Durante a pandemia de covid-19, em 2020, após a queda dos preços do petróleo, o governo se viu sem ter como pagar os salários em dia, o que gerou protestos pelo país.

“Os iraquianos têm experiência em se ajustar a tempos difíceis, então haverá menos desestabilização no curto prazo”, avalia o especialista Hamzeh Hadad, pesquisador iraquiano baseado em Bagdá. “Mas se a guerra se prolongar, isso pode mudar.”

Possíveis mudanças políticas em Bagdá

O Irã é conhecido por ter grande influência na política iraquiana por meio de apoiadores em partidos xiitas e grupos paramilitares.

O Iraque está em meio à formação de um novo governo, após as eleições de novembro de 2025, e esse é um processo sempre tenso, com vários grupos demográficos disputando ministérios e poder.

As negociações travaram no mês passado devido ao debate sobre o próximo primeiro-ministro. Os EUA rejeitaram a candidatura controversa do antigo premiê Nouri al Maliki, considerado muito próximo do Irã.

Agora, um enfraquecimento da influência iraniana devido à guerra pode mudar o tabuleiro político e as negociações para a formação de um novo governo. “Isso pode se manifestar de várias maneiras, desde atrasos até a formação de um governo de emergência só para lidar com a guerra”, afirma o especialista em Oriente Médio Renad Mansour, do think tank britânico Chatham House.

Um Iraque mais soberano?

Mas há também quem veja benefícios na queda de influência iraniana sobre o Iraque. “A interferência estrangeira já afetou o Iraque por tempo demais”, diz o ex-parlamentar Mohammed Anouz à DW. “É uma das razões pelas quais não conseguimos ser independentes em nossas decisões.”

Para a especialista em Oriente Médio Victoria Taylor, do think tank Atlantic Council, um Irã menos focado em interferir nos assuntos iraquianos permitiria que o Estado iraquiano restabelecesse sua soberania. “Um Irã enfraquecido ou a queda do regime oferece uma oportunidade dramática de alterar o rumo do Iraque, aproximando-o mais do Ocidente e reduzindo a influência iraniana”, avalia.

Mansour, porém, alerta contra expectativas positivas em relação a uma guerra. “A história nos mostra que é mais provável que haja mais caos e violência antes que algo se estabilize. E isso, creio, é um pensamento assustador para muitos iraquianos.”

Hadad concorda que mudanças no Irã certamente afetarão a política iraquiana, mas ressalva que não está claro se de forma negativa ou positiva no longo prazo. “Qualquer instabilidade no Irã pode facilmente atravessar a fronteira, e há poucos aspectos positivos que surgem de uma guerra.”

Além disso, não está claro se um novo regime iraniano seria hostil ao Iraque ou não.