Dos cerca de 20 mil civis ucranianos atualmente detidos na Rússia, mais de 2 mil são mulheres, segundo grupos de direitos humanos. As poucas que foram libertadas até agora relatam trajetória de sofrimento.”A gente aguenta qualquer coisa, menos ficar longe dos próprios filhos. É por eles que a gente resiste”, diz Julia Dwornytschenko sobre sua prisão pelos russos. Ela foi capturada em 2021, ainda antes da invasão em grande escala da Ucrânia.

Por muito tempo, Julia não conseguiu falar sobre o que viveu, mas agora rompe o silêncio. Natural de Donetsk, passou um ano e meio em prisões da chamada “República Popular de Donetsk”. Essa parte da região de Donetsk estava sob controle de separatistas pró-Rússia desde 2014, e em setembro de 2022 o Kremlin a declarou território russo.

Durante o período em que esteve presa, Julia não pôde ver seus filhos, Danylo e Mark, nem uma única vez. Ela conta que muitas mulheres estavam presas em Donetsk e tiveram que, assim como ela, deixar para trás filhos menores esperando por elas.

Antes da prisão, essas mulheres trabalhavam como médicas, professoras, floristas ou vendedoras. Foram acusadas de “espionagem” pelas autoridades da autoproclamada república. Segundo Julia, todas foram torturadas para arrancar “confissões”. “Os métodos eram os mesmos para homens e mulheres. Usavam choques elétricos. Me despiram, me espancaram e jogaram água em mim”, relata.

Ocupação russa e prisão

A vida de Julia nunca mais foi a mesma desde 2014, quando sua cidade natal, Tchystiakove (antiga Torez), no leste da Ucrânia, caiu sob controle dos separatistas apoiados pela Rússia . Ela fugiu com a família para Mariupol, então sob controle ucraniano, mas pouco depois seu marido morreu e ela teve que voltar com os filhos para Tchystiakove.

Para sustentar a família, trabalhou como motorista de ônibus, transportando pessoas entre a área ocupada e territórios controlados por Kiev. Às vezes levava os filhos junto, “só para respirar um pouco e ver a diferença entre os territórios”, diz. Mas, em 2021, os postos de passagem foram fechados, e Julia deixou de sair da cidade.

Certa noite, agentes do “Ministério da Segurança do Estado da República Popular de Donetsk” bateram à sua porta. Julia foi levada sob acusação de espionagem. Seu filho mais novo, Mark, então com nove anos, dormia, mas Danylo, de 17, viu a operação de busca e a prisão da mãe. Segundo ela, os filhos ficaram sozinhos em casa. O mais velho cuidou do irmão, enquanto os agentes proibiram vizinhos de ajudar com comida ou visitas. “Meus filhos foram deixados à própria sorte”, diz Julia.

Tortura e coerção na prisão

Na primavera de 2021, Julia foi levada para a temida prisão Isolazia (em português, “Isolamento”), em Donetsk. Além da violência física, sofreu forte pressão psicológica: ameaçaram colocar seus filhos em um orfanato. “Eu disse que assinaria qualquer coisa, só para que eles não fossem para um orfanato. Então confessei ser ‘espiã ucraniana'”, conta. Depois disso, uma amiga próxima conseguiu assumir a guarda das crianças.

Julia aguardou julgamento em outra prisão de Donetsk. Não podia ver os filhos, apenas trocar cartas. Ela guarda fotos dessa época. “Aqui está uma foto do Mark escrevendo uma carta para mim na prisão. Para mim, é uma imagem terrível”, diz.

Com o início da invasão em larga escala da Rússia, em fevereiro de 2022, sua preocupação com os filhos aumentou, e as condições na prisão pioraram. As detentas foram proibidas de usar objetos enviados por familiares. Nos interrogatórios, falavam falsidades para fazer terror psicológico. “Diziam que a Ucrânia não existia e que não haveria troca de prisioneiros”, lembra Julia.

Apesar disso, as trocas de prisioneiros entre Ucrânia e Rússia continuaram. Julia e outras mulheres acompanhavam as notícias como podiam, na esperança de voltar para casa. Em outubro de 2022, Julia e mais duas mulheres foram retiradas das celas e levadas para território controlado pela Ucrânia .

Reencontro com a família

“Quando soube que minha mãe estava na lista de troca, foi como um segundo aniversário. Falamos por videochamada e choramos muito”, lembra Mark. Danylo, que já havia completado 18 anos, estava com parentes na Rússia quando recebeu a notícia da libertação da mãe.

Depois de pensar bastante, os irmãos decidiram ir ao encontro dela. Danylo buscou Mark na área ocupada e foram para Kiev, passando pela Rússia e por países intermediários. O reencontro aconteceu em dezembro de 2022. “Chorei muito. A Rússia me roubou muito tempo com meus filhos”, diz Julia, ainda emocionada.

Hoje, ela vive com os filhos em uma moradia gratuita oferecida por organizações humanitárias na região de Kiev. Mark, agora com 14 anos, voltou à escola, e Danylo, com 21, já trabalha. Julia também conseguiu emprego em um salão de manicure. No tempo livre, dedica-se a denunciar os crimes cometidos contra civis e a contar sua experiência de prisão.

Apoio após a libertação

Julia e outras mulheres que voltaram da prisão russa se uniram na organização “Numo, Sestry!” (em tradução livre: “Vamos lá, irmãs!”). Além de compartilhar vivências, elas lutam pela libertação das ucranianas que ainda estão detidas. Segundo estimativas de defensores dos direitos humanos, entre os cerca de 20 mil civis ucranianos presos, mais de 2 mil são mulheres.

Em agosto de 2025, três delas conseguiram voltar para a Ucrânia, incluindo Julia e Switlana, esta também da região de Donetsk. Presas desde 2019 sob acusação de espionagem, só puderam rever os filhos após a libertação. “Fiquei seis anos sem ver meus filhos. Não saber o que acontece com eles é muito difícil”, diz Switlana.

As duas afirmam que foram recebidas com carinho pela sociedade ucraniana. A “Numo, Sestry!” ajuda essas mulheres a recuperar documentos, encontrar emprego e moradia.

A líder da organização, Ljudmila Husejnowa, também foi libertada da prisão russa em 2022. Ela afirma que, atualmente, é extremamente difícil retirar civis detidos da Rússia e das áreas ocupadas, pois, segundo o direito internacional, sequer existe a categoria de “civil prisioneiro”. De acordo com a organização, até agora foi possível confirmar a identidade de cerca de 40 mulheres ucranianas mantidas presas nos territórios ocupados ou em prisões russas. Algumas já foram condenadas a longas penas.

“O pior para muitas mulheres com filhos pequenos é a separação deles. É um horror que não deveria existir no século 21”, diz Husejnowa.